terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017
CALENDÁRIOS DIVERSOS, INCLUINDO EM LIBRAS E INCLUSIVO... 2017
















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sábado, 18 de fevereiro de 2017
Livro Maquiavel Pedagogo e áudio (Pascal Bernardin)
Professora Marcia Valeria: Uma leitura (áudio) muito importante para o Profissional da Educação ter a certeza do que está acontecendo com a Educação Brasileira e não fazer parte dessa lavagem cerebral de nossas crianças e jovens. A Profissão de PROFESSOR é uma missão de Amor ao próximo e não de destruição familiar. Escute ou leia com atenção e denuncie escolas, universidades, faculdades, colegas de trabalho que estão colaborando com a implantação do comunismo, no Brasil, através da educação. O FUTURO DO BRASIL ESTÁ EM SUAS MÃOS!
Se você também passou por alguma experiência, escreva para a Comissão Especial do Escola sem Partido na Câmara dos Deputados: ce.escolasempartido@camara.leg.br
Esse e-mail foi criado para receber relatos das vítimas de doutrinação e perseguição política e ideológica nas escolas e universidades.
Esse e-mail foi criado para receber relatos das vítimas de doutrinação e perseguição política e ideológica nas escolas e universidades.
Pascal Bernardin, ÁUDIO do livro Maquiavel Pedagogo
NARRAÇÃO 4

SUMÁRIO
Capa
Folha de Rosto
Dedicatória
Introdução
As técnicas de manipulação psicológica
A submissão à autoridade
O conformismo
Normas de grupo
Pé na porta
“Porta na cara”
Dissonância cognitiva ou o espiritualismo dialético
Não pague a seus empregados
Você gosta de gafanhotos fritos?
Iniciação sexual de moças
Contatos extraterrestres
Dramatização
Decisão e discussão de grupo
A avaliação (dos alunos e dos professores)
A aplicação da psicologia social na educação
A modificação das atitudes
A aplicação das Ciências Sociais
Mudar a atitude: da persuasão ao engajamento
Condutas para mudar “as ideias”
A educação
A Unesco, a educação e o controle psicológico
A modificação de atitudes em escala internacional
A aplicação das Ciências Sociais
A educação
Totalitarismo?
A manipulação da cultura
A redefinição do papel da escola e o ensino multidimensional
O ensino não cognitivo e multidimensional
Ensino acadêmico versus aprendizado social
A revolução ética
A escola contra a família
O lugar da escola
A revolução cultural e interculturalismo: homenagem a Gramsci
Reescrever a história
A
prender a aprender
Os IUFMS
A formação dos professores
Pedagogias ativas e manipulações psicológicas nas salas de aula
Um projeto mundial
A descentralização
A implementação da reforma pedagógica
A autonomia dos diretores escolares
Conceder autonomia para dar confiança aos professores
A descentralização
Descentralização e ensino não cognitivo
A avaliação e a informatização do sistema educacional mundial
Os Estados Unidos
As organizações internacionais
A França
A Europa
A revolução pedagógica na França
A renovação pedagógica, os módulos e os ciclos
‘La décennie des mal-appris’ de François Bayrou 183
A avaliação
A formação continuada
A inovação pedagógica
A descentralização
As primeiras medidas governamentais
A sociedade dual
O baixo nível
O déficit democrático
A sociedade dual
O totalitarismo psicopedagógico
Conclusão
Bibliografia Seletiva
Créditos
INTRODUÇÃO
Uma revolução pedagógica baseada nos resultados da pesquisa psicopedagógica
está em curso no mundo inteiro. Ela é conduzida por especialistas em Ciências da
Educação que, formados todos nos mesmos meios revolucionários, logo dominaram os
departamentos de educação de diversas instituições internacionais: Unesco, Conselho da
Europa, Comissão de Bruxelas e OCDE. Na França, o Ministério da Educação e os IUFMS1
estão igualmente submetidos a sua influência. Essa revolução pedagógica visa a impor
uma “ética voltada para a criação de uma nova sociedade”2 e a estabelecer uma sociedade
intercultural. A nova ética não é outra coisa senão uma sofisticada reapresentação da
utopia comunista. O estudo dos documentos em que tal ética está definida não deixa
margem a qualquer dúvida: sob o manto da ética, e sustentada por uma retórica e por
uma dialética frequentemente notáveis, encontra-se a ideologia comunista, da qual apenas
a aparência e os modos de ação foram modificados. A partir de uma mudança de valores,
de uma modificação das atitudes e dos comportamentos, bem como de uma manipulação
da cultura,3 pretende-se levar a cabo a revolução psicológica e, ulteriormente, a revolução
social. Essa nova ética faz hoje parte dos programas escolares da França,4 e é
obrigatoriamente ensinada em todos os níveis do sistema educacional.
Estando claramente definido o objetivo, para atingi-lo são utilizados os resultados
da pesquisa pedagógica obtidos pelos soviéticos e pelos criptocomunistas norteamericanos
e europeus. Trata-se de técnicas psicopedagógicas que se valem de métodos
ativos destinados a inculcar nos estudantes os “valores, as atitudes e os comportamentos”
definidos de antemão. Por essa razão foram criadas os IUFMS, que se empenham em
ensinar essas técnicas de manipulação psicológica aos futuros professores.
Dentre os traços mais relevantes dessa revolução pedagógica, é preciso destacar
os seguintes:
◆ testes psicológicos, projetados ou já realizados, em grande escala;
◆ informatização mundial das questões do ensino e, particularmente, o censo (ora
em curso) de toda a população escolar e universitária, a pretexto de “aperfeiçoamento do
ensino”. Participam aí os testes psicológicos. Noventa por cento das crianças norteamericanas
já foram fichadas;
◆ asfixia ou subordinação do ensino livre;
◆ pretensão a anular a influência da família.
A revolução pedagógica francesa, aliás recentemente acelerada, inscreve-se nesse
quadro mundial. Nos últimos anos, numerosas modificações têm sido discretamente
introduzidas no sistema educacional francês ou constituem, atualmente, objeto de debate.
Os elementos de análise apresentados nos capítulos seguintes visam a evidenciar a
coerência do projeto mundial no qual eles se integram.
A primeira dessas reformas ocupa-se da formação de professores. As escolas
normais foram substituídas pelos Institutos Universitários de Formação de Mestres
(IUFMS). Eles se caracterizam pela importância que neles se dá às “ciências” da educação
e à psicopedagogia. Esses institutos preparam os professores para a sua nova missão:
redefinido o papel da escola, a prioridade é, já não a formação intelectual, mas o ensino
“não cognitivo” e a “aprendizagem da vida social”. Também aqui o objetivo é modificar os
valores, as atitudes e os comportamentos dos alunos (e dos professores). Para isso, são
utilizadas técnicas de manipulação psicológica e de lavagem cerebral.
A reforma na formação dos professores faz-se acompanhar de um considerável
esforço no campo da formação continuada de todas as categorias de profissionais da
educação: administradores, professores, diretores etc. devem igualmente estar adaptados
à nova missão da escola.
A revolução pedagógica está também presente nos estabelecimentos escolares.
Assim, a estrutura das escolas primária e maternal 5 foi modificada para substituir as
diversas séries por três ciclos 6 que reúnem alunos de níveis diferentes. Os ensinos formal
e intelectual são negligenciados em proveito de um ensino não cognitivo e
multidimensional, privilegiando o social. A reforma pedagógica introduzida no Ensino Médio
tende igualmente a uma profunda modificação das práticas pedagógicas e do conteúdo do
ensino.
Simultaneamente, um vasto dispositivo de avaliação dos alunos é implementado.
Por fim, ele deve ser informatizado, para ser utilizado em caráter permanente, e abrangerá
o ensino não cognitivo, tal como a educação ética, cívica e social.
Essa revolução pedagógica, introduzida discretamente, mediante discretas
manobras, sem deixar ver sua arquitetura geral, precisa levar em conta a resistência dos
professores, que jamais permitiram o aviltamento de seu ofício e de seus alunos. Desse
modo, aplicam-se técnicas de descentralização, oriundas diretamente das técnicas de
administração e de gestão de “recursos humanos”. Consegue-se com isso envolver, engajar
psicologicamente os professores e, portanto, reduzir a sua oposição. Os “projetos
escolares” são a aplicação direta dessa filosofia manipulatória.
Ademais, o nível escolar continuará decaindo, o que aliás não surpreende, já que o
papel da escola foi redefinido e que sua missão principal não consiste mais na formação
intelectual, e sim na formação social das crianças; já que não se pretende fornecer a elas
ferramentas para a autonomia intelectual, mas antes se lhes deseja impor, subrepticiamente,
valores, atitudes e comportamentos por meio de técnicas de manipulação
psicológica. Com toda nitidez, vai-se desenhando uma ditadura psicopedagógica.
No momento mesmo em que os democratas maravilham-se de sua vitória sobre o
comunismo, alguns observadores se questionam, lembrando-se do que disse Lênin: “É
preciso [...] estar disposto a todos os sacrifícios e, inclusive, empregar – em caso de
necessidade – todos os estratagemas, ardis e processos ilegais, silenciar e ocultar a
verdade”.7 Sérias interrogações subsistem quanto à natureza e a profundidade das
reformas empreendidas na antiga URSS. Essas interrogações, que não poderiam ser
abordadas no âmbito desse opúsculo, formam-lhe, contudo, a trama.
Outros há que evocam a tese da convergência entre capitalismo e comunismo,
defendida ainda há pouco por algumas organizações internacionais, por A. Sakharov e por
tantos outros. Sua perspectiva é mais ou menos ampla que a precedente? É ela, enfim,
mais justa? Não é nossa pretensão responder a essas perguntas, ligadas intimamente às
suspeitas que pesam sobre a perestroika.
Entretanto, essas interrogações formam o pano de fundo desse estudo. Escrito de
circunstância, cuja redação se ressente da brevidade do tempo que nos foi atribuído, ele
não pretende outra coisa senão esclarecer seus leitores acerca do que realmente está em
jogo nos debates atuais concernentes à reforma do sistema educacional. Ele evitará,
portanto, abordar frontalmente as questões de política internacional. Constata-se, porém,
que tais questões não poderiam permanecer por muito tempo sem resposta.
Há quem nos censure o fato de havermos insistido demasiado no aspecto
criptocomunista da revolução pedagógica por nós exposta, privilegiando de facto a primeira
das duas hipóteses. Convimos com isso de boa vontade, mas temos duas razões para
haver assim procedido. Em primeiro lugar, o aspecto criptocomunista dessa revolução não
poderia ser seriamente contestado. Culminância dos trabalhos realizados desde há quase
um século nos meios revolucionários norte-americanos, retomados e desenvolvidos
ulteriormente pela URSS e pela Unesco, ela traz em si as marcas de sua origem. Além
disso, reconhecer tais origens, admitir que nos encontramos face a uma temível manobra
criptocomunista, não exclui, em absoluto, a hipótese globalista da convergência entre
capitalismo e comunismo. Mais ainda, essa segunda hipótese na verdade supõe a presença
de um forte elemento criptocomunista na sociedade posterior à desaparição da cortina de
ferro.
Assim, rogamos ao leitor que considere como os fatos expostos nas páginas a
seguir se podem integrar em dois quadros diversos de análise e de interpretação, os quais
não pretendemos discriminar. Seria isso possível, aliás, considerando-se que os
acontecimentos estiveram subordinados a relações de força extremamente complexas e
sutis, capazes de orientar a história em uma direção imprevista? E considerando que os
próprios protagonistas estão, em sua imensa maioria, tanto do Oeste quanto do Leste,
inconscientes do sentido da História, que transcende infinitamente a dialética
criptocomunismo versus globalismo?
As organizações internacionais preservam-se por meio de expedientes como este:
“As opiniões expressas no presente estudo são de inteira responsabilidade do autor e não
refletem necessariamente o ponto de vista da Organização X”. Se essa ressalva é
verdadeira, stricto sensu, é necessário, não obstante, considerar que a organização
internacional, que editou tais opiniões, julgou-as suficientemente próximas das suas, já que
não apenas deixou de censurá-las mas, além disso, garantiu e financiou sua publicação.
Exatamente como a mídia, as organizações internacionais exercem sua influência não
tanto pelas opiniões que defendem como por meio dos autores aos quais elas concedem a
palavra e pelas teses que elas difundem, desse modo, sob sua autoridade. Ademais, as
teses que havemos de expor são todas elas representativas das correntes de ideias que
perpassam os meios globalistas. Nas referências, mencionaremos explicitamente as
publicações em que não são feitas quaisquer reservas.
1 IUFM: Instituto universitário de formação de mestres.
2 Parlamento europeu, Documento de sessão, Relatório da comissão da cultura, da
juventude, da educação e das mídias sobre La politique de l’éducation et de la formation
dans la perspective de 1993, 27 mar. 1992, p. 33. A-3-0139/92.
3 Cf. Seminário europeu de professores, Kolmarden, Norrköping, Suécia, 10-14 jun.
1985, La formation interculturelle des enseignants, Strasbourg, Conselho da Europa, 1987, p.
19 e 20. [DECS/EGT (86) 83-F].
4 Cf. 4ª Conferência dos ministros da educação dos estados-membros da região
Europa, Perspective et taches du développement de l’éducation en Europe à l’aube d’un
nouveau millenaire, Paris, Unesco, 1988, p. 11 (ED-88/MINED-EUROPE/3). Documento
naturalmente publicado sem reserva sobre as opiniões dispostas pelos seus autores.
5 Equivalente à fase da creche e da pré-escola no sistema educacional brasileiro –
N. do T.
6 No sistema educacional francês, são três os ciclos das séries iniciais, que
comportam de duas a três etapas, assim organizados: ciclo dos primeiros aprendizados:
pequena seção, média seção, seção maior; ciclo das aprendizagens fundamentais: curso
preparatório e curso elementar 1; ciclo de aprofundamento: curso elementar 2, curso
médio 1 e curso médio 2 – N. do T.
7 V. Lenine, La maladie infantile du communisme, Paris, Editions sociales, Moscou,
Editions du progrès, 1979, p. 69.
CAPÍTULO I
AS TÉCNICAS DE
MANIPULAÇÃO PSICOLÓGICA
As técnicas de manipulação psicológica tornaram-se objeto, já há muitas décadas,
de aprofundados trabalhos de pesquisa realizados por psicólogos e psicólogos sociais, tanto
militares quanto civis. É às vezes difícil, e psicologicamente desconfortável, admitir sua
temível eficácia. O objetivo deste capítulo consiste em chamar a atenção sobre tais
técnicas, que frequentemente preferimos ignorar, deixando assim o campo livre àqueles
que não temem utilizá-las.
Já há trinta anos que as técnicas de lavagem cerebral fornecem resultados
notáveis. Desde então, elas têm passado por significativos aperfeiçoamentos e,
atualmente, são ensinadas nos IUFMS de maneira semivelada. Ainda que brevemente,
trataremos de apresentá-las aqui, pois elas nos permitem perceber os verdadeiros riscos
por trás da querela dos IUFMS e da introdução dos métodos pedagógicos ativos. Tais
técnicas apóiam-se essencialmente sobre o behaviorismo e a psicologia do
engajamento. 8
A submissão à autoridade
Em uma série de experiências célebres, o professor Stanley Milgram evidenciou de
maneira espetacular o papel da submissão à autoridade no comportamento humano.
Milgram 9 repetiu suas experiências com 300 mil pessoas, experiências estas que foram
reproduzidas em numerosos países. Os resultados obtidos são indiscutíveis. A experiência
de base envolve três pessoas: o pesquisador, um suposto aluno, que na verdade é um
colaborador do pesquisador, e o verdadeiro objeto da experiência, o professor. A
experiência pretende supostamente determinar a influência das punições no aprendizado. O
professor deve então mostrar ao suposto estudante extensas listas de palavras e, em
seguida, testar sua memória. Em caso de erro, uma punição precisa ser imposta ao
colaborador. O objeto da experiência ignora, naturalmente, o status real do colaborador, e
crê que este, como ele próprio, não tem qualquer relação com a organização da
experiência. As punições consistem em descargas elétricas de 15 a 450 volts, as quais o
próprio professor deve acionar contra o suposto estudante, situado em uma peça vizinha.
A voltagem das descargas aumenta a cada erro cometido. O colaborador, é claro, não
recebe essas descargas, contrariamente ao que acredita o professor – este é quem
recebe, no início do experimento, uma descarga de 45 volts, para “assegurar-se de que o
gerador funciona”. As reações que o colaborador deve simular são estritamente
codificadas: a 75 volts ele começa a murmurar; a 120 volts, ele reclama; a 150 volts ele
pede que parem com a experiência e, a 285 volts, ele lança um grito de agonia, depois do
qual se cala completamente. É assegurado ao professor que os choques são dolorosos mas
não deixam sequelas. O pesquisador deve zelar para que a experiência chegue a seu
termo, tratando de encorajar o professor, caso este venha a manifestar dúvidas quanto à
inocuidade da experiência ou caso deseje encerrá-la. Também esses encorajamentos são
estritamente codificados: à primeira objeção do professor, o pesquisador lhe responde:
“Queira continuar, por favor”; na segunda vez: “A experiência exige que você continue”; na
terceira vez: “É absolutamente essencial que você continue”; na quarta e última vez:
“Você não tem escolha. Deve continuar”. Se o professor persiste em suas objeções após o
quarto encorajamento, a experiência é encerrada.
O resultado da experiência é espantoso: mais de 60% dos professores levam-na
até o final, mesmo convencidos de que estão realmente administrando correntes de 450
volts. Em alguns países, a taxa chega a alcançar 85%. É preciso acrescentar que a
experiência é extremamente penosa para os professores, e que eles vivenciam uma forte
pressão psicológica mas seguem, não obstante, até o fim.
Há algo, porém, ainda mais inquietante. No caso de o professor limitar-se a
simplesmente ler a lista de palavras, enquanto as descargas são enviadas por outra
pessoa, mais de 92% dos professores chegam a concluir integralmente a experiência.
Assim, uma organização cuja operação é setorizada pode-se tornar um cego e temível
mecanismo: “Esta é talvez a lição fundamental de nosso estudo: o comum dos mortais,
realizando simplesmente seu trabalho, sem qualquer hostilidade particular, pode-se tornar
o agente de um processo de destruição terrível”. 10
Houve quem considerasse a hipótese de que, em tais experimentos, os professores
davam livre curso a pulsões sádicas. Mas essa hipótese é falsa. Se o pesquisador se
afasta ou deixa o local de experiência, o professor logo diminui a voltagem das descargas.
Quando podem escolher livremente a voltagem, a maioria dos professores emite a
voltagem mais baixa possível.
A autoridade do pesquisador é um fator fundamental. Se já de início o colaborador
pede que pesquisador troque de lugar consigo, encorajando em seguida o professor a
continuar a experiência, agora sobre o pesquisador, suas recomendações não têm efeito,
uma vez que ele não está investido de qualquer autoridade.
Quando a experiência envolve dois professores, um dos quais, atuando em
colaboração com o pesquisador, abandona precocemente a experiência, em 90% dos casos
o outro professor segue-lhe o exemplo.
Finalmente, e é isto o que mais chama a atenção, nenhum professor tenta deter a
experiência ou denunciar o pesquisador. A submissão à autoridade é, portanto, muito mais
profunda do que aquilo que os percentuais acima sugerem. A contestação se mantém
socialmente aceitável.
Quais conclusões se podem tirar dessa experiência inúmeras vezes repetida?
Inicialmente, que existem técnicas muito simples que permitem modificar profundamente
o comportamento de adultos normais. Em seguida, que essas técnicas podem ser, e são,
objeto de estudos científicos aprofundados. Enfim, que seria bastante surpreendente que
tais trabalhos fossem executados por mero amor à ciência, sem qualquer aplicação
prática.
O conformismo
A tendência ao conformismo foi estudada por Asch, 11 em sua célebre experiência.
Ao sujeito avaliado, apresenta-se uma linha traçada sobre uma folha; além dela, três
outras linhas de comprimentos diversos. Em seguida, se lhe pede para apontar, entre
essas três linhas, aquela cuja medida é igual à da linha-padrão. Por exemplo: esta última
mede quatro polegadas, enquanto as linhas que devem ser a ela comparadas medem, cada
qual, três, cinco e quatro polegadas. À experiência estão presentes indivíduos associados
ao pesquisador, que devem igualmente responder à questão. Estes, cujo papel real na
experiência é ignorado pelo avaliado, dão, nos ensaios válidos, a mesma resposta errônea,
combinada anteriormente à experiência. O indivíduo testado tem duas alternativas: ou dar
uma resposta errônea ou se opor à opinião unânime do grupo. A experiência é repetida
diversas vezes, com diferentes linhas-padrão e linhas para comparar. Há ocasiões em que
os colaboradores respondem de modo correto (ensaios neutros). Aproximadamente três
quartos dos indivíduos realmente avaliados deixam-se influenciar nos ensaios válidos,
dando uma ou várias respostas errôneas. Assim, 32% das respostas dadas são errôneas,
mesmo que a questão não ofereça, naturalmente, qualquer dificuldade. Na ausência de
pressões, o percentual de respostas corretas chega a 92%. Verifica-se também que os
indivíduos conformistas, interrogados após a experiência, depositaram sua confiança na
maioria, decidindo-se pelo parecer desta, apesar da evidência perceptiva. Sua motivação
principal está na falta de confiança em si e em seu próprio julgamento. Outros
conformaram-se à opinião do grupo para não parecer inferiores ou diferentes. Eles não têm
consciência de seu comportamento. Assim, a percepção de uma pequena minoria de
sujeitos avaliados foi modificada: seus membros enxergaram as linhas tais como a
maioria as descreveu. Lembremos que o indivíduo não sofria qualquer sanção caso errasse
ao responder, da mesma forma que, na experiência de Milgram, ninguém se iria opor a
quem desejasse abortar a experiência.
Convém notar que, se um dos colaboradores dá a resposta correta, o indivíduo
avaliado então se sente liberto da pressão psicológica do grupo e dá, igualmente, a
resposta correta, resultado que ilustra bem o papel dos grupos minoritários. A realidade
social, contudo, é para estes bem menos favorável, uma vez que as pressões ou sanções
são aí muito mais intensas.
Normas de grupo
A célebre experiência de Sherif 12 sobre o efeito autocinético evidencia a influência
exercida por um grupo sobre a formação das normas e atitudes de seus membros. A
experiência desenrola-se assim: tendo-se instalado um indivíduo, sozinho, em uma sala
escura, pede-se-lhe que descreva os movimentos de uma pequena fonte luminosa, a qual,
na verdade, acha-se imóvel. O sujeito, não encontrando nenhum ponto de referência, logo
começa a perceber movimentos erráticos (efeito autocinético). Após algum tempo, passa
a considerar que a amplitude dos movimentos oscila em torno de um valor médio, que
varia de indivíduo para indivíduo. Se, ao contrário, a experiência é realizada com vários
indivíduos observando a mesma fonte luminosa e partilhando entre si suas observações,
surge logo uma norma de grupo à qual todos se conformam. No caso de, posteriormente,
um indivíduo ser deixado só, ele permanece, ainda assim, conformado àquela norma de
grupo. Tendo-se repetido a experiência, propondo agora ao sujeito outras questões
ambíguas (estimativas de temperatura, julgamentos estéticos etc.), constatou-se que,
quanto mais difícil era formular um julgamento objetivo, mais estreita se fazia a
conformidade à norma de grupo.
Sherif generaliza esses resultados até “o estabelecimento de normas sociais, como
os estereótipos, as modas, as convenções, os costumes e os valores”. Interrogando-se
sobre a possibilidade de “fazer com que o sujeito adote [...] uma norma prescrita, ditada
por influências sociais específicas”, ele submete o indivíduo em teste à influência de um
companheiro prestigioso (um universitário), e logra obter que o sujeito ingênuo modifique
sua norma e a substitua por aquela do companheiro de mais prestígio.
Pé na porta
Freedman e Fraser, em 1966,13 trazem à luz um fenômeno conhecido como pé-naporta.
Tratemos brevemente de duas de suas experiências.
Com a primeira delas, se buscava conhecer, em função da maneira como era
formulada a pergunta, o percentual de donas de casa dispostas a responder a uma enquete
a respeito de seus hábitos de consumo. Estimando que tal enquete deveria ser longa e
aborrecida, somente 22% aceitaram dela participar quando se lhes convidou a isso
diretamente. Mas os autores, dirigindo-se a uma segunda amostragem, fizeram preceder à
pergunta um processo preparatório bastante simples: três dias antes de formulá-la,
telefonaram aos membros desse grupo, solicitando-lhes que respondessem a oito
perguntas acerca de seus hábitos de consumo em matéria de produtos de limpeza.
Quando, três dias mais tarde, se lhes pediu para que se submetessem à mesma enquete
que fora feita com os membros da primeira amostragem, a taxa de aceitação elevou-se a
52%. Chama a atenção o fato de que um procedimento tão simples possua tamanho
poder.
Portanto, o princípio do pé-na-porta é o seguinte: começa-se por pedir ao sujeito
que faça algo mínimo (ato aliciador), mas que esteja relacionado ao objetivo real da
manipulação, que se trata de algo bem mais importante (ato custoso). Assim, o sujeito
sente-se engajado, ou seja, psicologicamente preso por seu ato mínimo, anterior ao ato
custoso.
Noutra experiência, os mesmos autores dividiram igualmente os participantes em
dois grupos. Os membros do primeiro não foram submetidos a qualquer preparação
particular. Aos membros do segundo grupo foi solicitado que colassem (ato aliciador) um
adesivo na janela. Pediu-se em seguida aos membros dos dois grupos que instalassem,
cada qual em seu jardim, uma grande placa – que chegava a encobrir parcialmente a
fachada da casa – a qual recomendava prudência aos motoristas. Enquanto o percentual de
aceitação, no primeiro grupo, foi de apenas 16,7%, no segundo esse percentual atingiu a
marca de 76%. Ainda, convém notar que, contrariamente à pesquisa anterior, nesta, as
duas experiências foram conduzidas por duas pessoas diferentes.
E não é só isso. A enorme disparidade entre esses percentuais, citados logo acima,
foi obtida nos casos em que o adesivo também exortava os motoristas à prudência. A
atitude era a mesma (ser favorável a uma conduta mais prudente), tanto no ato aliciador
(fixar um adesivo) quanto no ato custoso (instalar em seu jardim uma placa sem graça).
Acontece que, mesmo que essa condição não seja atendida, podem-se obter resultados
bastante significativos. Convidando um terceiro grupo, não para colar adesivos que
recomendassem uma conduta prudente, mas para assinar uma petição para manter bela a
Califórnia, os autores obtiveram uma taxa de aceitação de 47,4% contra – notemos esse
valor – 16,7%, quando a demanda não foi precedida de nenhum ato aliciador. Nesse
protocolo experimental, a atitude referente a esse ato aliciador (ser favorável à
preservação da qualidade ambiental) já não é a mesma relacionada ao ato custoso
(estimular uma conduta mais prudente). Da mesma forma, a natureza de um e de outro
ato, nesse caso, diferem: assinar uma petição redigida por um terceiro, comportamento
pouco ativo e, de certa forma, anônimo, não pode ser comparado ao fixar-se, no próprio
jardim, uma placa de grandes dimensões, comportamento ativo e personalizado. Assim,
favorecer as diversas associações e organizações não governamentais coloca a população
no papel – ilusório – de ator 14 e modifica suas atitudes, levando-a, em seguida, a
empreender atos cada vez mais custosos.
“Porta na cara”
Técnica complementar à precedente, a “porta na cara”15 consiste em apresentar,
de início, um pedido exorbitante, que naturalmente será recusado, depois do que se
formula um segundo pedido, então aceitável. Em uma experiência clássica, Citaldini et al.
solicitaram a alguns estudantes que acompanhassem, por duas horas, um grupo de jovens
delinquentes em uma visita ao zoológico. Formulada diretamente, essa solicitação obteve
somente 16,7% de aceitação. Entretanto, colocando-a após um pedido exorbitante, a taxa
elevou-se a 50%. Naturalmente, um “pé na porta” ou uma “porta na cara” podem ser úteis
para se extorquir um ato custoso, o qual, por sua vez, consistirá em um ato aliciador, no
caso de um próximo pé na porta. Com tal expediente, é possível obter comprometimentos
cada vez mais significativos. Essa técnica de “bola de neve” é efetivamente aplicada.
Dissonância cognitiva ou o espiritualismo dialético
A teoria da dissonância cognitiva, elaborada em 1957 por Festinger,16 permite
perceber o quanto nossos atos podem influenciar nossas atitudes, crenças, valores ou
opiniões. Se é evidente que nossos atos, em medida mais ou menos vasta, são
determinados por nossas opiniões, bem menos claro nos parece que o inverso seja
verdadeiro, ou seja, que nossos atos possam modificar nossas opiniões. A importância
dessa constatação leva-nos a destacá-la, para que, a partir dela, se tornem visíveis as
razões profundas da reforma do sistema educacional mundial. Verificamos anteriormente
que é possível induzir diversos comportamentos, apelando-se à autoridade, à tendência ao
conformismo ou às técnicas do “pé na porta” ou da “porta na cara”. Os fundamentos que
servem de base a esses atos induzidos repercutem em seguida sobre as opiniões do
sujeito, modificando-as (dialética psicológica). Assim, encontramo-nos diante de um
processo extremamente poderoso, que permite a modelagem do psiquismo humano e que,
além disso, constitui a base das técnicas de lavagem cerebral.
Uma dissonância cognitiva é uma contradição entre dois elementos do psiquismo
de um indivíduo, sejam eles: valor, sentimento, opinião, recordação de um ato,
conhecimento etc. Não é nada difícil provocar dissonâncias cognitivas. As técnicas de “pé
na porta” e “porta na cara” têm a capacidade de extorquir a alguém atos em contradição
com seus valores e sentimentos. O exercício do poder ou da autoridade (de um professor,
por exemplo) permite que se alcance facilmente o mesmo resultado. A “clarificação de
valores”, técnica pedagógica largamente utilizada, provoca, sem qualquer aparência de
coação, dissonâncias cognitivas. (Exemplo: você está, em companhia de seu pai e de sua
mãe, a bordo de uma embarcação que naufraga; há disponível somente um colete salvavidas.
O que você faz?) A experiência prova que um indivíduo numa situação de
dissonância cognitiva apresentará forte tendência a reorganizar seu psiquismo, a fim de
reduzi-la. Em particular, se um indivíduo é levado a cometer publicamente (na sala de
aula, por exemplo) ou frequentemente (ao longo do curso) um ato em contradição com
seus valores, sua tendência será a de modificar tais valores, para diminuir a tensão que
lhe oprime. Em outros termos, se um indivíduo foi aliciado a um certo tipo de
comportamento, é muito provável que ele venha a racionalizá-lo. Convém notar que,
nesse caso, trata-se de uma tendência estatística evidente, e não de um fenômeno
sistematicamente observado; as teorias que referimos não pretendem resumir a totalidade
da psicologia humana, mas sim fornecer técnicas de manipulação aplicáveis na prática.
Dispõe-se, assim, de uma técnica extremamente poderosa e de fácil aplicação, que
permite que se modifiquem os valores, as opiniões e os comportamentos e capacita a
produzir uma interiorização dos valores que se pretende inculcar. Tais técnicas requerem
a participação ativa do sujeito, que deve realizar atos aliciadores os quais, por sua vez, os
levarão a outros, contrários às suas convicções. Tal é a justificação teórica tanto dos
métodos pedagógicos ativos como das técnicas de lavagem cerebral.
“Os métodos ativos, fundados sobre a participação, são particularmente
aptos a garantir essa aquisição [de valores úteis].” (Declaração mundial sobre
a educação para todos).17
Notemos, de passagem, pois não seria ocasião de aprofundar esse aspecto, o papel
fundamental desempenhado pelo sentimento de liberdade experimentado pelo indivíduo
durante uma experiência. Na ausência desse sentimento, não se produz qualquer
dissonância cognitiva e, consequentemente, nenhuma modificação de valor, já que o sujeito
tem consciência de agir sob constrangimento e não se sente minimamente engajado.
Essas considerações, bem como outras similares, no domínio da dinâmica de grupo, podem
lançar uma nova luz sobre importantes processos políticos ocorridos nesses últimos anos.
Passemos em revista algumas experiências ou observações célebres a respeito da
dissonância cognitiva.
Não pague a seus empregados
A experiência de Festinger e Carlsmith18 pode ser assim resumida: num primeiro
momento, os examinandos devem realizar uma tarefa manual repetitiva e extremamente
tediosa. Em seguida, o pesquisador – pretextando uma indisponibilidade de seu colaborador
– lhes pede que apresentem a tarefa a outros examinandos, mostrando-a como um
exercício interessante, prazeroso. Para que realizem essa apresentação, a uns é oferecido
um dólar, a outros são oferecidos vinte dólares. Ao termo da experiência, os indivíduos
desses dois grupos são testados, a fim de se conhecer suas atitudes reais em relação
àquela tarefa inicial. Aqueles aos quais foram pagos vinte dólares descreveram-na como
tediosa, enquanto os demais, que receberam um dólar, modificaram sua cognição
relativamente à tarefa e passam não somente a considerá-la interessante e prazerosa,
mas, ainda, mostram-se dispostos a participar de outras experiências semelhantes. Os
primeiros justificam sua mentira admitindo haver agido por interesse na retribuição, o que
já não podem fazer os do outro grupo, aos quais se havia prometido um dólar apenas.
Colocados em situação de dissonância cognitiva, provocada pela contradição entre sua
percepção inicial da experiência e o ato que foram levados a cometer (mentir a respeito
do caráter da experiência), sentem-se impelidos a reduzir a dissonância, e a maneira mais
natural consiste em modificar sua opinião em relação àquela percepção inicial.
Assim, uma pressão fraca (oferecer um dólar como prêmio), quer dizer, uma
pressão apenas suficiente para induzir ao comportamento buscado, tem efeitos cognitivos
muito mais extensos que uma pressão mais forte (oferecer vinte dólares). Esse fenômeno
é bem conhecido do “menagers”, que não ignoram que os dirigentes que percebem salários
menores são mais comprometidos com o trabalho e na sua relação com a empresa. Da
mesma forma, os pedagogos puderam constatar que uma ameaça fraca, apenas suficiente
para gerar o comportamento desejado, é frequentemente mais eficaz a longo prazo do que
uma ameaça mais forte. Nesse último caso, a criança, consciente de que cede a uma
forte pressão, conserva seu desejo inicial, o qual ela deverá satisfazer logo que possível.
Entretanto, no primeiro caso dá-se o contrário: a criança tenderá a entrar em dissonância
cognitiva induzida pela contradição entre seu desejo inicial e seu comportamento efetivo,
produzido pela pressão psicológica ligada à ameaça fraca. Exatamente como no caso dos
indivíduos submetidos às experiências de Festinger e Carlsmith, impõe-se a necessidade
de reduzir essa dissonância, o que se pode obter mediante o expediente de desvalorizar o
comportamento proibido. A modificação de atitude e de comportamento é então duradoura,
uma vez que, nesse caso, ocorreu uma interiorização da proibição.
Você gosta de gafanhotos fritos?
Sob o pretexto de diversificar o menu de um colégio militar, incluíram-se nele
gafanhotos fritos,19 o que, convém notar, não agradou a ninguém. Mas a apresentação
dessa novidade foi realizada de duas maneiras diversas: um grupo foi convidado a dela
participar por um sujeito simpático, enquanto o segundo grupo foi confiado a um homem
desagradável, que tinha mesmo por objetivo forjar-se numa figura antipática, efeito que
obtinha – a par de outros recursos – ao tratar seu assistente de modo grosseiro. Realizada
a experiência, constatou-se que, entre as pessoas que realmente comeram gafanhotos
fritos, o percentual de membros do segundo grupo que declararam haver gostado era
significativamente maior que o do primeiro grupo. Enquanto estes podiam justificar
interiormente seu ato, já que haviam agido motivados pela simpatia do apresentador, os
membros do segundo grupo viram-se obrigados a encontrar uma justificação do
comportamento que lhes fora extorquido. Para reduzir a dissonância cognitiva provocada
pela contradição entre sua aversão por gafanhotos fritos e o ato de comê-los, só lhes
restava mudar sua opinião a respeito daquela aversão.
Iniciação sexual de moças
Para participar de discussões em grupo acerca da psicologia sexual, algumas
jovens foram levadas a passar por diversas “provas iniciáticas”.20 Ao primeiro grupo
impôs-se uma iniciação severa e fastidiosa, psicologicamente aliciadora, portanto. Ao
segundo, impôs-se uma iniciação superficial. O grupo testemunho, por fim, foi admitido
sem qualquer iniciação. A discussão fora preparada para ser extremamente tediosa e
desinteressante. Constatou-se, ao final, que as jovens que declararam haver gostado da
discussão foram justamente aquelas que passaram pela iniciação mais severa. Nesse
caso, a dissonância cognitiva era provocada pela contradição entre o investimento
psicológico necessário para suportar uma iniciação severa e a ausência de qualquer
benefício daí obtido.
Contatos extraterrestres
A senhora Keech,21 fundadora de uma pequena seita, dizia receber mensagens
extraterrestres que a informavam sobre a iminência do fim do mundo. Tendo sido
anunciado o dia da catástrofe, convidaram-se os membros da seita a se reunirem, na
véspera, para serem conduzidos à segurança do interior de um OVNI, que aliás nunca veio.
Festinger estudava o grupo e se interessava pelo modo segundo o qual seus membros
realizariam a redução da dissonância cognitiva após o resultado, previsível, desse
momento crítico. (Com efeito, sabe-se que é bastante significativo o investimento
psicológico que ocorre em seitas; a dissonância cognitiva que se gera em tais situações é
considerável.) Tendo já passado a hora fatídica, a senhora Keech declarou ter recebido
uma nova mensagem, pela qual era informada de que a fé e o fervor de seus discípulos
haviam permitido que a catástrofe fosse evitada. Então estes, submetidos a uma forte
dissonância cognitiva, apressaram-se a aceitar tal explicação, que lhes proporcionava, a
um custo baixo, reduzir aquela dissonância. Além disso, passaram ao proselitismo, atitude
que haviam cuidadosamente evitado nos dias que precederam o dia fatídico.
Dramatização
Constatou-se experimentalmente que uma dramatização, em que pese seu caráter
aparentemente lúdico, é capaz de provocar dissonâncias cognitivas e as subsequentes
alterações de valor. A identificação ativa ao papel assumido é suficientemente forte para
aliciar o ator. Esse surpreendente resultado é incontestável e firmemente estabelecido. Ao
obrigar os indivíduos a agir em oposição às suas convicções, sem constrangê-los
formalmente a isso, facilita-se o surgimento de dissonâncias cognitivas e a consequente
organização do universo cognitivo do ator. A dramatização é a base do psicodrama, técnica
psicológica correntemente utilizada. Igualmente, a dramatização constitui uma das
psicopedagogias ativas mais poderosas e de uso mais comum; é ensinada nos IUFMS, por
exemplo.
Para que as experiências multiculturais dos alunos não sejam deixadas
ao acaso dos encontros, pode-se mesmo simular, nas dramatizações, as
quais se inspiram na dinâmica de grupos, o encontro de pessoas
pertencentes a culturas diversas. Já são propostas estratégias de ensino e
técnicas que oferecem aos alunos a possibilidade de explorar
sistematicamente situações standard, de exercer metodicamente seu
julgamento (o que permite descobrir como funcionam os mecanismos de
julgamento), de clarificar os valores que eles encontram ou descobrem e de
colocar à prova os princípios das diversas crenças. Há quem sustente que
essas técnicas podem ser introduzidas nas escolas, e que já é hora de fazê-lo;
outros há que sustentam opinião contrária, condenando essa inflexão do ensino
para um sentido subjetivista e quase terapêutico.22
Essa última frase é um exemplo notável da dialética utilizada constantemente
pelas organizações internacionais.
Assinalemos um aspecto frequentemente pouco conhecido da dramatização: a
redação de textos, que se pode levar até à escrita de confissões. Experimentalmente,
provou-se que tais expedientes tem a capacidade de promover uma mudança nas atitudes
de seus autores. Sabe-se, além disso, que eles são parte integrante das técnicas de
lavagem cerebral.
Decisão e discussão de grupo
As decisões e discussões de grupo, por seu inegável caráter público, tem um alto
potencial para promover o engajamento. Elas constituem uma das mais poderosas técnicas
para introduzir dissonâncias cognitivas. A terapia de grupo, técnica psicoterapêutica
clássica, tem nelas um de seus elementos constitutivos fundamentais. Elas são também
utilizadas pela pedagogia ativa, que frequentemente as apresenta como exercícios de
comunicação. E são ensinadas nos IUFMS.
Claro está que a dinâmica de grupos apóia-se ainda sobre outros elementos,
principalmente afetivos, mas não seria pertinente detalhá-los aqui.
A avaliação (dos alunos e dos professores)
A avaliação23 consiste em outro meio extremamente eficaz para conduzir à
interiorização de valores e de atitudes. Não é possível esclarecer os seus fundamentos
recorrendo-se a outras teorias da psicologia social que não a do engajamento. Suas
conclusões podem ser resumidas em poucas palavras, dizendo-se que, por força do
exercício do poder personificado pelo avaliador, o sujeito da avaliação é levado a
interiorizar normas sociais. Esse processo está na base da reprodução social ou – se se
altera a escala da avaliação – da modificação de valores. A avaliação formativa, conforme
seu nome indica, visa expressamente a ensinar o sujeito. Quando aplicada ao domínio da
ética, leva a interiorizar valores e atitudes. Sob a forma de autoavaliação, ela acrescenta o
engajamento do sujeito à sua avaliação. O estudo das diversas formas de avaliação
(teorias da avaliação) constitui um componente importante da psicopedagogia e do ensino
dispensado nos IUFMS.
Importa agora ver como essas técnicas são utilizadas no ensino e, de modo mais
geral, em toda a sociedade.
8 Nossa sumária exposição das técnicas de manipulação psicológica deverá
basear-se principalmente sobre três obras relevantes: D. Winn. The Manipulated Mind.
London, The Octagon press, 1984; R.V. Joule, J.L. Beauvois. Soumission et idéologies. Paris,
PUF, 1981; R.V. Joule, J.L. Beauvois. Petit traité de manípulation à l’usage des honnêtes
gens. Grenoble, Presses universitaires de Grenoble, 1987.
9 S. Milgram. Soumission à I’autorité. Paris, Calmann-Lévy, 1974.
10 S. Milgram. Obedience to Authority. New York, Harper & Row, 1974. Citado por
Winn, Op. cit., p. 47.
11 S.E. Asch, lnfluence interpersonnelle. Les effets de la pression de groupe sur la
modification et la distorsion des jugements, In: C. Faucheux, S. Moscovici (eds.).
Psychologie sociale théorique et expérimentale. Mouton Editeur, Paris, 1971, p. 235-245.
12 M. Sherif. lnfluences du groupe sur la formation des normes et des attitudes.
In: C. Faucheux, S. Moscovici (eds.), ibid., p.207-226.
13 Freedman, J.L., Fraser, S.C. Compliance without pressure: the foot-in-the-door
technique, Journal of Personality and Social Psychology, vol. 4, n°2, p.195-202,1966.
14 Levando-a, também ilusoriamente, a “internalizar” o local de controle (locus of
control).
15 R.B. Cialdini, J.E. Vincent, S.K. Lewis, J. Catalan, D. Wheeler, B.L. Darby,
Reciprocal concessions procedure for inducing compliance: the door-in-the-face technique,
Journal of Personality and Social Psychology, vol. 31 , n° 2, p.2O6-215, 1975.
16 L. Festinger. A theory of cognitive dissonance. Stanford University Press, 1968.
Ver também: Beauvois et Joule. Soumission et idéologies. Op. cit., p. 49 sq.
17 WCEFA, Conférence mondiale sur l’éducation pour tous, 5-9 mars 1990, Jomtien,
Thaïlande, Déclaration mondiale sur l’éducation pour tous, New York, 1990, Unicef, p. 5.
Essa declaração e o Plano de ação para satisfazer as necessidades básicas de
aprendizagem, que teremos ocasião de citar ainda várias vezes, foram adotados
unanimemente pelos participantes da Conferência mundial sobre educação para todos.
Organizada pelo PNUD, Unesco, Unicef e pelo Banco Mundial, ela reuniu delegados de 155
países e de vinte organizações intergovernamentais. Entre tais países e organizações,
encontram-se os seguintes: Brasil, Canadá, China, França, RFA, Índia, Itália, Japão, Reino
Unido, URSS, USA, ONU, FAO, UNICEF, UNESCO, UNHCR, OMS, Comissão das comunidades
europeias, OCDE. Naturalmente, esse documento foi publicado sem nenhuma reserva
acerca das opiniões expostas por seus autores.
18L. Festinger, J.M. Carlsmith. Cognitive consequences of forced compliance,
Journal of Abnormal Social Psychology, 58, p. 203-21 0, 1959. Version française dans: C.
Faucheux, S. Moscovici. Psychologie sociale théorique et expérimentale. Paris, Mouton
éditeur, 1971.
19Ver: Winn. The Manipulated Mind. Op. cit., p. 121.
20E. Aronson, J. Mills. The effect of severity of initiation on liking for a group, The
Journal of Abnormal and Social Psychology, vol. 59, sept. 1959, n 2, p. 177-181.
21L. Festinger. A theory of cognitive díssonance. Op. cit., p.252-259.
22OCDE/CERI. L’école et les cultures. Paris, OCDE, 1989, p. 73. Advertimos para o
fato de que as reticências foram abandonadas desde então. Essa obra foi redigida por um
membro do Secretariado do Centro de Pesquisas e Inovação do Ensino (CERI) da OCDE. Ela
“apresenta os resultados das análises efetuadas pelo Secretariado dos programas de
ensino implementados por diversos países, a fim de responder ao desafio multicultural,
multiétnico e plurilinguístico das sociedades contemporâneas” (p. 3). O prefácio desse
documento é de autoria do diretor do CERI.
23 Beauvois et Joule. Soumission et idéologies, Op. cit., p. 162 sq.
CAPÍTULO II
A APLICAÇÃO DA PSICOLOGIA
SOCIAL NA EDUCAÇÃO
Educar e formar24 foi publicado em 1989 por Jean-Marc Monteil, professor de
Psicologia na Universidade de Clermont-Ferrand, onde dirige o laboratório de Psicologia
Social. Sua obra busca “propor aos docentes, aos educadores, aos responsáveis pela
formação, algumas orientações para a ação, e, aos estudantes e pesquisadores em
Ciências Sociais e Humanas, uma fonte de informação útil”.25 O objeto de tal trabalho
consiste, portanto, na educação, e nele podemos encontrar, com proveito para a nossa
investigação, as técnicas expostas no capítulo anterior.
A modificação das atitudes
Tal como nas situações descritas no capítulo anterior, o foco aqui são as
disposições, as cognições, as percepções etc.: “Por trás desses jogos de influências, o que
se busca é a mudança das disposições e dos comportamentos, a modificação das
cognições do sujeito” (p. 118).
“Os processos de influência social podem ser definidos, em sua acepção
mais específica, como processos que regem as modificações de percepções,
juízos, opiniões, disposições ou comportamentos de um indivíduo, modificações
essas provocadas por seu conhecimento das percepções, juízos, opiniões, etc.
de outros indivíduos.” (Doise,26 1982, p. 87) (p. 116).
O capítulo seguinte examina alguns fundamentos das mudanças de atitudes, de
opiniões, de crenças, de comportamentos ou de condutas; defrontaremos então a
complexidade dos processos de influência social, sua variedade, e as múltiplas vias pelas
quais se estabelecem novas opiniões, atitudes ou condutas (p.11).
“Consequentemente, compreende-se facilmente o interesse em modificar
a atitude de uma pessoa se houver a intenção, em relação a tal ou qual objeto,
de vê-la adotar uma nova conduta.” (p. 127).
A aplicação das Ciências Sociais
As técnicas utilizadas são aquelas obtidas através da psicologia social. O autor se
apóia principalmente sobre trabalhos já citados aqui: a experiência de Sherif sobre as
normas de grupo (p. 118), os trabalhos de Asch sobre a conformidade (p. 119), os
trabalhos de Festinger, Beauvois e Joule sobre a dissonância cognitiva (p. 133) e os de
Kiesler sobre o engajamento (p. 142). As técnicas clássicas de manipulação são
detalhadas: engajamento, dissonância cognitiva, dinâmica de grupo (cap. 4), influência do
prestígio (p. 122), dramatização.
Mudar a atitude: da persuasão ao engajamento
Não haveria como mudar de tema ao mudar de rubrica. Com efeito, é sempre de
influência e de processos de influência que irá se tratar, mas nos aplicaremos aqui a um
componente particular do alvo de influência: a atitude (p. 126).
Dito sem rodeios, o sujeito adere à sua decisão e, assim, quanto maior o seu
engajamento em um comportamento, tanto “maior será a mudança de atitudes caso o
comportamento divirja das convicções anteriores do sujeito, e tanto maior será a
resistência às propagandas ulteriores caso esse comportamento concorde com as opiniões
prévias...” (Kiesler27, 1971, p.32). Que me perdoem a expressão tautológica, mas o
engajamento nos engaja.
Outro ponto importante a ser aqui apresentado ao leitor para a boa compreensão
dos propósitos que se seguirão consiste no fato de que alguns fatores permitem manipular
o engajamento: o caráter explícito do ato, sua importância, seu grau de irrevogabilidade, o
número de vezes em que foi realizado, e, sobretudo, o sentimento de liberdade quando de
sua realização (p. 143).
Nos dois exemplos escolhidos, os indivíduos foram induzidos a praticar uma
conduta custosa em um contexto de liberdade. Assim, as circunstâncias seriam
aparentemente aliciantes a ponto de conduzir um indivíduo a manifestar comportamentos
contrários às suas convicções ou motivações; comportamentos aos quais lhe será
necessário fornecer justificações. Também se compreende que, engajado pelas
circunstâncias, um indivíduo possa, hoje, enxergar virtudes onde antes não as via.
Apoiado sobre elementos dessa natureza, Joule logra demonstrar, por via
experimental, que uma situação de submissão, associada a um sentimento de liberdade,
conduz os sujeitos a se engajar em um ato e, ulteriormente, os impele a uma
racionalização cognitiva ou a uma racionalização em ato. Fenômeno que mostra “que é por
um novo ato que os examinandos conseguem recobrar algum equilíbrio cognitivo, equilíbrio
esse abalado pela realização de um primeiro comportamento de submissão... sendo a
função primeira de um tal fenômeno a de fazer aparecer como racional um
comportamento ou uma decisão problemática” (Joule,28 1986, p. 351). Enfim, como se
observa, as circunstâncias reais ou habilmente manipuladas são capazes de desencadear
comportamentos contrários às nossas convicções e, portanto, de nos levar a modificar
nossas posições iniciais para conformá-las às nossas condutas.
O conjunto desses dados sugere, pois, de maneira assaz evidente, o peso não
negligenciável das circunstâncias e das situações sobre a execução dos nossos
comportamentos, sobre as cognições que em seguida construímos e sobre os
comportamentos futuros que delas surgem como consequência (p. 145).
Condutas para mudar “as ideias”
Como indica o título deste parágrafo, entramos aqui numa problemática que propõe
uma inversão de relação entre atitude e conduta, com a primeira aparecendo como o
produto eventual da segunda. A mudança de atitude se torna então a consequência de uma
submissão comportamental. Com efeito, logo que as circunstâncias nos induzem a adotar
tal ou qual comportamento que, fora dessas circunstâncias, provavelmente não teríamos
adotado, sentimos necessidade – a menos que desenvolvamos, acerca de “nossa fraqueza”,
uma culpabilidade definitiva próxima da patologia – de encontrar um meio de restabelecer
um universo coerente, momentaneamente cindido por uma contradição vivida entre o fazer
e o pensar. (p. 132).
Após ter obedecido, e com a sensação de tê-lo feito livremente, os indivíduos
geralmente adotam o conteúdo, a maioria das vezes avaliativo, do ato que eles acabam de
executar. Mais amplamente, as situações de dissonância cognitiva conduziriam a uma
submissão dos indivíduos, por exemplo, à justificação de sua obediência por uma
modificação avaliativa de suas posições iniciais. Dito de outro modo, e por extensão, após
ter praticado um comportamento contrário às suas atitudes, o indivíduo, por um processo
de racionalização, se esforçaria por conformá-lo às suas atitudes e opiniões. Mais do que
isso, é provável que uma conduta possa comprometer a ponto de determinar novas
condutas e não somente modificar as posições atitudinais (p. 149).
A educação
Recordemos que essa obra, intitulada Educar e formar, dirige-se aos docentes, aos
educadores e aos responsáveis pela formação. As técnicas destacadas abaixo são, desse
modo, apresentadas para fins explicitamente educativos:
A abordagem educativa, necessariamente pragmática, deveria, pareceme,
poder utilmente se inspirar em uma concepção dessa natureza [que
ultrapassa “a ordem fictícia das aparências, (...) para esclarecer as camadas
desse processo”29 de influência social]. Tratando-se igualmente dos jogos de
influência esperamos ter-lhes ao menos fornecido o gosto. (p. 126).
Ora, tais dinâmicas [de desenvolvimento e de mudanças individuais e
coletivas] estão, enquanto objeto de estudos, instaladas no coração da
atividade científica dos psicólogos sociais. Por isso, parece-me que nada
impede, antes o contrário, de fornecer aos atores da educação, a todos os
atores da educação, saberes fundados sobre o indivíduo enquanto ser
socialmente inserido e sobre os comportamentos que determinam ou que
decorrem dessas inserções (p. 10).
Se tomarmos, por exemplo, as pedagogias não diretivas, os trabalhos
conduzidos no contexto da teoria do engajamento as reconduzem ao que elas
sem dúvida não deixaram jamais de ser: a aplicação camuflada de uma
diretriz que, em certa época, tínhamos alguma dificuldade para admitir
abertamente (p. 198).
Enfim, o autor não se esquece de acrescentar algumas palavras sobre a formação
dos docentes:
Para a eficácia de sua ação, o profissional [de educação ou formação]
deve, pois, considerar, simultaneamente ou sucessivamente, abordagens
diversas. Uma tal conduta supõe, para que tenha alguma chance de sucesso, a
admissão e a assimilação da ideia de um profissional continuamente
informado sobre os desenvolvimentos das disciplinas que estão relacionadas
com seu setor de atividade. Essa atitude não ocorre sem embaraços: ela
impõe posições drásticas que consistem em considerar como necessária a
vontade, por parte do profissional, de manter-se informado, a vontade dos
pesquisadores de vencer as próprias reticências, de difundir o mais ampla e
acessivelmente possível os saberes que eles produzem. Essa atitude impõe,
ainda, às respectivas instituições , o colocarem em prática uma verdadeira
política de formação profissional contínua. Parece que ainda estamos,
infelizmente, assaz longe de uma tal situação. Sem desesperar do tempo,
convém, todavia, que não nos abandonemos a ele (p. 28).
Desde que essas linhas foram escritas (1989), os IUFMS foram criados para
preencher essa lacuna. Eles agora abarcam, além dos docentes do setor público, um
grande número dos do setor privado.
24 Eduquer et former, J.M Monteil, Grenoble, Presses universitaires de Grenoble,
1990.
25 Citado na segunda parte da orelha do livro.
26 W. Doise, L’explication en psychologie sociale, Paris, PUF, 1982.
27 C.A. Kiesler, The psychology of commitment experiments linking behavior to
belief, New York, Academic Press, 1971.
28 R.V. Joule, Rationalisation et engagement dans la soumission librement
consentie, Thèse de doctorat d’état, Université de Grenoble, 1986.
29 S. Moscovici, Psychologie sociale, Paris, PUF, 1984, p. 166.
CAPÍTULO III
A UNESCO, A EDUCAÇÃO E O
CONTROLE PSICOLÓGICO
Em 1964, a Unesco publicou um importante trabalho, intitulado A modificação das
atitudes.30 Em princípio, tal obra trata das atitudes intergrupos – raciais, religiosas e
étnicas –, mas as técnicas ali descritas, as mesmas que vimos anteriormente, são
perfeitamente aplicáveis a vários outros domínios, como o autor mesmo reconhece. Após
haver descrito a experiência de Sherif sobre as normas de grupo, acrescenta:
No que concerne à formação e à modificação das atitudes da sociedade
em geral, os corolários dos resultados acima mencionados são evidentes (p.
24; grifo nosso).
Igualmente, tendo descrito uma experiência de Brehm e Cohen, ele assevera que:
Os corolários desses resultados, para a modificação das atitudes no
plano da vida da social, são evidentes (p. 40).
Assim, não é por acaso que esse trabalho se intitule A modificação das atitudes, e
não A modificação das atitudes intergrupos. A extensão do campo de aplicação dessas
técnicas de manipulação psicológica, que atualmente abrange o sistema educacional
francês, justifica a importância que damos a tal obra. Convém frisar nossa intenção: não é
o objetivo dessa publicação – o aperfeiçoamento das relações intergrupos – que
denunciamos, mas sim os métodos empregados para obter esse resultado, suscetíveis de
ser utilizados para fins muito diversos, conforme já vimos e voltaremos a ver. Ademais, a
filosofia política claramente manipulatória que fundamenta tais práticas pressupõe um
desprezo absoluto pela liberdade e dignidade humanas e pela democracia. Ver-se-á que o
autor visa explicitamente à difusão das técnicas de manipulação psicológica nas escolas.
Compreende-se facilmente que um dispositivo assim, uma vez estabelecido, poderá ser
aplicado para mudar as “atitudes sociais em geral”, ao arbítrio dos interesses dos
governantes. E, de fato, as publicações das organizações internacionais discorrem
frequentemente sobre a modificação de atitudes éticas, culturais, sociais, políticas e
espirituais.
O prefácio (não assinado) dessa obra procede claramente da Unesco. Lê-se aí, em
particular:
A Unesco, que persevera na sua ação em favor dos direitos do homem e
que, ainda, participa com trabalhos científicos na luta contra o preconceito e a
discriminação, já há tempos considera a importância que tem o estudo da
modificação das atitudes para as atividades educativas que visem a combater
todas as formas de discriminação. [...] Dr. Davis é membro do Departamento
de Psicologia da Universidade de Illinois, onde ele exerce as funções de
professor e de pesquisador. Após especializar-se em psicologia social e em
saúde mental – aí compreendidos os aspectos pedagógicos dessas disciplinas
–, tem-se dedicado a pesquisas sobre a modificação das atitudes em escala
internacional (p. 3; grifo nosso).
Frases bastante significativas, que condensam em poucas palavras os seguintes
temas: modificação de atitudes em escala internacional, Pedagogia e Educação, Psicologia
Social. Algumas linhas adiante, o mesmo prefácio acrescenta (um ponto cuja importância
tornar-se-á mais evidente adiante neste capítulo):
Ainda que o conteúdo do presente inventário implique unicamente, claro
está, a responsabilidade de seu autor, que de modo algum é o porta-voz oficial
da Unesco, o Secretariado estima que a importância das pesquisas
sociopsicológicas em questão basta para justificar a publicação deste trabalho,
o qual, possivelmente, consistirá em um estímulo aos especialistas de
diferentes áreas a dar prosseguimento às suas pesquisas ou, talvez, a
empreender novas (p. 3; grifo nosso).
A modificação de atitudes em escala internacional
Podemos portanto concluir que, incontestavelmente, possuímos
conhecimentos cuja aplicação generalizada nos permite atingir nossos
objetivos, a saber: aperfeiçoar as atitudes intergrupos e as relações entre
grupos. Evidentemente, a questão que se coloca é a de saber como se podem
aplicar esses métodos em larga escala. [...]
Pode-se então dizer que possuímos, pelo menos, vários desses
conhecimentos necessários, mas que o que importa é tornar tais
conhecimentos facilmente acessíveis, bem como assegurar a sua aplicação.
Esse processo não se dará sem dificuldades, mas tais dificuldades não são
insuperáveis (págs. 48-49).
Os estudos orientados para a comunidade, os quais levam em conta
esse fato [a tendência à conformidade aos costumes estabelecidos], visam à
“reconversão”, em certo sentido, de comunidades inteiras, nas quais é
necessária a modificação das normas e das práticas estabelecidas, a fim de
aperfeiçoar as atitudes intergrupos e de colocar todos os grupos em pé de
igualdade. Para tanto, faz-se necessário apelar ao auxílio de políticos, de
líderes comunitários, de emissoras de rádio, da imprensa local e de outros
“formadores de opinião”, a fim de provocar as mudanças na comunidade
inteira (p. 55).
A aplicação das Ciências Sociais
Não se poderia chegar a tais resultados, a uma modificação de atitudes e de
comportamentos em escala internacional, sem colocar em prática técnicas confirmadas
cientificamente; tal é, efetivamente, a posição defendida pelo autor:
[...] pois, assim como nosso mundo tecnológico seria inconcebível sem o
progresso das ciências, exatas e naturais, do mesmo modo parece evidente
que as ciências sociais têm um papel importante a desempenhar na resolução
dos problemas humanos de nossa época (p. 7).
Entretanto, várias dessas questões, oriundas dos resultados de pesquisas
experimentais, representam não somente um interesse teórico, mas, além
disso, implicações, de grande interesse prático para a tomada de decisões de
ordem geral, que demandam programas de ação. Portanto, trataremos aqui,
brevemente, de alguns problemas teóricos levantados por pesquisas recentes,
e de suas implicações práticas.
Não se limitando a estudar os numerosos fatores associados à
modificação de atitudes, vários pesquisadores concentraram-se também na
questão do processo mesmo de mudança, ou seja, na teoria da modificação de
atitudes. Entre as teorias relativamente recentes que têm estimulado as
pesquisas, encontra-se a da “dissonância cognitiva”, de Festinger (1957) (p.
39).
Além dos já citados trabalhos de Festinger e de Sherif, o autor apoia-se sobre os
de Asch (p. 20 e 24) e de Lewin (p. 26). As técnicas clássicas de manipulação psicológica
são requisitadas: dramatização ou psicodrama, manipulação de grupos etc.:
Um dos corolários da teoria de Festinger é o fato de que uma declaração
ou ação públicas em desacordo com a opinião privada do sujeito podem gerar
nele uma dissonância cognitiva e, assim, em diversos casos, acarretar uma
modificação de atitude. Janis e King (1954, 1956) demonstraram que os
examinandos, quando levados a desempenhar uma atividade psicodramática
em desacordo com sua opinião privada, podem sofrer, por causa desse
comportamento, uma modificação de atitude. Assim, um psicodrama
improvisado tende a ser mais eficaz que um psicodrama determinado
previamente (p. 40).
Outras provas dessa resistência [a se deixar influenciar pelos métodos
de introspecção] foram apresentadas por Culbertson (1955) em um estudo
sobre a modificação de atitudes de base afetiva mediante o psicodrama. Esse
autor descobriu que o psicodrama constitui um meio geralmente mais eficaz
para modificar tais atitudes (p. 19).
A experiência escolar pode desempenhar um papel capital, ao
desenvolver particularmente aqueles aspectos da personalidade relacionados às
interações sociais da criança. A aplicação das pesquisas sobre grupos
apresenta igualmente uma importância particular, uma vez que, como se sabe,
o processo educacional não consiste apenas na transmissão de informações,
mas se trata, mais do que isso, de um fenômeno altamente complexo de
dinâmica de grupo, no qual intervêm as relações, de difícil análise, entre aluno
e professor, e sobretudo entre o aluno e seus pares. Na medida em que o
grupo de pares representa para a criança um quadro de referência, ele
contribui em larga medida para a modificação das atitudes sociais (p. 45).
São esses fenômenos de dinâmica de grupo e a manipulação psicológica que lhes
parecem justificar, como imprescindível, a introdução das psicopedagogias.
Do mesmo modo, entre as provas mais concludentes em favor da
influência do grupo sobre a atitude do indivíduo, figuram os resultados dos
célebres trabalhos de Asch (1951, 1952). Essas experiências centraram-se nas
condições sob as quais o indivíduo ou resiste ou termina por ceder às
pressões do grupo, assim que essas pressões são percebidas como contrárias
à realidade dos fatos (p. 24).
Flowerman (1949), contestando as conclusões de Rose (1948), deprecia o
valor e a eficácia atribuídas à propaganda de massa como um meio de
diminuir o preconceito, e antes preconiza as técnicas fundadas sobre as
estruturas de grupo e as relações interpessoais (p. 35).
Um grande número de pesquisas demonstraram que, para colegiais e
universitários, o fato de pertencer a grupos de pares pode ter um efeito cada
vez maior sobre a modificação de suas atitudes à medida que, para eles,
esses grupos se tornam mais importantes como grupos de referência. A
conclusão que se pode tirar desses estudos é que, mesmo que as atitudes
intergrupos negativas se formem, frequentemente mediante a adoção da
norma da célula familiar, grupo primário – e os programas de ação bem
poderiam levar em conta os pais, enquanto agentes de modificação de atitudes
–, ainda assim não devemos nos deixar desencorajar por tais dificuldades, com
as quais um programa de ação desse gênero se deve defrontar. Com efeito, os
grupos de pares, sobretudo aqueles que se formam no âmbito da escola ou da
universidade, podem muito bem tornar-se grupos de referência e promover um
efeito positivo sobre a modificação das atitudes, contribuindo dessa forma a
dirimir o “atraso cultural”, tão evidente na sociedade contemporânea (p. 25).
Ao leitor decerto não escapou o expediente de recrutamento das famílias, ao qual
faz eco esta outra citação:
No que concerne às relações entre pais e filhos, encontramo-nos diante
do seguinte problema: para conduzir as crianças de modo a aperfeiçoar as
relações entre grupos, necessário seria começar pela modificação de seus pais
(p. 45).
Porém, mais que disposições e comportamentos, são os valores, que
fundamentam um e outro, que devem ser subvertidos:
Os teóricos modernos da educação compreenderam que a transmissão
de informações, por si só, não é suficiente para que se atinjam os objetivos da
educação, mas que a totalidade da personalidade e, particularmente, a situação
de grupo inerente ao processo de aprendizagem possuem uma importância
capital. Kurt Lewin, um dos grandes pioneiros da pesquisa e da ação
combinadas no campo da dinâmica de grupos, contribuiu muito, junto com
seus colaboradores, para dar à pedagogia essa nova orientação. Ele salientou a
necessidade de se considerar a educação como um processo de grupo: o
sentimento, experimentado pelo indivíduo, de participar da vida de um grupo é,
segundo Lewin, de uma importância fundamental para a aquisição de ideias
novas. Ele escreveu 31 (1948, p. 59): “Consideramos muito importante que o
processo de reeducação se dê numa atmosfera de liberdade e de
espontaneidade: é de vontade própria que o indivíduo participa das sessões,
isentas, aliás, de todo formalismo; ele deve sentir-se livre para expressar
suas críticas, em segurança afetiva e livre de qualquer pressão. Se a
reeducação significa o estabelecimento de um novo superego, decorre daí
necessariamente que os objetivos visados só serão atingidos quando a nova
série de valores aparecer ao indivíduo como algo que ele tenha escolhido
livremente” (p. 47).
Compreende-se facilmente, portanto, a aversão manifestada por muitos daqueles
quem veem o nosso sistema educacional ser invadido pelas psicopedagogias: uma
mudança de valores constitui uma revolução – psicológica – muito mais profunda que uma
revolução social.
A educação
Às citações anteriores, que fartamente demonstraram o papel que alguns
pretendem para as ciências sociais na manipulação psicológica das populações,
acrescentemos ainda as seguintes, que tratam particularmente da educação:
Em sua [Adorno et al.] opinião, os resultados de suas pesquisas
poderiam ser aplicados à educação, à puericultura e às atividades de grupo que
se inspiram nos princípios da psicoterapia coletiva (p. 16).
Os efeitos sobre os sistemas educacionais submetidos a tais influências são,
naturalmente, os já esperados:
Resumindo os efeitos da educação sobre o preconceito, a discriminação
e a aceitação do fim da segregação racial no sul dos Estados Unidos, Tumin,
Barton e Burrus (1958) asseveram que um aumento de instrução tende a
produzir deslocamentos perceptíveis:
a) do nacionalismo ao internacionalismo, no plano político;
b) do tradicionalismo ao materialismo, no plano da filosofia social geral;
c) do senso comum à ciência, como fontes de provas aceitáveis;
d) do castigo à recuperação, na teoria dos regimes penitenciários;
e) da violência e da ação direta à legalidade, como meios políticos;
f) da severidade à tolerância, em matéria de educação infantil;
g) do sistema patriarcal à igualdade democrática, em matéria de relações
conjugais;
h) da passividade ao ímpeto criador, no que diz respeito aos divertimentos e
ao lazer.
Esse resumo parece indicar que a educação provoca uma larga e
profunda modificação das atitudes sociais em geral, num sentido que deve
contribuir ao estabelecimento de relações construtivas e sadias entre os
grupos (p. 46; grifo nosso).
Impossível constatar mais claramente que o que aí se busca é, na realidade, uma
“larga e profunda modificação das atitudes sociais em geral”, uma vez que dificilmente se
entende de que modo uma simples educação destinada a aperfeiçoar as relações
intergrupos poderia provocar essa “larga e profunda modificação das atitudes sociais em
geral”. Notemos, contudo, para restabelecer a verdade, que não é um aumento da educação
que leva ao mundialismo, ao materialismo e à permissividade – o que conduz a isso é um
aumento da educação revolucionária. Teria esquecido o autor que os séculos passados
puderam contar com homens eruditos, cuja cultura, essa sim autêntica, nada tinha que
invejar às produções de Jack Lang?
Por fim, a questão da formação dos educadores é tratada extensivamente:
As ideias pessimistas de vários autores sobre a eficácia da educação
como um meio de aperfeiçoar as relações entre grupos [e as atitudes sociais
em geral, como acabamos de ver] justificam-se desde que se fique limitado à
concepção tradicional de educação e que, nela, note-se tão-somente o aspecto
da comunicação de informações. Mas não há quem se oponha a que os
conhecimentos modernos sejam inculcados ao educador a fim de lhe permitir
um desempenho mais eficaz de sua tarefa. Isso não quer dizer que todos os
professores devam receber uma formação de psicólogo, de sociólogo etc., mas
sim que os princípios fundamentais da Psicodinâmica, da dinâmica de grupo e
da Sociologia bem poderiam figurar no programa de sua formação. Seria
possível – ainda que isso não seja o essencial de nossa proposta – apresentar
os resultados das pesquisas sob uma forma apropriada, que as tornasse
inteligíveis aos educadores que possuem um conhecimento técnico limitado da
pesquisa sociológica. É claro que, além disso, seria possível dar uma
importância maior, nos programas das escolas normais, às disciplinas que se
relacionam diretamente à questão do aperfeiçoamento das relações entre
grupos. Watson32 (1956, p. 309) diz com muita propriedade: “Importa é
tratarmos, não de modestos acréscimos ao nosso atual programa de ensino,
mas sim de transformações profundas em nosso plano de estudos, em nosso
modo de seleção de professores e em toda nossa concepção de ensino público.
Devemos refletir sobre a necessidade, para todos os dirigentes da área da
educação, de uma reorientação e de competências de ordem política” (p. 47).
Totalitarismo?
Em sua experiência de formação [nas escolas normais], Tausch utilizou
diversas noções próprias da Psicologia Coletiva não Diretiva (Rogers,33 1951) e
demonstrou que tais princípios são aplicáveis no domínio da educação. Da
mesma forma, Wieder34 (1951) demonstrou a aplicabilidade dos métodos de
terapia coletiva em um “estudo comparativo da eficácia de dois métodos de
ensino da Psicologia, cada curso com 30 horas de duração, para a modificação
das atitudes associadas ao preconceito racial, religioso ou étnico”. Enquanto o
método tradicional, de exposição seguida de discussão, não alcançou modificar
de modo significativo as atitudes intergrupos, um segundo método, valendo-se
dos princípios da terapia coletiva, das técnicas não diretivas e do sociodrama,
favoreceu uma abertura pessoal (desenvolvimento da intuição, maior aceitação
de si, redução das atitudes ligadas ao preconceito racial, religioso ou étnico)
(p. 48).
Lembremos que não são apenas as atitudes intergrupos que se busca modificar,
mas sim as atitudes sociais em geral. Por outro lado, conhecendo a força e o tenaz
enraizamento dos preconceitos raciais, religiosos ou étnicos, que, não obstante, o poder
dos métodos de manipulação psicológica empregados logram sujeitar, não há como deixar
de experimentar a mais viva inquietação, ao ver essas mesmas técnicas empregadas
contra atitudes em geral menos fortemente enraizadas, como as atitudes políticas,
econômicas, sociais, ecológicas, éticas etc.
A manipulação da cultura
Toda revolução psicológica requer uma revolução cultural. Posteriormente,
retomaremos detalhadamente esse assunto, considerando o quanto o sistema educacional
transformou-se em um dos mais importantes veículos da revolução cultural. Em todo
caso, o autor nos dá indicações que merecem ser apreciadas desde já:
O fato de que a cultura e a sociedade, em seu conjunto, sejam um fator
muito importante na formação, na conservação e/ou na modificação das
atitudes sociais é uma evidência à qual já nos referimos diversas vezes. Mas
em que medida os programas de ação prática são realizáveis, uma vez que
seu combate se desenrola numa frente tão vasta? Como se pode modificar
uma cultura, que repousa sobre tradições seculares, ou reformar toda uma
sociedade? Sem dúvida, é dificilmente imaginável que uma só pessoa ou
mesmo um pequeno grupo de pessoas possa mudar completamente, do dia
para a noite, uma sociedade moderna, de estrutura democrática e pluralista.
Por outro lado, não é improvável que, mediante esforços concretos e com a
aplicação de conhecimentos modernos, grupos de indivíduos possam acelerar a
evolução social de maneira a redimir certos “atrasos culturais”, nem se pode
dizer que tais grupos não devam empreender tal ação (p. 57; grifo nosso).
Os estudos que acabamos de referir ilustram simplesmente o fato de
que as mais importantes mudanças de atitude e de comportamento no
conjunto de uma sociedade são possíveis ao final de um certo tempo.
Poderíamos citar muitos outros casos que confirmam essa conclusão. Essas
modificações são o resultado cumulativo dos esforços combinados de diversas
pessoas e organizações que utilizam modos e métodos diferentes de
abordagem. Mas a questão que aqui nos interessa saber é: em que medida é
possível agir sobre o conjunto de uma sociedade? Não nos seria possível, por
ora, examinar em seus detalhes os vastos problemas de teoria social
levantados por essa questão, mas gostaríamos de assinalar alguns métodos
aplicáveis nesse nível. Não há dúvida de que, por exemplo, as declarações
públicas de altas personalidades do governo e de outros dirigentes cuja opinião
é respeitada pela população podem exercer uma enorme influência sobre as
atitudes e o comportamento dessa população. As medidas de ordem legislativa
oferecem à sociedade um outro meio, um pouco mais coercitivo, de exercer
sua vontade sobre os indivíduos que a compõem. Do mesmo modo, aquelas
forças econômicas que agem sobre o conjunto da sociedade desempenham um
papel capital na vida quotidiana dos indivíduos, condicionando, assim, suas
atitudes e seu comportamento. Por fim, mencionaremos alguns dos grandes
problemas ligados ao emprego dos meios de informação, os quais constituem
um dos principais veículos dos quais a sociedade se utiliza para comunicar, a
seus membros, sua normas culturais e o comportamento que deles ela espera
(p. 58).
Porém, se consideramos os meios de informação, sob um ângulo mais
vasto, como instrumentos que permitem à sociedade modificar as atitudes
dos indivíduos num sentido desejado, importa examinar a questão relativa à
intenção que orienta o emprego dos meios de comunicação; dito de outra
forma: trata-se de saber quem dispõe desses meios. Evidentemente, essa
questão é bastante delicada, e traz consigo importantes implicações políticas,
que não iremos ponderar aqui. De qualquer modo, cabe-nos observar que tal
questão não pode ser negligenciada indefinidamente (p. 59).
A questão do emprego dos meios de comunicação como instrumentos de
modificação de atitudes coloca, por si só, problemas gerais que convém sejam
considerados a partir do ponto de vista do conjunto da sociedade ou da cultura
(p. 29).
30 E.E. Davis, La modification des attitudes, Rapport et documents de sciences
sociales, n° 19, Paris, Unesco, 1964.
31K. Lewin, Resolving social conflicts, New York, Harper Bros, 1948.
32 G. Watson, Education and intergroup relations, Columbia Teachers College
Record, 57, p. 305-9, 1956.
33 C.R. Rogers, Client-centered therapy: its current practice, implications and
theory. Boston, Houghton, 1951.
34 G.S. Wieder, A comparative study of the relative effectiveness of two methods
of teaching a thirty-hour course in psychology in modifying attitudes associated with
racial, religious and ethnic prejudice. Unpublished Ph. D. diss., New York tlniversity, New
York, 1951.
CAPÍTULO IV
A REDEFINIÇÃO DO PAPEL DA ESCOLA
E O ENSINO MULTIDIMENSIONAL
O ensino não cognitivo e multidimensional
Armado das técnicas mencionadas acima, é possível redefinir o papel da escola,
que deverá então oferecer um ensino multidimensional: intelectual, mas sobretudo ético,
cultural, social, comportamental, e até mesmo político e espiritual:
Qual concepção do homem subentende a educação de hoje? O que pode
ela oferecer e o que podem oferecer os professores a seus estudantes? O
educador do futuro deverá trabalhar muito mais para estabelecer e
desenvolver relações humanas e uma rede social em sua classe, abstendo-se
da orientação mediante o ensino exclusivamente intelectual. Cabe aos
professores tanto transmitir os saberes quanto compreender seus alunos, bem
como as atitudes destes para com a educação, as atividades recreativas, o
trabalho e as relações sexuais.
O professor deve estar aberto ao diálogo com os jovens e lhes falar das
relações humanas, da ética, dos valores, das atitudes e das modificações de
atitudes, das ideologias, das minoridades étnicas, das enfermidades, dos ideais
e das visões do futuro. [...]
Os conteúdos educacionais devem preparar os jovens para seus papéis
futuros (relações sexuais, papéis parentais e profissionais, responsabilidades
cívicas). (Unesco)35
Os países hão de querer talvez fixar seus objetivos específicos para a
década de 90, relacionando-os a cada um dos aspectos propostos abaixo: [...]
- expansão dos serviços de educação fundamental [que abrange, segundo
o glossário da Unesco, fornecido em documento anexo,36 a aquisição de
conhecimentos, de competências, de atitudes e de valores] e de formações
para outras competências essenciais destinadas aos adolescentes e aos
adultos, sendo a eficácia das ações avaliada em função da modificação dos
comportamentos e do impacto sobre a saúde, o emprego e a produtividade;
- uma maior aquisição por parte dos indivíduos e das famílias, em
virtude do concurso de todos os canais de educação – inclusive a mídia, as
outras formas de comunicação modernas e tradicionais e a ação social –, de
conhecimentos, competências e valores necessários para uma vida melhor e
um desenvolvimento racional e durável, sendo a eficiência dessas intervenções
avaliada em função da modificação dos comportamentos. (Declaração mundial)
37
No entanto, esses resultados não devem provocar resignação nos
educadores ou levá-los a concluir que a escola não pode ter nenhuma
influência real sobre as ideias políticas e mentais da criança. Nada disso é
verdade: a influência da escola deve também ser avaliada em seu justo valor.
(Conselho da Europa)38
Note-se que no Reino Unido foi feito um esforço para definir oito
domínios gerais que formariam a base de um tronco comum: “A criação
artística, a ética, as línguas, as matemáticas, a Física, as Ciências Naturais, a
educação social e a instrução cívica, a educação espiritual” [OCDE,39 1983, p.
62]. Nesse caso, trata-se de um ato normativo e de uma estrutura curricular
que põem em evidência a importância da educação espiritual. (Unesco)40
Preocupados com essas tarefas bem mais progressistas que os ensinamentos
clássicos, os professores não possuem mais, evidentemente, nem tempo, nem as
competências, nem o desejo de prestar um ensino sólido. O desmoronamento do nível
escolar é, pois, a consequência inelutável dessa redefinição da escola:
Essa visão expandida das responsabilidades do setor educacional não
implica somente uma maior relevância dos conteúdos de formação e sua
adequação ao ambiente socioeconômico, mas também uma modificação
radical das finalidades dos sistemas educacionais. É preciso romper com uma
concepção elitista, profundamente ancorada nas mentalidades, tanto da parte
dos educadores quanto da dos pais, que privilegia os aspectos mais
acadêmicos de ensino, e segundo a qual a escola primária prepara para o
ensino secundário, o qual, por sua vez, prepara para os estudos superiores. A
escola para todos deveria ser o instrumento do desenvolvimento individual e
do desenvolvimento econômico e social, e não da mera reprodução social a
serviço de uma minoria.
Em relação a isso, a mesa redonda trouxe à luz a necessidade de uma
educação “multidimensional”, que leve em consideração todos os aspectos da
criança em seu ambiente e não se limite à inculcação somente de
competências cognitivas. Assegurar o êxito de todos significa antes modificar
as finalidades dos sistemas de ensino que privilegiam a competição e a
seleção, e, portanto, modificar os objetivos e os critérios de avaliação dos
alunos, para evitar que um fracasso no exame não conduza à exclusão social.
[...]
O esforço de reestruturação dos programas e métodos escolares, além
de objetivar sua maior relevância, deveria igualmente se aplicar, na medida do
possível, em estabelecer um melhor equilíbrio entre diversos tipos de
atividades, especialmente aquelas de caráter cognitivo, as de caráter prático e
até utilitário (como o trabalho produtivo) e as que favoreçam o
desenvolvimento das capacidades pessoais da criança (criatividade, iniciativa,
curiosidade, destreza, resistência, sociabilidade), as atividades artísticas e
criativas, a educação física, as atividades a serviço da comunidade. Fazer com
que todo aluno possa encontrar sucesso numa dada atividade, e, assim,
multiplicar as formas de excelência, é uma condição essencial para provocar
na criança uma atitude positiva para com a instituição escolar, fornecer-lhe
uma motivação e, desse modo, aumentar suas chances de êxito. (Unesco)41
O ensino multidimensional compreende duas partes principais: um ensino ético,
destinado a modificar os valores, as atitudes e os comportamentos; e um ensino
multicultural, depois intercultural,42 destinado a rematar essa revolução psicológica
mediante uma revolução cultural. Detalharemos esses tipos de ensino nos dois capítulos
seguintes.
Ensino acadêmico versus aprendizado social
Os professores e administradores de todas as categorias e de todos os
níveis deveriam estar conscientes do papel que exercem no sistema
educacional atual e futuro. Eles deveriam compreender que seus papéis e suas
funções não são fixos e imutáveis, mas que evoluem sob a influência das
mudanças que se produzem na sociedade e no próprio sistema educacional.
Apesar da diversidade dos sistemas educacionais e das disposições que
concernem à formação dos professores no mundo, há uma necessidade geral
de um exame nacional cuidadoso e inovador, conduzido de maneira realista,
das funções e tarefas atribuídas aos professores em termos de política e
legislação nacionais. Tais análises em nível nacional, conduzidas com a
participação dos próprios professores [engajamento], deveriam levar à criação
de perfis profissionais educacionais com uma clara definição dos papéis e
funções que a sociedade lhes assinala.
Medidas deveriam ser tomadas para assegurar que sejam atendidas as
condições necessárias a que os atuais e os futuros professores estejam
conscientes das mudanças em seu papel e estejam preparados para esses
novos papéis e funções:
a) O professor está hoje cada vez mais engajado na execução dos novos
procedimentos educacionais, explorando todos os recursos dos meios e
métodos educacionais modernos. Ele é um educador e um conselheiro que
tenta desenvolver as capacidades de seus alunos e alargar seus centros
de interesse, e não uma simples fonte de informações ou um
transmissor do saber; o professor atua em um papel fundamental ao dar
a seus alunos uma visão científica do mundo.
b) Uma vez que o papel da escola não mais esteja limitado à instrução, deve
então o professor, além de suas obrigações ligadas à escola, assumir
mais responsabilidades, em colaboração com outros agentes de educação
da comunidade, a fim de preparar os jovens para a vida em comunidade,
a vida familiar, as atividades de produção etc. O professor deveria ter
mais possibilidades de se engajar em atividades no exterior da escola e
fora do curriculum, de guiar e de aconselhar os alunos e seus pais, e de
organizar as atividades de seus alunos durante o lazer.
c) Os professores deveriam estar conscientes do papel importante que são
chamados a exercer nas comunidades locais como profissionais e
cidadãos, como agentes de desenvolvimento e de mudança, e lhes
deveriam ser oferecidas as possibilidades de desempenhar esse papel.
(Unesco)43
Naturalmente, essas ideias fizeram eco na França. Louis Legrand, instigador da
revolução pedagógica francesa, professor de Ciências da Educação na Universidade de
Strasbourg, antigo diretor do Instituto Nacional de Pesquisa Pedagógica e autor de um
relatório ao ministro da Educação da França intitulado Por um colégio democrático,44 que
teve uma profunda influência sobre o sistema educacional francês, escrevia:
[Basil Bernstein] chama código de série um sistema de relações
essencialmente hierárquicas entre os parceiros. Nesse sistema, o mais
propalado na Europa continental, o educador está só em face do grupo de
alunos que lhe é confiado. Ele fundamenta seu ensino sobre os programas e
instruções nacionais, fundamentados eles mesmos sobre as disciplinas
universitárias de referência. Essas disciplinas universitárias fundamentam, por
sua vez, a legitimidade dos educadores na medida em que estes adquiriram
diplomas, justificando sua competência em suas disciplinas. [...]
Em oposição a esse sistema geralmente propalado na Europa continental,
define-se o que Bernstein chama de código integrado. Em um sistema
educacional regido por esse código, o essencial é a comunidade de base que
define livremente e localmente suas normas e seus regulamentos. O essencial
aqui não são mais as disciplinas universitárias e sua tradução para os
diferentes níveis de ensino, mas o próprio aprendiz e as condições de um
aprendizado hic et nunc a partir de sua experiência própria. É o encontro dos
objetivos gerais de natureza fundamentalmente educacional e transferível com
a realidade local dos alunos e de seu meio que permitirá definir a natureza dos
programas e dos métodos. [...]
De um ponto de vista estritamente pedagógico, levar em conta as
preocupações locais e a realidade dos aprendizes significa privilegiar o estudo
do meio e desenvolver projetos interdisciplinares. As disciplinas universitárias
perdem assim sua situação dominante e tornam-se auxiliares instrumentais de
uma abordagem interdisciplinar, ou antes transdisciplinar, da realidade
estudada.
Mas, ao mesmo tempo, os critérios de avaliação se obscurecem na
medida em que esse tipo de estudo temático privilegia o trabalho de equipe e
objetivos afetivos dificilmente avaliáveis. Esse aspecto, que poderá ser
considerado como negativo, tem consequências sobre a estrutura da escola. A
seleção tende a desaparecer em proveito de um ensino bastante
individualizado [introduzido recentemente sob a forma de módulos nos liceus e
de ciclos no primário] em grupos de idades heterogêneas [ciclos agrupando
diversas classes no primário], o essencial sendo aqui a formação social e a
ausência de segregação. Além disso, as normas se acham necessariamente
relativizadas, a fim de considerar a natureza da população escolar acolhida em
sua totalidade.45
Mas os pais julgam esses “ensinos” não cognitivos em seu justo valor e sabem
que as reformas em curso penalizarão suas crianças, que chegarão à idade adulta
desprovidas de recursos culturais. Compreende-se sem dificuldade que eles se ergam
contra esse aviltamento dos indivíduos e da educação que, longe de ser democrática, priva
as camadas mais humildes de toda perspectiva de emancipação intelectual e social,
enquanto reforça mais e mais as facilidades financeiras e intelectuais que possuem as
camadas superiores para instruir suas crianças:
Frequentemente, faz-se necessário sustentar a ação dos pais e da
comunidade através de uma informação permanente e de atividades de
formação, pois a intervenção das famílias num âmbito que elas não dominam
pode se revelar nefasta. Em um país africano onde a introdução do trabalho
produtivo havia conduzido a um modo de avaliação multidimensional favorável
ao sucesso dos alunos, os pais, habituados a uma seleção orientada pelo
fracasso, exigiram o retorno ao exame tradicional que privilegiava o cognitivo,
menos favorável a suas crianças. (Unesco)46
35 International symposium and round table, 27 nov. – 2 dec. 1989, Beijing, China,
Qualities required of education today to meet foreseeable demands in the twenty-first
century, Proceedings, Unesco, p. 12 e 13 (ED-89/CONF.810). Este seminário, de altíssimo
nível, foi honrado com a presença, entre outras personalidades, de Colin. N. Power,
assistente do diretor geral da Unesco encarregado da educação, assim como da presença
de um ex-ministro chinês das relações exteriores.
36 WCEFA, Conférence mondiale sur l’éducation pour tous, 5-9 mars 1990, Jomtien,
Taïllande, Document de référence, Paris, WCEFA, 1990, p. ix.
37 WCEFA, Déclaration mondiale sur l’éducation pour tous, Op. cit., Cadre d’action,
Art. 5 et 6, p. 4; grifo nosso.
38 34º séminaire européen d’enseignants du Conseil de l’Europe, Donaueschingen,
17-21 novembre 1986, L’enseignement des droits de l’homme et de l’éducation sociale,
civique et politique, Strasbourg, Conseil de l’Europe, 1987, p. 5. [DECS/EGT (86) 74-F].
Documento publicado sem reseva sobre as opiniões expostas pelos autores.
39 OCDE, L’enseignement obligatoire face à l’évolution de la société, Paris, OCDE,
1983.
40 S. Rassekh, G. Vaideanu, Les contenus de l’éducation, Paris, Unesco, 1987, p.125.
Bem que não refletindo “necessariamente a visão da Organização”, esse trabalho
importante é frequentemente citado.
41 Colloque Réusir à l’école, Lisbonne/Estoril, Portugal, 20-24 mai 1991. Rapport
final, Unesco, p. 55 e 36; sublinhamos. Esse colóquio foi aberto pelo Primeiro Ministro
português. O documento citado não precede de nenhuma reserva sobre as opiniões
expostas pelos seus autores.
42 Multicultural: onde várias culturas coexistem; Intercultural: onde essas
diversas culturas fusionaram-se para dar nascimento a uma nova cultura.
43 J. C. Pauvert, Senior educational personnel: new functions and training, vol. 1,
Educational studies and documents, nº 52, Paris, Unesco, 1988, p. 13. Sublinhamos. O autor
cita aqui a Recomendação nº 69 adotada pela International conference on education, 35th
session, Geneva, 27 August – 4 September 1975, The changing role of the teacher and its
influence on preparation for the profession and on in-service training, Paris, Unesco, 1975.
(ED/IBE/CONFINTED. 35/4 + Add.) Ele menciona igualmente um documento de referência
da mesma conferência: Teachers and other professionals in education: new profiles and
new status. (ED/IBE/CONFINTED.35/Ref.4.).
44 L. Legrand, Pour un collège démocratique, Paris, La Documentation française,
1983.
45 L. Legrand, Les politiques de l´éducation, Paris, P.U.F, 1988, p. 58 sq.
46 Colloque Réussir à l’école, Op. Cit., p. 41.
CAPÍTULO V
A REVOLUÇÃO ÉTICA
“Quanto aos princípios gerais, a lei natural, ao menos em sua
índole genérica, não pode em absoluto ser apagada dos corações
dos homens. Contudo, pode ser abolida em algum caso concreto
quando, por efeito da concupiscência ou de outra paixão, a razão
se acha impedida de aplicar o princípio geral a um assunto
particular. Mas no que concerne aos preceitos secundários, a lei
natural pode ser apagada do coração dos homens seja por
persuasões perversas – da mesma forma como também ocorrem
erros nas conclusões necessárias de ordem especulativa –, seja
por costumes depravados e hábitos corrompidos”.47
Os dois elementos da revolução psicológica que estudaremos neste capítulo são a
revolução ética – a subversão dos valores – e a revolução cultural. No instante em que
vozes cada vez mais numerosas se erguem, na França, para exigir uma renovação da
educação cívica e ética, importa tomar conhecimento da estratégia do adversário.
Os elementos constitutivos da nova ética são os seguintes:
◆ os direitos humanos (estendidos ao direito social: direito à habitação, à
alimentação, ao trabalho etc.);
◆ a bioética;
◆ os direitos das crianças (temível arma contra a família);
◆ a educação para a paz, a concórdia entre as nações, o desarmamento, o
civismo pacífico, a fraternidade humana, a consciência da interdependência entre as
nações (Unesco);48
◆ a educação para o meio ambiente (Comissão de Bruxelas, Unesco);
◆ a criação de um “mundo mais justo e solidário, pilar da nova ordem
internacional” (Parlamento Europeu);49
◆ a “experiência da vida em uma sociedade multicultural” (Parlamento Europeu;50
temas similares na Comissão de Bruxelas e na Unesco);
◆ a tolerância (Unesco);
◆ a “passagem da competição à cooperação” (Unesco);51
◆ o desenvolvimento da consciência política (Parlamento Europeu,52 Unesco 53);
◆ a “paz no espírito dos homens” (Unesco);54
◆ etc.
Percebe-se aí, sob uma hábil apresentação, a retórica criptocomunista. As duas
citações a seguir dissipam as últimas dúvidas:
O professor radical (no sentido norteamericano) defende que o mundo é
injusto e que, onde reina uma paz superficial, a “violência estrutural” é
endêmica. A expressão “violência estrutural” foi criada por Johan Galtung
(diretor do Instituto Internacional de Pesquisas sobre a Paz, em Oslo), para
descrever as condições de opressão e de exploração, condições nas quais são
violados os direitos humanos.
Ademais, uma vez que, nessa perspectiva, paz, justiça e equidade são
virtualmente sinônimos, não parece possível que o estudo não seja seguido de
ação. A educação não pode permanecer neutra. Adam Curle, titular precedente
da cátedra de Estudos para a Paz da Universidade de Bratford, declarou: “Se
falamos dessa luta nas instituições de ensino, corremos o risco de a
burocracia, apercebendo-se subitamente de que realizamos algo de
extremamente subversivo, venha a forçar sua pesada mão sobre nós. É um
perigo que eu conheço e ao qual estou pessoalmente exposto. No momento
crítico, devemos considerar o que podemos fazer. Creio realmente que a
educação pela paz, em certo sentido, é uma atividade revolucionária”.55 É
preciso substituir “educação pela paz” por “educação para os direitos
humanos”. [...] É claro que nenhum professor deveria iniciar um programa de
ensino baseado sobre um conjunto de objetivos radicais sem uma estimativa
completa das profundas implicações de uma ação desse tipo. [...]
Os estudantes devem assimilar a validade sempre atual desses direitos
[liberdade religiosa e política], mas, ao mesmo tempo, precisam tomar
consciência da crescente importância atribuída pelos países do Terceiro Mundo
aos direitos econômicos e sociais, como a previdência social, o pertencimento
a sindicatos e um nível de vida aceitável. (Conselho da Europa)56
Mas os aspectos do programa que concernem à moral e à educação
cívica são considerados igualmente importantes, uma vez que não há
renovação social sem que haja novas relações entre os homens, novas
organizações e estruturas sociais, bem como novas utilizações e aplicações do
saber no mundo do trabalho. (OCDE)57
A escola deve, portanto, veicular um ensino de ordem ética:
Assim, é absolutamente imprescindível e essencial incluir a questão dos
valores e acatar sua discussão no âmbito da Escola, dos saberes que ela
transmite e que faculta aos alunos construir, das condições dessa transmissão
e dessa construção, do seu funcionamento como instituição.58 (Conselho da
Europa)
Trata-se de uma nova moral, pretensamente universal, e a qual se considera como
elaborada cientificamente:
Aceitar essa complexidade de exigências éticas que já não se podem
limitar a códigos morais válidos para um grupo, mas que são transcendidas
por imperativos admitidos universalmente, e tomar, de fato, consciência da
importância socioeconômica e política desses imperativos, eis os dois
elementos de uma educação que, “levando em consideração as características
afetivas e cognitivas do indivíduo, deve colocá-lo em condições de assimilar os
princípios que constituem uma conquista da ética universal”.59 (Unesco)60
Portanto, é uma nova ética que se deve desenvolver, com o auxílio da
educação e da informação [tanto isso é verdadeiro, que a objetividade desta é
um ideal de outra era], a fim de modificar as atitudes e os comportamentos.
Possuir uma concepção global do nosso mundo é pensar globalmente para agir
localmente. (Unesco)61
Toda adoção de valores morais e de crenças deve ser realizada
cientificamente. Devemos colocar e resolver todos os problemas a partir da
pesquisa científica; particularmente, a questão da escolha e da adoção das
ideias e das crenças deve ser considerada de maneira científica e com
atitudes científicas. (Unesco)62
Seria necessário salientar que os valores religiosos – de todas as religiões – são
os primeiros visados? E que já não será possível transmiti-los?
A escola contra a família
O ensino da ética deve veicular novos valores. Inicialmente, porém, deve bloquear
a transmissão dos antigos valores de uma geração a outra:
O paradoxo reside justamente em conseguir dar lugar à transmissão e à
recepção de normas e valores herdados, bem como à formação de
capacidades críticas para construir e desenvolver livremente normas e valores.
(Conselho da Europa)63
Com efeito, existe atualmente uma enorme exigência, da parte da
sociedade, relativamente aos sistemas de educação, a fim de que eles
auxiliem mais a juventude a adquirir comportamentos e valores que lhes
permitam enfrentar com êxito as dificuldades do mundo moderno. As famílias
sentem-se cada vez menos capazes de assumir suas tarefas educativas
tradicionais, face à complexidade dos problemas e a uma massa inabarcável
de informações; elas desejam, portanto, que uma maior importância seja dada
aos aspectos éticos, morais e cívicos da instrução educativa. Essa evolução na
divisão das responsabilidades está ligada ao desejo de uma descentralização e
de uma maior participação de todos os atores, dos pais em particular, no
funcionamento da instituição. (Unesco, 4a Conferência dos Ministros da
Educação)64
A descentralização e a participação permitem engajar os pais em políticas às
quais, de outro modo, eles se oporiam. Voltaremos a esse tema em capítulo ulterior.
Destacamos somente que, no nível pré-escolar, uma educação que
privilegie o aspecto afetivo, e que, não obstante, forneça o conhecimento de
certos dados e noções elementares, deveria ser parte do processo educacional.
Por sua vez, as diversas formas de educação extraescolar, particularmente os
programas educativos difundidos pela mídia, poderiam contribuir para a
neutralização da transmissão “familiar” dos preconceitos. (Unesco, 4a
Conferência dos Ministros da Educação)65
No caso da educação familiar, na maior parte do tempo, essa
transmissão não é consciente. Os conselhos e as ordens dados pelos pais,
pelos avós, pelos vizinhos, além de possivelmente contraditórios, não tornam o
indivíduo, assim educado, consciente de sua liberdade pessoal e das escolhas
éticas que ele poderia fazer. Ademais, essa transmissão implícita compreende
os valores tradicionais ligados ao meio social ou a um meio religioso em
particular. Enfim, em nosso mundo contemporâneo, econômica e politicamente
tumultuado, onde a mídia, cobrindo o mundo inteiro, informa sem tomar em
consideração quaisquer referências morais, esses valores nem sempre são
transmitidos, e, quando o são, sofrem o impacto desestabilizador dessa
“superinformação”.
Em resumo, para superar esse modo pouco seguro de transmissão, para
seguir rumo a uma tomada de consciência pessoal e a uma escolha de valores
universalmente válidos, é necessária uma educação formal que explicite esses
valores. Essa explicitação pode e deve ser feita pela escola. O espírito crítico
[das crianças], tendo por objeto os valores morais, e a reflexão ética são,
portanto, os objetivos da educação formal nas instituições escolares, a fim de
que cada criança, cada jovem possa, livremente, formar uma consciência
ética, a qual lhe permita discernir o justo do injusto e desenvolver atitudes e
comportamentos fundados sobre o respeito ao outro, sobre a compreensão do
bem comum à humanidade: os direitos humanos e a paz. (Unesco)66
Essa pseudoliberdade deve, portanto, conduzir inelutavelmente a interiorizar os
mesmos valores: os do criptocomunismo. Além disso, duas páginas adiante, o autor
menciona explicitamente os direitos da criança, os quais, nada acrescentando aos direitos
humanos e ao direito civil e penal, não têm, e não poderiam ter, outra finalidade senão um
ataque à família.
O lugar da escola
Subjacente a essas questões está a do lugar da escola em relação às outras
instituições sociais. O jovem está inserido em uma rede de instituições e de poderes que
contribuem para a sua formação e que, ao mesmo tempo, colaboram e disputam entre si
para impor sua influência, seu modo de pensar, suas normas. Por comodidade, far-se-á
oposição entre o que concerne à família e o que concerne ao Estado, à sociedade
[amálgama revelador]; esfera do privado, do indivíduo e de seu grupo social em oposição
a uma esfera pública, coletiva. Hoje em dia, essa dualidade torna-se complexa em virtude
do crescente peso da mídia e do grupo de pares como vetores muito eficazes de
transmissão cultural. A mídia, principalmente, viola as fronteiras entre o público e o
privado, introduzindo, aí, uma indistinção que nem o carré blanc nem o zapping conseguem
resolver, a fim de restituir a cada um a sua liberdade.67
Essa distinção público-privado possui um valor operatório bem diverso conforme
os Estados europeus. Do ponto de vista histórico, todos foram marcados principalmente
pela influência das igrejas cristãs, mas também pelo judaísmo e, alguns, cada vez mais
numerosos, pelo Islã, ao mesmo tempo que uma corrente laica, agindo de modos diversos,
vem-se igualmente afirmando, sobretudo na França. A tradição institucional dessa oposição
público-privado e dessa diversidade histórica reside na existência de uma instituição ou de
uma educação religiosa mais ou menos integrada nos horários escolares e encarregada,
exclusivamente ou não, de uma educação para a vida social e os valores. O que aqui está
em jogo é de especial interesse: trata-se da possível definição coletiva de princípios
comuns para a vida em sociedade e da incumbência, pelas instituições escolares, de sua
transmissão. Sejam quais forem os desenvolvimentos do ensino religioso e de sua
presença nos sistemas escolares, a educação cívica, em uma dimensão europeia, exige
uma abordagem convergente das regras da vida em comum, ainda que o respeito à
liberdade individual, particularmente à liberdade de consciência, seja um elemento
constitutivo da identidade europeia.
Na medida em que a educação cívica é também um ensinamento de valores,
não pode estar isenta das questões acerca de sua origem, de sua definição, da
legitimidade daqueles que têm a incumbência de ensiná-la. Para uns, a escolha dos
valores e dos princípios que serão ensinados depende da família, de suas crenças,
sobretudo religiosas, a única garantia contra os totalitarismos de Estado e ideológicos;
para outros, somente uma instituição fundada sobre princípios e valores proclamados
universais garante uma educação para a liberdade, oferece a cada um a possibilidade de
acesso ao outro e preserva a coesão do corpo social, para além das crenças particulares.
(Conselho da Europa)68
Assim, pouco nos espanta constatar o que o autor escreve, algumas páginas
adiante, colocando o habitual pretexto da coesão do corpo social acima dos riscos do
totalitarismo:
Insisto mais uma vez que é urgente e indispensável debater [a questão
dos valores e do laicismo], que todos os sistemas de ensino devem concordar
em explicitar e tratar positivamente a questão dos valores, que o laicismo
revisitado é a orientação mais apropriada para pensar nossas regras de vida
em comum e o funcionamento das escolas, no respeito às liberdades
individuais e aos direitos humanos, em luta contra todo tipo de discriminação.
(Conselho da Europa)69
Duas páginas antes, o autor não evitara mencionar os métodos pedagógicos ativos:
Parece que a maior parte das recomendações insistem, desde há muito
tempo, na necessidade de aplicar métodos pedagógicos ativos, de
desenvolver o senso de responsabilidade entre os alunos, de lhes ensinar a
autonomia, de diferenciar as abordagens. (Conselho da Europa)70
Há autores que são mais explícitos:
Na origem dessa reflexão de ordem pedagógica, decerto encontrar-se-á a
clássica oposição entre instrução e educação, entre escola e família. Será
preciso deixar à esfera privada da família o encargo e a responsabilidade de
educar, apoiando-se para tal numa ética? Agir de outro modo não seria
romper com a neutralidade da escola, com sua função essencial de
transmissão de conhecimentos objetivos? Contudo, a escola não pode limitarse
a ensinar. De maneira implícita ou explícita, ela é portadora de valores e os
transmite. Ela educa, portanto. Vale dizê-lo e afirmá-lo claramente. (Conselho
da Europa)71
Enfim, concluímos com uma citação espantosa:
Os debates, as pesquisas e mesmo as hesitações dos responsáveis pela
educação ou dos representantes dos professores mostram que, se a promoção
da educação moral nos programas escolares parece cada vez mais necessária,
a implementação de uma ação dessa natureza constitui para muitos países
um problema ao mesmo tempo prioritário e ainda sem solução, tanto no
tocante aos que concebem os planos de estudos quanto no tocante às
condições do processo de formação dos professores; todo educador
insuficientemente preparado para propor discussões de caráter ético ficará
reticente, pela justa razão de tal empreendimento lhe parecer ao mesmo
tempo importante, complicado e crivado de armadilhas. Seria, portanto,
conveniente fazer a devida distinção entre hesitação e indiferença, ou entre o
tempo necessário ao perfeito controle da modificação dos valores e um
suposto eclipse da moralidade e da educação moral. (Unesco)72
Espantosa confissão na qual o autor reconhece que a decadência moral de nossos
dias, que se poderia atribuir a uma “indiferença moral” ou a um “suposto eclipse da
moralidade”, está, na realidade, relacionada ao “tempo necessário ao perfeito controle da
modificação dos valores”, à revolução psicológica. Ou, ainda, que a ruína dos valores
morais é tão somente uma consequência, escolhida deliberadamente e conscientemente
assumida, de um projeto de subversão dos valores que não se pode realizar em prazo
muito breve. Desse modo, a escalada da criminalidade, da insegurança, da delinquência, do
consumo de drogas, a desestruturação psicológica dos indivíduos que se seguiu ao
aviltamento moral e à consequente destruição do tecido social são as consequências de
uma política consciente. Portanto, a manobra destinada a modificar os valores articula-se
assim: inicialmente, impedir a transmissão, especialmente por meio da família, dos
valores tradicionais; face ao caos ético e social daí resultantes, torna-se imperativo o
retorno a uma educação ética – controlada pelos Estados e pelas organizações
internacionais, e não mais pela família. Pode-se, então, induzir e controlar a modificação
dos valores. Esquema revolucionário clássico: tese, antítese e síntese, que explica a razão
por que, chegada a hora, os revolucionários se fazem os defensores da ordem moral. E por
que, nolens, volens, os partidários de uma ordem moral institucionalizada se encontram
frequentemente lado a lado com os revolucionários.
47 São Tomás de Aquino, Somme théologique, la-2ae, qu. 94, ar. 6, Paris, Editions
de la revue des jeunes (tratado La Loi), 1935.
48 Ver: S. Rassekh, G. Vaideanu, Les contenus de l’éducation, Op. cit., Unesco.
49 Parlamento europeu, La politique de l’éducatìon et de la formation dans la
perspective de 1993, Op. cit., p.33.
50 Parlamento europeu, La politique de l’éducatìon et de la formation dans la
perspective de 1993, Op. cit., p. 18.
51 Simpósio internacional e mesa redonda: Qualities required of education today...,
Op. cit., Unesco, p. III 7.
52 Ver: Parlamento europeu, La politique de l’éducation et de la formation dans la
perspective de 1993, Op. cit., p. 19.
53 S. Rassekh, G. Vaideanu, Les contenus de I’éducation, Op.cit., Unesco, p. 169,
196. Ver também: Congrès international sur La paix dans l’esprit des hommes, 26 juin -
1er juillet 1989, Yamoussoukro, Côte d’lvoire, Relatório final, Unesco, p. 43. Esse congresso
reuniu uma plêiade de personalidades.
54 Ibid.
55 A. Curle, Contribution of education to freedom and justice, in M. Haavelsrud
(ad.) Education for peace: reflection and action, LPC Science and Technology Press,
Guilford, 1976, p. 75.
56 Derek Healer, Human rights education in schools: concepts, attitudes and skills,
Strasbourg, Conselho da Europa, 1984, p.6 et 7. [DECS/EGT (84) 26].
57 OCDE/CERI, La réforme des programmes scolaires, Paris, OCDE, 1990, p. 43.
Relatório “publicado sob a responsabilidade do Secretariado geral da OCDE” (p. 3) que
“constitui o resultado de um estudo sobre a evolução dos programas de estudos,
empreendido em 1987 pelo Comitê Diretor do Centro para Pesquisa e Inovação no Ensino
(CERI)” (p. 7).
58 F. Audigier, Enseigner la socíété, transmettre des valeurs, Strasbourg, Conseil
de l’Europe, 1992, p. 9 [DECS/SE/Sec (91) 12]. Grifo no original.
59 Cf. Conférence intergouvernementale de 1983 pour la coopération internationale,
la compréhension et la paix.
60 G. Beis, Pour une éducatíon aux valeurs éthiques, Paris, Unesco, 1987, p.41
(BEP/GPI/3 et BEP-87/WS/5).
61 Congrès international sur la paix dans I’esprit des hommes, Relatório final, Op.
cit., Unesco, p. 43.
62 Simpósio internacional e mesa redonda: Qualities required of education today...,
Op. cit., Unesco, p. 67.
63 F. Audigier, Enseigner la société, transmeftre des valeurs, Op. cit., Strasbourg,
Conseil de l’Europe, 1992, p. 10.
64 Quatrième conférence des ministres de I’Education, Perspective et tâches, Op.
cit., Unesco, p. 11.
65 Ibid, p. 14.
66 F. Best, Education, culture, droits de I’homme et compréhension internationale,
Paris, Unesco, p. 2. Sem data.
67 O carré blanc é um sinal utilizado pelas redes de televisão francesas para
advertir aos telespectadores que um programa é inadequado para menores de idade; já o
zapping é o fenômeno iniciado com o advento do controle remoto, com o qual os
telespectadores passeiam por diversos canais da TV – N. do T.
68 F. Audigieri, Enseigner la société, transmettre des valeurs, Op. cit., p. 11. Grifo
no original; grifos nossos.
69 Ibid., p. 15. Grifo no original.
70 Ibid., p. 13. Grifo no original.
71 48° Seminaire du Conseil de I’Europe pour enseignants, Donaueschingen, 25-30
juin 1990, Sciences, éthique, droits de I’homme et éducation, Strasbourg, Conseil de
I’Europe, 1991, p. 10 [DECS/EGT (90) 23]. Grifo no original.
72 S. Rassekh, G. Vaideanu, Les contenus de l’éducation, Op. cit. Unesco, p. 165.
CAPÍTULO VI
A REVOLUÇÃO CULTURAL E
INTERCULTURALISMO:
HOMENAGEM A GRAMSCI
O multiculturalismo está sendo introduzido nos IUFMS e no ensino escolar, como o
prova, entre outros documentos, o catálogo do CNDP (Centro Nacional de Documentação
Pedagógica). A cultura francesa é colocada no mesmo nível que as dos povos mais
distantes de nós, tanto fisicamente quanto psicologicamente. As citações em seguida
mostram a verdadeira face do multiculturalismo:
A África do Sul, o Canadá e a República Federal da Alemanha, entre
outros países, oferecem o exemplo do modo como um governo pode manipular
a cultura. Colocam-se então questões capitais sobre o plano teórico: uma
educação multicultural para quê? Quais são os alvos e os objetivos dessas
medidas? Que tipo de sociedade se tem em vista? (Conselho da Europa)73
Conforme já vimos, pode-se ensinar a cultura desde um ponto de vista
clássico, como uma soma de conhecimentos bem estabelecidos e que devem
ser comunicados, ou ver nela algo de mais flexível e mais adaptado à vida
contemporânea. Algumas vezes, os professores mostraram-se lentos em
compreender essa diferença. Desde alguns anos, os grupos ultraconservadores
de diferentes países, dos Estados Unidos à Islândia, passando pela Nova
Zelândia, a Austrália e o Reino Unido, compreenderam a importância política do
que podemos chamar de abordagem cultural dos programas escolares. Isso se
traduz – e continuará provavelmente a assim se traduzir – por meio de
confrontações diversas, principalmente a respeito dos aspectos sociais,
científicos e morais dos programas. (OCDE)74
Não se deve subestimar, porém, o risco de nos fecharmos em uma certa
fatalidade étnica quando cultivamos a preeminência do coletivo sobre o
individual. Alguns defensores da educação multicultural estão bem conscientes
desse perigo e da necessidade de ultrapassar os particularismos étnicos se se
quer atingir o pleno desabrochamento da personalidade de cada um enquanto
homem, no sentido universal dessa palavra. (OCDE)75
Essa orientação geral comporta ao menos uma exceção: a abordagem
intercultural. Esta visa a um objetivo ambicioso: a formação de uma
identidade cultural nova, aberta, não mais marcada pelo eurocentrismo ou pelo
etnocentrismo, ou por um vínculo cego a suas próprias crenças e valores.
(OCDE)76
As sociedades contemporâneas podem subsistir e funcionar somente se
a coexistência de culturas diferentes for possível e se os indivíduos puderem,
segundo as circunstâncias e segundo suas necessidades, passar de uma
cultura a outra, e mesmo ter acesso a várias culturas. O programa de
educação multicultural toma, à luz dessa reflexão, uma amplitude, e mesmo
uma profundidade diversa, pois sua razão de ser não se justifica mais
unicamente por argumentos éticos (combater as descriminações produzidas
pelo racismo ou etnocentrismo) ou jurídicos (respeitar os direitos do homem),
mas também epistemológicos (diferenciar a maneira de pensar, as formas da
inteligibilidade e a estrutura do saber). Esse enriquecimento do dispositivo
conceptual permite considerar a construção de uma teoria científica da
educação multicultural e, portanto, o desenvolvimento de programas de
educação multicultural fundados sobre bases científicas. (OCDE)77
Enfim, é surpreendente notar a ausência, em quase todos os documentos
sobre a educação multicultural, de análises epistemológicas acerca do alcance
cognitivo da cultura escolar. Cada cultura abrange uma organização específica
das relações entre o indivíduo e a natureza, ou dos indivíduos entre si. No
interior de cada sistema cultural está inscrita uma representação determinada
do espaço e do tempo que estrutura tanto a organização e a classificação dos
conhecimentos quanto a da memória individual e coletiva. As interações entre
a cultura de um povo e suas práticas de aquisição e transmissão dos
conhecimentos são profundas. A organização do ensino formal, tal como ele se
desenvolve, e a concepção da própria escola dependem do modelo cultural, da
importância e da significação atribuídas ao saber em cada cultura, da
representação deste mesmo saber em uma sociedade, em uma comunidade
determinada. Por exemplo, o conceito do “saber” na cultura muçulmana ou na
cultura tradicional japonesa é bem diferente do conceito produzido pelas
culturas ocidentais na época das Luzes. Assim, cada cultura interfere sobre a
organização das experiências, sobre a formação das competências cognitivas e
engendra um modelo de ensino que lhe é próprio. (OCDE)78
Que pode fazer a escola em face das crenças e do imaginário coletivos
que nutrem as culturas e constituem seu núcleo duro? (OCDE)79
A organização da educação multicultural com a introdução em programas
de cursos de língua e de cultura de origem levanta, pois, um problema
cognitivo particular. A adoção da educação multicultural não se reduz, de fato,
a uma simples operação de atualização dos programas nos quais se inscrevem
novos conhecimentos ou mesmo novas disciplinas. A educação multicultural é
mais que isso: ela dá acesso, em graus diferentes, a outras formas de
conhecimento e a outras tradições culturais, depositárias de tipos de saber
diferentes, em seus conteúdos e em sua estrutura interna, daquele da tradição
escolar. A aposta cognitiva representada pelos programas de educação
multicultural não deve ser subestimada, pois ela é de grande alcance sobre o
plano epistemológico. O agenciamento da educação multicultural nos sistemas
de educação é delicado, pois ele toca em um ponto sensível da organização do
ensino: as formas de conhecimento e a hierarquia dos saberes. (OCDE)80
Não se poderia reconhecer mais claramente que a educação multicultural visa a
uma revolução psicológica, cujas consequências são dificilmente avaliáveis. Os meios
empregados devem, portanto, estar à altura da aposta:
O intercultural afeta, assim, o conjunto da instituição educacional: o
ensino pré-escolar, as línguas, a elaboração dos programas, os manuais e
outras ferramentas pedagógicas, a administração, os exames, o controle e a
avaliação, as atividades extraescolares, os laços entre a escola e a
comunidade, os serviços de orientação e os serviços auxiliares, a preparação
para a vida adulta, a formação inicial e contínua dos professores, a luta contra
a xenofobia e o racismo. (Conselho da Europa)81
A existência, na Suécia, de uma decisão governamental que obriga todos
os professores a participar do desenvolvimento da educação intercultural é um
fato capital, de vez que delimita um cenário e concretiza as aspirações à
mudança. (Conselho da Europa)82
Não pode se compreender o interculturalismo a não ser na perspectiva globalista,
tal como expressa no Documento de referência da Conferência mundial sobre a educação
para todos:
Consciência mundial: a emergência da educação mundial e da educação
para o desenvolvimento
Presentemente, no norte como no sul, os educadores começam a
reconhecer a necessidade de considerar a educação numa perspectiva mais
mundial. Os programas de educação para o desenvolvimento e de educação
mundial contribuem para inculcar nos alunos uma atitude mundialista,
ensinando-lhes principalmente a reconhecer e a evitar os preconceitos
culturais e a encarar com tolerância as diferenças étnicas e nacionais. Esses
programas se esforçam por vincular os grandes problemas às realidades de
caráter mundial, principalmente as questões concernentes ao meio ambiente, à
paz e à segurança, à dívida internacional, às medidas contra a pobreza, etc.,
em todos os conteúdos específicos da educação fundamental.
No Canadá, o projeto de educação mundial de Alberta [...], ajuda os
professores a identificar e delimitar os elementos do programa escolar e as
técnicas específicas que desenvolverão nos alunos a capacidade de abordar as
questões mundiais. [...]
A educação mundial e a educação para o desenvolvimento começam a
surgir também nos países em desenvolvimento. [...]
Nas Filipinas, as escolas normais e a Universidade das Filipinas
trabalham atualmente no aperfeiçoamento de novos conteúdos curriculares que
fornecerão uma ideia abrangente das questões mundiais, e em particular das
que influem na sociedade filipina. Uma vez concluído, o programa será
utilizado tanto na educação formal quanto na educação não formal. Para esse
efeito, as instituições públicas e as instituições não governamentais
estabelecem uma aliança para promover e empregar os novos conteúdos e
métodos [e em particular a mídia]. (Conferência Mundial)83
Esse processo de mundialização deverá se desenrolar até seu resultado lógico: a
adoção de uma língua internacional, prelúdio da destruição das culturas e das mentalidades
locais.
Uma das questões que devem ser examinadas é a do desenvolvimento,
para essa sociedade global, de uma língua internacional que reforce e promova
uma cultura internacional. A Unesco deveria realizar um estudo específico
sobre esse assunto. (Unesco)84
Talvez não seja inútil recordar das palavras que Orwell colocava na boca de um de
seus personagens e que se aplicam perfeitamente ao jargão mundialista e à futura língua
internacional. Por analogia, estendidas também à nova cultura mundial:
“Vós não vedes que o verdadeiro alvo da novilíngua é de restringir os
limites do pensamento? No fim, nós tornaremos literalmente impossível o
crime pelo pensamento, pois não haverá mais palavras para o expressar. [...]
A cada ano, menos e menos palavras, e o campo da consciência mais e mais
restrito. [...] A Revolução estará completa quando a língua for perfeita. A
novilíngua é o angsoc [socialismo inglês] e o angsoc é a novilíngua”,
acrescentou ele com uma sorte de satisfação mística. (Orwell, 1984)85
73 Séminaire européen d’enseignants, La formation interculturelle des enseignants,
Op. cit., Conseil de l’Europe, p. 19.
74 OCDE/CERI, La réforme des programmes, Op. cit., p. 43.
75 OCDE/CERI, L’école et les cultures, Op. cit., p. 69.
76 Ibid., p. 8.
77Ibid., p. 21.
78 Ibid., p. 70.
79 Ibid., p. 72.
80 Ibid., p. 86.
81 La formation interculturelle des enseignants, Op. cit., p. 12.
82 Ibid., p. 32.
83 WCEFA, Conférence mondiale sur l’éducation pour tous, 5-9 mars 1990,
Jomtiem, Thaïlande, Document de référence, Paris, WCEFA, 1990, p. 12. Itálicos nossos. De
acordo com uma técnica experimentada, o prefácio desse documento menciona que “o
presente documento não expressa necessariamente uma tomada de posição por parte da
Comissão interinstituições nem das organizações que, a título principal ou associado,
apadrinharam ou coapadrinharam a Conferência mundial”. No entanto, nas linhas anteriores,
descobrimos que: “Para estabelecer o presente documento de referência, o Secretariado
executivo da Comissão interinstituições (constituída pelo Banco mundial, o PNUD, a Unesco
e o Unicef em vista da organização da Conferência mundial) se inspirou de numerosos
relatórios e estudos, sugestões de três oficinas técnicas das quais participaram
especialistas de cinco continentes” (p. iii).
84 International symposium and round table, Qualities required of education
t
o
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y
…
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O
p. cit.,
U
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8. 85 G. Orwell, 1984, Folio,
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p. 7
9
-
8
0.
CAPÍTULO VII
REESCREVER A HISTÓRIA
A educação para a paz, a concórdia entre as nações, o desarmamento, o civismo
pacífico, a fraternidade humana, a consciência da interdependência entre as nações e “a
experiência da vida em uma sociedade multicultural” não se poderiam satisfazer com o
ensino da história como é feito atualmente. Desejar-se-ia eliminar os diversos conflitos
entre nações, etnias ou religiões que, com ou sem pretensa razão, consistiriam um
obstáculo à educação para a paz. Convém, portanto, reescrever a história, projeto
essencialmente totalitário. Naturalmente, contudo, não se poderia compreender a história
quando se busca sistematicamente ocultar todos os elementos que, opostos à ideologia
oficial, são não obstante um de seus autênticos motores. Assim, pretende-se cometer
uma verdadeira mutilação psicológica, que deve amputar, das gerações futuras, as suas
raízes, bem como lhes impossibilitar toda a verdadeira compreensão política:
No que concerne às medidas a tomar, foram feitas as seguintes
proposições:
- elaboração de um manual de história geral da Europa, bem como um
manual de história universal, com a ativa participação de comitês de
historiadores dos países interessados. (Unesco, 4a Conferência dos Ministros
da Educação)86
Não obstante, convém não subestimar a necessidade de um
aperfeiçoamento no ensino da História, da Geografia, da Literatura e de outras
disciplinas culturais que favorecem o despertar do interesse e a melhor
compreensão de outras comunidades, a fim de impregnar tal interesse de um
espírito de objetividade científica e de tolerância, eliminando tudo o que possa
haver de desconfiança e de desprezo relativamente a outros povos. Sabe-se
que a natureza mesma da história da região não facilita a consecução de um
objetivo assim. A simples apresentação objetiva dos fatos, sendo, de
resto, insuficiente para produzir a atitude desejada, deve além disso ser
realizada dentro de um verdadeiro espírito de tolerância, de modo a fazer
compreender que os adversários de ontem são os parceiros de hoje, e que sua
colaboração em uma obra comum só pode beneficiar a todos. Na medida em
que se possa criar uma tal atmosfera, os temas relativos à paz, ao
desarmamento, à cooperação e aos direitos humanos se impõem como uma
obrigação. (Unesco, 4a Conferência dos Ministros da Educação)87
Recordemos que as publicações das instituições internacionais com frequência
estendem os direitos humanos – que não são definidos em parte alguma – aos direitos
sociais: direito à habitação, ao trabalho, à alimentação etc.
É revoltante a pouca importância que se dá à apresentação objetiva dos fatos,
quando, seis linhas antes, os autores diziam:
No mais das vezes, um tal orientação [“que tende ao fortalecimento da
cooperação, da concórdia e da paz internacionais ou à garantia dos direitos
humanos” – não cognitiva, portanto] produz uma modificação e um
enriquecimento dos conteúdos e das disciplinas tradicionais, disciplinas cuja
atualização deveria ser assegurada mediante um esforço contínuo de pesquisa
pedagógica e com base em uma utilização sistemática dos resultados das
ciências sociais e humanas [particularmente a psicologia e a sociologia], a fim
de reforçar o impacto pretendido. (Ibid.)
Os trabalhos de revisão dos manuais escolares se multiplicam em
escala nacional e bilateral; a atual atmosfera, de menor tensão, não permitiria
avançar mais e pretender, para as disciplinas mais sensíveis, uma cooperação
multilateral, capaz de definir orientações comuns no que tange aos programas
e aos manuais escolares? (Unesco, 4a Conferência dos Ministros da
Educação)88
Aprender a aprender
As sociedades e, mais particularmente, suas instituições governamentais
devem ser consideradas essencialmente como “sistemas aprendizes”. As
sociedades mais aptas a apresentar sucesso serão aquelas cuja capacidade de
aprendizagem é alta: flexíveis, elas são capazes de antecipar e de
compreender as mudanças, bem como de se adaptar a elas. Tais sociedades
se beneficiam da participação ativa dos cidadãos no processo de
aprendizagem. Ao longo dessa aprendizagem, a história deverá ser reescrita e
reinterpretada. (Unesco)89
Esse processo contínuo de alterações aplicava-se não somente a jornais,
mas também a livros, periódicos, panfletos, cartazes, folhetos, filmes,
registros sonoros, caricaturas, fotografias; era aplicado a toda espécie de
literatura ou documentação que tivesse qualquer significado político ou
ideológico. Dia a dia, e quase minuto a minuto, o passado era atualizado. Desta
forma, era possível demonstrar, com prova documental, a correção de todas
as profecias do Partido. Jamais permanecia no arquivo qualquer notícia, artigo
ou opinião que entrasse em conflito com as necessidades do momento. Toda a
história era um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fossem
necessárias. Em nenhum caso seria possível, uma vez feita a operação, que se
provasse qualquer fraude. (Orwell, 1984)90
86Quatrième conférence des ministres de l’Education des états membres de la
région Europe, Rapport final, Paris, Unesco, 1988, p. 17. (ED-88/MINEDEUROPE). Documento
publicado naturalmente sem reservas acerca das opiniões expostas por seus autores.
87 Quatrième Conferência dos Ministros da Educação, Perspectives et tâches, Op.
cit., Unesco, p. 12. Grifo nosso.
88 3. Ibid., p. 16.
89 International symposium and round table, Qualities required of education
today..., Op. cit., Unesco, p. 34. Notar-se-á, de passagem, que as razões pelas quais se
deve “aprender a aprender” aparecem igualmente. Cria-se uma mentalidade privada de de
qualquer referência estável, aberta à inovação, à mudança, ou seja, à simples moda, de
maneira que, a essa nova mentalidade, a mera noção de verdade seja algo estranho e, por
isso mesmo, facilmente manipulável.
90 G. Orwell, 1984, Folio, Galimard, p. 62.
CAPÍTULO VIII OS IUFMS
A formação dos professores
Os objetivos precedentes são muito ambiciosos e requerem dos professores uma
formação em Psicopedagogia. Na França, os IUFMS foram criados explicitamente para esse
fim. Assim, o decreto de 18 de outubro de 1991,91 que fixa as modalidades do
recrutamento dos alunos dos IUFMS, estipula que:
Numa primeira etapa da prova [de francês], o candidato fará a síntese
de textos e documentos relativos à aquisição e ao ensino da língua francesa e
deve resolver uma questão de Gramática ou de vocabulário; numa segunda
etapa, ele analisará e criticará documentos pedagógicos relativos a esse
ensino na escola primária. [...]
Numa primeira etapa da prova [de Matemática], o candidato analisará
situações [!] ou resolverá problemas; numa segunda etapa, ele analisará e
criticará documentos pedagógicos relativos ao ensino da Matemática na escola
primária. [...]
[O concurso externo compreende uma] prova oral [de admissão],
permitindo ao candidato:
- demonstrar sua aptidão para articular seus conhecimentos, sua
capacidade de reflexão e sua experiência no domínio da Educação: Filosofia da
Educação, desenvolvimento fisiológico e psicológico das crianças e dos
adolescentes, abordagem psicológica e sociológica dos processos de
aprendizagem e da vida na escola e na sociedade [...]
Cada uma dessas provas [do segundo concurso interno] possibilita
verificar se o candidato avalia corretamente as abordagens didáticas e os
procedimentos pedagógicos relativos ao ensino, na escola primária, da
disciplina da prova, e se ele domina os conhecimentos científicos necessários.
A prova consiste na análise de documentos pedagógicos relativos a
questões que necessariamente fazem referência aos conteúdos ensinados pela
escola primária no âmbito de cada disciplina.
Os IUFMS franceses integram, portanto, um projeto mundial de formação de
professores sustentado por pedagogias ativas e que visa a modificar profundamente o
papel da escola:
Como já se pode pressentir, a promoção dos novos conteúdos (know-
how, valores, atitudes, concepção do mundo) e a sua integração nos planos de
estudos implicam uma revisão vasta e profunda do sistema educacional, já
que isso afeta, a um só tempo, as estruturas, a formação de professores, as
atitudes e as mentalidades. (Unesco)92
O aperfeiçoamento da formação dos professores, tanto a inicial quanto a
continuada, a revisão dos manuais [mais particularmente de história] e a
produção de novos materiais e de publicações pedagógicas auxiliares,
interdisciplinares e atualizados, são de uma importância crucial em se
tratando de inculcar nos alunos os valores e princípios enunciados na
Recomendação sobre a Educação para a Compreensão, a Cooperação e a Paz
Internacionais e a Educação Relativa aos Direitos do homem e às Liberdades
Fundamentais adotada pela Unesco em 1974 [em seu período abertamente pró-
comunista]. Importa que os professores de todas as matérias recebam uma
formação que os torne aptos a proceder segundo uma abordagem humanista.
(Unesco, 4ª Conferência dos Ministros da Educação)93
Não é possível – não mais – pensar em estender os programas de
educação multicultural a todas as crianças se o conjunto do corpo docente não
receber uma sólida formação teórica sobre os problemas levantados pelas
interações entre culturas diferentes, o que implica estudos em Filosofia, em
Antropologia Cultural, em Linguística, em Sociologia da Educação e em
Psicologia do Conhecimento. Não basta demonstrar que a educação bilíngue ou
os cursos de L1 e L2 são, sob certas condições, eficazes; também é preciso
que as escolas comuns – e não somente as escolas experimentais ou de
vanguarda – disponham de equipamentos, de recursos, de meios que lhes
permitirão atender a essas condições. (OCDE)94
A formação deve permitir que os estudantes tomem consciência de seus
próprios comportamentos e valores. É preciso incitá-los a analisar e a
modificar estes na perspectiva de seu desenvolvimento pessoal. ...
Seria necessário que a formação aprimorasse a aptidão dos estudantes
para incutir uma inteligência internacional em seus alunos e prepará-los para
trabalhar numa sociedade multicultural. (Conselho da Europa)95
Os problemas se colocariam então em termos de conteúdo e de método,
insistindo-se particularmente nas maneiras de influenciar as atitudes e os
julgamentos dos alunos-professores. (Conselho da Europa)96
[A] reflexão [se apoia] nas características de um programa de formação
pedagógica cujo objetivo é preparar o futuro professor para exercer sua
profissão em uma escola cada vez mais multicultural. (Conselho da Europa)97
Esse contexto, contudo, cria um espaço privilegiado no qual se pode lutar
contra esses elementos negativos, acelerar as iniciativas em curso no campo
da educação para uma sociedade multicultural, incluindo aquelas que tangem à
formação dos professores e se baseiam no pluralismo cultural e na
equiparação das oportunidades. (Conselho da Europa)98
Todos, dos diretores e administradores aos empregados de escritório e
os demais não docentes, têm necessidade de uma reciclagem [no que
concerne ao interculturalismo]. Esse grupo empregou, em seguida, um certo
número de estratégias visando a vencer a resistência à mudança, e propôs
modelos de programas de formação de pessoal. (Conselho da Europa)99
A formação de pessoal docente pretende igualmente abri-los às inovações
permanentes em matéria de Pedagogia e conteúdos educativos e fazer deles agentes
dóceis de políticas educativas cada vez mais revolucionárias:
Quaisquer que sejam as mudanças visadas nos sistemas educacionais,
haverá sempre a necessidade da estreita cooperação dos professores para
preparar e executar essas reformas e inovações. A contribuição e a aceitação,
por parte dos professores, dessas mudanças são uma condição necessária
para sua difusão e eficácia. Tornou-se evidente que a formação dos
professores deveria ter laços mais estreitos e mais bem organizados com a
pesquisa educacional [tramadas na França por meio dos IUFM], a concepção
dos currículos e a produção de materiais pedagógicos de tal modo que, ao
longo de suas carreiras, possam os professores ser parte ativa no processo
complexo graças ao qual as inovações pedagógicas vêm à luz (mesmo no
modesto nível da prática do ensino) e se difundem.100
Abordamos ainda o tema da formação contínua dos professores, dos diretores e
outros profissionais de ensino dos sistemas educacionais. Em nada diferindo do tema dos
IUFMS e já tendo sido por nós encontrado várias vezes, trataremos rapidamente do
assunto: o doutrinamento e a manipulação devem tornar-se permanentes e não se limitar
à formação inicial.
A introdução, nos programas, dos temas de educação com vocação
internacional, a elaboração de manuais escolares e guias sobre esses temas
para os professores são mencionados por muitos países. Essas atividades são
sustentadas por toda uma série de pesquisas – de que participam as
universidades – e por seminários e colóquios de especialistas. Numerosos
países mencionam o seu interesse pelas publicações das Nações Unidas e da
Unesco sobre esses temas. A reciclagem para preparar os professores para
essas novas tarefas é uma preocupação comum a muitos Estados.
(Unesco)101
Pedagogias ativas e manipulações psicológicas nas salas de aula
No término de sua formação, os professores devem ensinar o novo curriculum
com a ajuda de pedagogias ativas. Escondendo-se atrás dos direitos humanos, cuja
definição eles se furtam a dar – direitos que, estendidos, dissimulam as reivindicações
comunistas –, os psicopedagogos querem inculcar em seus alunos uma mentalidade
coletivista:
Ao procurar formatar as atitudes de seus alunos, os professores
confrontam-se com uma das tarefas mais difíceis. Quais são os métodos de
ensino mais adequados para conduzir ao sucesso? O ponto fundamental cabe à
escola, que deve colocar em prática o que ela prega. Segundo as palavras da
compilação de sugestões da Unesco, o ensino dos direitos humanos deve andar
a par da prática quotidiana dos direitos e dos deveres na vida quotidiana.
Assim, a atmosfera de uma escola deve ser aquela de uma comunidade na
qual todos os indivíduos recebam o mesmo tratamento. Os princípios dos
direitos do homem devem ser visíveis na organização e na conduta da escola,
nos métodos utilizados nas salas de aula, nas relações entre os professores e
os seus alunos e entre os próprios professores, assim como em sua
contribuição para o bem-estar de toda a comunidade extraescolar.102
As atividades práticas [pedagogias ativas] são mais eficazes que o
ensino passivo, com os alunos colados às carteiras, sobretudo se há nos
alunos um manifesto interesse pela comunidade local. Se uma atividade desse
tipo não for possível, devem ser recomendadas atividades de substituição tais
como o jogo e a simulação [dramatização]. Assim, a formatação das atitudes
e a aquisição de know-how tornam-se indissociáveis dos métodos de ensino
utilizados. (Conselho da Europa)103
Os conselhos de um grupo de pares podem ser propostos pelo psicólogo
escolar, em lugar de uma intervenção preventiva. Os valores podem ser
transmitidos graças aos novos meios de comunicar. Os valores não são
transmitidos pelo estudante quando são impostos, mas sim quando
experimentados e apreciados na vida quotidiana. Entre os novos meios de
comunicar valores há, por exemplo, a dramatização e o trabalho em grupo
onde os valores podem ser apresentados ao estudante de uma maneira mais
experimental e mais compreensível. (Unesco)104
Pesquisas realizadas com alunos pertencentes a um extenso leque de
países desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento mostraram que, em
geral, os ensinamentos recebidos na escola têm pouca influência sobre as
crenças anteriores. Os alunos podem seguir com sucesso os ensinamentos
dispensados pelo sistema educacional e obter seus diplomas sem, contudo,
relacionar esses ensinamentos com suas ideias anteriores nem considerá-los
úteis ou necessários para guiar a sua vida quotidiana.
A importância do envolvimento das ideias anteriores do aluno no
processo educacional está agora em vias de se tornar mais amplamente
aceita. Ao invés de ser ignoradas, essas ideias são cada vez mais
consideradas como recursos para o ensino. Além disso, o próprio ensino é
concebido com o intuito de mudar as crenças do aluno e desenvolver modos
alternativos de compreensão das situações.
Além do reconhecimento da importância do envolvimento dos
conhecimentos e crenças anteriores do aluno, essa nova perspectiva sobre o
ensino insiste igualmente sobre a centralidade do aprendiz no processo do
ensino. A maior parte dos ensinamentos, para serem assimilados, exigem
indivíduos que tenham fortes motivações para aprender e que sejam
ativamente envolvidos, física e/ou mentalmente, no tratamento de
informações. Sob tais condições, os ensinamentos podem reorganizar as ideias
dos alunos e agir sobre elas.
O reconhecimento da centralidade da responsabilidade dos alunos em seu
próprio ensino orienta a reforma que conduz a ambientes de ensino mais
abertos e mais flexíveis, no âmbito da escola e no da formação permanente.
Tais ambientes de ensino enfatizam as seguintes características:
- Dar aos alunos a possibilidade de negociar e de fixar os próprios
objetivos [engajamento];
- Fornecer acesso flexível e aberto aos recursos;
- Insistir mais sobre os ensinos experimentais;
- Utilizar nos programas de aprendizagem novas tecnologias e outros
recursos de maneira interativa e não “transmissiva” [clássica];
- Fornecer possibilidades de esclarecer ideias e perspectivas novas e
alternativas, bem como refletir sobre isso (quer essa atividade se dê
individualmente ou em grupo, por meio de discussões e debates) [clarificação
dos valores];
- Insistir mais na ação como resultado dos ensinamentos (isto é, opor o
que os jovens podem fazer ao que eles podem conhecer);
A adoção dessas características nas escolas e nas salas de aula, assim
como nos outros ambientes de ensino, exigirá grandes mudanças em nosso
pensamento e em nossas práticas educativas.
Percebemos, durante programas de educação de adultos em relação à
saúde e ao desenvolvimento agrícola, que as ideias anteriores das pessoas
devem ser tratadas seriamente e que é necessária uma abordagem do ensino
mais orientada para a ação/objetivo [behaviorismo]. Percebe-se que a maior
parte das ideias das pessoas, assim como as práticas que se estendem por
toda uma vida, não serão modificadas ao se lhes inculcar um novo saber. A
experiência prova que, para ocorrer uma mudança, as crenças precisam ser
reveladas e reconhecidas, e que as mudanças têm mais chances de se
produzir quando as pessoas estão envolvidas nos programas de ação nos quais
tarefas são empreendidas. (Unesco)105
Essa última citação, de importância capital, revela os objetivos reais da
pedagogia centrada no aluno (“centramento” no aluno).
Um projeto mundial
Os IUFMS franceses integram, portanto, um projeto mundial, tal como o
mostraram as citações precedentes, e em particular aquelas extraídas da Declaração
mundial sobre a educação para todos:
A fim de resolvê-los, cabe a nós não somente reconhecer a
interdependência dos diversos setores de nossa economia e de nossa vida
cotidiana, mas também admitir a necessidade de adotar novas abordagens e
novas atitudes. A sociedade futura deve poder contar com seu sistema
educacional para os inculcar, se quisermos encontrar soluções válidas para
esses múltiplos problemas. Ao mesmo tempo, é necessário que
compreendamos que esses problemas não são somente interdisciplinares, mas
também internacionais e que eles não podem, portanto, ser resolvidos em
nível nacional. (Unesco. 4ª Conferência dos Ministros da Educação)106
As iniciativas de formação [de professores] em nível exclusiva e
meramente nacional não bastam: não podem dar suficiente impulso para a
compreensão internacional desejada pela Unesco tanto no domínio da
Pedagogia como no da ética e dos direitos humanos. (Unesco)107
O ponto mais importante é que deveria haver um currículo universal,
internacional e padrão, estabelecido sob os auspícios das Nações Unidas. Em
particular, esse currículo padrão deveria ser difundido a partir das séries de
manuais escolares padronizados elaborados sob os auspícios da Nações
Unidas. [...]
Isso prova ainda a necessidade de séries de manuais internacionais
padronizados e de um currículo internacional padrão ensinado pelos
professores que receberam uma formação padronizada.
[...]
Enquanto uma geração não tiver recebido os ensinamentos de um
currículo internacional padrão, todos raciocinarão segundo os velhos esquemas
mentais que, por fim, são fatais para a humanidade. Assim, desejamos
receber a anuência voluntária dos diferentes parceiros da educação, famílias,
organizações profissionais, associações religiosas e culturais, administrações e
exército. Para o bem de todos, desejamos receber seu apoio na
internacionalização e padronização da educação. (Unesco)108
Esperamos, portanto, que o Comitê Nacional do Ensino Católico seja levado a
reconsiderar os acordos que estabeleceu com o governo, os quais entregam a formação
dos professores do ensino privado aos IUFMS. Quem sabe chegue a questionar também a
“tradição de inovações pedagógicas” do ensino católico, que seu secretário geral de então,
o padre Cloupet, defendia durante as assembleias nacionais em maio de 1993.
91 J.O. de 20 de outubro de 1991, p. 13.770 sq.
92 S. Rassekh, G. Vaideanu, Les contenus de l’éducation, Op. cit., p. 15.
93 Quarta conferência dos ministros da Educação, Rapport final, Op. cit., p. 16.
94 OCDE/CERI, L’école et les cultures, Op. cit., p. 85.
95 Seminário europeu de professores/docentes, Londres, 20-25 de março de 1989,
L’éducation interculturelle, Rapport, Estrasburgo, Conselho da Europa, 1989, p. 8 [DECS/EGT
(89) 13].
96 La formation interculturelle des enseignants, Op. cit., Conselho da Europa, p. 4.
97 Ibid., p. 5. Palavras do Chanceler C. G. Andren reproduzidas pelo autor.
98 Ibid., p. 21.
99 Ibid., p. 36.
100 J. C. Pauvert, Op. cit., p. 9. O autor cita aqui: Unesco, Medium-Term Plan
(1977-1982), Paris, Unesco, 1977, 5506-9. Destaque do autor.
101 Quarta conferência dos ministros da Educação, Perspectives et tâches, Op.
cit., Unesco, p. 10.
102 Unesco, Suggestions on teaching about human rights, Paris, Unesco, 1968, p.
19.
103 Derek Heater, Human rights education in schools, Op. cit., Conselho da Europa,
p. 20.
104 International symposium and round table, Qualities required of education
today…, Op. cit., Unesco, p. 15.
105 Ibid., p. 26; destacamos.
106 Quarta conferência dos ministros da Educação, Relatório Final, Op. Cit.,
Unesco, Anexo 2, p. 12.
107 F. Best, Op. Cit., p. 11.
108 International symposium and round table, Qualities required of education
today…, Unesco, p. 40 e 42.
CAPÍTULO IX
A DESCENTRALIZAÇÃO
Numerosas vozes se elevaram, tanto na direita como na esquerda, para pregar a
descentralização ou a desconcentração do sistema educacional francês. Os pontos
principais desta reforma são os seguintes:
◆ conceder autonomia aos chefes de estabelecimento;
◆ descentralizar para permitir a participação das coletividades territoriais e dos
agentes econômicos;
◆ dotar os professores de uma maior confiança.
Esses princípios podem parecer salutares e capazes de contribuir para a melhoria
da situação do sistema educacional francês, embora não expliquem por que o atual
sistema centralizado bruscamente deixou de parecer satisfatório, pouco após o início da
revolução pedagógica. No entanto, é preciso considerar as circunstâncias de sua aplicação;
em particular não poderiam ser negligenciadas a influência das Ciências da Educação e das
pedagogias ativas, por um lado, e a das instituições internacionais, por outro lado.
As instituições internacionais competentes em matéria de educação (Conselho da
Europa, Unesco e OCDE) trabalham desde há muitos anos em colaboração estreita com os
numerosos ministérios da Educação, e em particular com o ministério francês. Com a
ajuda da proximidade geográfica, os funcionários franceses intervêm frequentemente na
qualidade de experts junto a tais instituições. Existe, desse modo, um consenso profundo
entre todas as administrações nacionais – mais particularmente a francesa – e
internacionais.
Não podemos, pois, negligenciar o peso dessas últimas em um projeto de reforma
nacional, ainda mais quando o tratado de Maastricht (Art. 165, 3) estipula que “A
Comunidade e os Estados membros favorecem a cooperação com os países terceiros e as
organizações internacionais competentes em matéria de educação, e em particular com o
Conselho da Europa”. Ora, estas instituições que trabalham desde há muitos anos sobre o
tema da descentralização desnaturam profundamente os objetivos desta.109
A implementação da reforma pedagógica
Como já o vimos, a reforma pedagógica que ocorre atualmente em numerosos
países quer substituir os ensinamentos clássicos e cognitivos por um ensino
“multidimensional e não cognitivo” que toque em todos os componentes da personalidade:
ético, afetivo, social, cívico, político, estético, psicológico. Trata-se de esvaziar os
ensinamentos de seus conteúdos (cognitivos) para substituí-los por um doutrinamento
criptocomunista e globalista, que vise a modificar os valores, as atitudes e os
comportamentos. Essas reformas pedagógicas doravante gozam de um amplo consenso
entre os dirigentes da Educação Nacional e são veiculadas pelos IUFMS,110 o INRP,111 o
CNDP,112 os CRDP113 e os profissionais das ciências da educação com o acordo tácito da
FEN. Falta, no entanto, a aceitação do conjunto da sociedade e do corpo docente, o qual,
até o momento, sempre opôs uma resistência passiva, mas determinada, a toda tentativa
que tende a esvaziar o ensino de seu conteúdo. A descentralização é o instrumento pelo
qual isso é alcançado, criando-se uma dinâmica de grupo em escala escolar e comunal,
utilizando-se da psicologia do engajamento e das técnicas de manipulação clássicas.
O “projeto de escola” permite a aplicação concreta dessas ideias no ensino
primário. Todos as escolas são atualmente obrigadas a implementar tal projeto. Eis a
definição dada a ele por uma publicação do Centro Regional de Documentação Pedagógica
de Nantes:
O projeto pedagógico engaja coletiva e individualmente os professores de
uma escola, de um ciclo ou de um mesmo nível de ensino... Centra-se nos
aprendizados e se refere aos textos oficiais. Seu campo de aplicação se
estende para além da sala de aula, na escola, e mesmo [para além] de seu
ambiente próximo ou distante. [...]
O projeto educacional engaja tanto os professores quanto os não
professores da comunidade educacional. Não diz respeito apenas ao aluno, mas
à criança enquanto indivíduo, cuja melhor inserção possível na escola e na
sociedade é visada através da abertura para uma maior responsabilidade e
autonomia... Seu campo de aplicação se amplia para uma rede mais ou menos
estendida em torno da escola.
O projeto de escola permite a realização dos objetivos nacionais em
contextos específicos: compreende tanto os projetos pedagógicos definidos
pelos professores quanto os projetos educacionais que congregam todos os
parceiros da escola.114
A autonomia dos diretores escolares
Como todo o “pessoal multiplicador”, os diretores escolares são objeto de grande
atenção por parte dos poderes públicos franceses115 ou internacionais; o Conselho da
Europa lhes consagrou vários estudos. As conclusões são sempre as mesmas: é preciso
conceder autonomia aos diretores escolares para que eles possam agir. Mas os
funcionários franceses e internacionais dão um sentido bem particular a essa proposição.
Para eles, o diretor é o agente de mudança (change agent) por excelência, que deve
utilizar sua “habilidade” psicológica e sua ciência de manipulações de grupo para fazer a
equipe de professores aceitar as reformas pedagógicas descritas anteriormente, as quais
de outro modo ela recusar-se-ia sempre a aplicar. Concebe-se, pois, facilmente que o
diretor da escola deva dispor de uma grande autonomia para adaptar sua política aos
particulares embaraços locais que encontre. Por outro lado, conceder autonomia ao diretor
o envolve na reforma; participando nela ativamente, ele se encontra em uma situação
psicológica que não lhe permite se opor, criticar o que ele mesmo foi levado a fazer passo
a passo, pé na porta após pé na porta.
Torna-se evidente a partir dos estudos de casos que um dos principais
obstáculos para a inovação é a resistência à mudança, particularmente da
parte daqueles que têm por missão implementar o projeto no meio escolar.
Alguns fazem notar que a inovação tropeça nas tendências conservadoras da
coletividade; isso não impede que, em cada grupo – pais ou professores –,
alguns sejam sempre favoráveis a uma mudança positiva, e o apoio de uns
servirá para compensar as reações negativas de outros. É preciso igualmente
contar com as forças internas extremamente poderosas que guiam cada um
de nós e que nos impelem a resistir à mudança. Os sentimentos diferentes
experimentados pelos partidários e adversários da inovação podem
frequentemente ser fonte de conflitos no interior da própria escola.
Disso deriva a necessidade de os diretores, conselheiros e inspetores
conhecerem e dominarem melhor esses fenômenos a fim de poder ajudar o
corpo docente a superar tais obstáculos, por exemplo, colocando em evidência
seus sentimentos e relações. É preciso que os diretores aprendam,
particularmente, a tratar tais situações com habilidade e delicadeza, para
reforçar no seio da equipe docente (e outros professores e parceiros) o
espírito de cooperação e o sentimento de um objetivo comum a ser atingido
[dinâmica de grupo]. Os trabalhos de pesquisa mostram claramente que os
diretores desempenham um papel de todo importante com relação a isso,
desde que estejam convencidos. (Conselho da Europa)116
Quando o diretor sabe como os professores mudam, quando conhece as
causas de resistência à mudança, as condições propícias ao sucesso das
mudanças e os postulados e variáveis ligados à mudança, pode-se considerar
que ele – ou ela – está em boa posição para esforçar-se por introduzir as
inovações em sua escola. É evidente que no princípio o diretor deverá utilizarse
concretamente de certas estratégias, métodos e medidas para ser eficaz.
Quando examinamos as estratégias e os métodos de um ponto de vista
mais geral, podemos reter a tipologia das estratégias de inovação proposta por
Chin e seus discípulos.117 Segundo essa tipologia, existem três tipos de
estratégias:
a) estratégias coercitivas que dependem do acesso aos recursos
políticos, jurídicos, administrativos e econômicos;
b) estratégias empírico-racionais baseadas no postulado de que o homem
é racional e será sobretudo sensível às explicações e demonstrações lógicas;
c) estratégias normativas e reeducativas que suponham que toda
inovação eficaz passe por uma mudança de atitudes, de relações, de valores e
de competências e, portanto, pela ativação de forças no interior do sistema
cliente. (Conselho da Europa)118
É evidente que as instituições internacionais trabalham principalmente, e mesmo
exclusivamente, apoiadas nas estratégias do terceiro tipo, que são na verdade técnicas de
manipulação psicológica.
Notemos, enfim, que o “projeto de escola” constitui um passo considerável em
direção à autonomia dos diretores.
Conceder autonomia para dar confiança aos professores
O diretor escolar não pode, no entanto, malgrado toda sua “habilidade”, garantir
sozinho o sucesso das reformas. É preciso necessariamente envolver os professores, o
que é possível na Educação nacional e alhures em virtude da descentralização na
administração escolar (autonomia) que permite utilizar a dinâmica de grupo, a psicologia
do engajamento, a interação e a negociação. Consegue-se assim a aceitação das “reformas
pedagógicas” pelos professores, que esvaziam seus cursos de seu conteúdo acadêmico e o
substituem por um ensino multidimensional e não cognitivo. Trata-se de um resultado
notável, pois numerosas reformas da educação, na França ou no exterior, fracassaram por
causa da oposição passiva dos professores que se recusavam a renunciar aos conteúdos
acadêmicos. Novamente, partilha dessa perspectiva o “projeto de escola”, que insiste no
trabalho em equipe dos professores para criar uma dinâmica de grupo e engajá-los na
política da escola. Eis algumas considerações bastante esclarecedoras do Conselho Europeu
sobre esses pontos:
Lembremos que, ao longo desse capítulo, as ideias centrais de interação
e negociação devem estar presentes ao espírito. A inovação, para ser coroada
de êxito, exige a participação ativa daqueles que são seus agentes, e mais
amplamente de todos os que serão afetados por sua aplicação e suas
consequências. [...]
No anexo IV do presente relatório, o Professor R. Vanderberghe
apresenta a noção de abordagem regressiva (backward mapping), na qual vê
um meio de promover a participação dos interessados nas diversas etapas
preparatórias à inovação. Em vez de partir do ponto de vista dos que têm
poder de decisão na administração central, essa abordagem toma como base
de partida a opinião daqueles que serão definitivamente chamados a traduzir a
inovação em fatos. [...]
Disso decorre que as iniciativas só terão chance de êxito caso todas as
instâncias do sistema educacional não se contentem em “aceitar” as
mudanças previstas, mas “se engajem” a dar prosseguimento a tais
mudanças. De fato, é pouco provável que um simples assentimento seja
suficiente para modificar os mecanismos no sentido desejado pela inovação.
Por outro lado, se todas as partes se engajarem, pregarão em toda parte e em
concerto a causa do novo programa.
Vemos que uma coisa é aceitar, outra, se engajar: aquele que se engaja
compreende e medita os princípios que guiarão a inovação, enquanto aquele
que aceita restringe-se a endossar as proposições feitas, condição às vezes
necessária à manutenção de seu emprego ou a uma promoção. (Conselho
Europeu)119
A descentralização
Para os altos funcionários internacionais, a descentralização em escala regional ou
comunal não deve somente permitir a interferência às coletividades territoriais e aos
agentes econômicos. Ela visa fundamentalmente a criar, em escala nacional, um consenso
acerca das reformas pedagógicas descritas anteriormente, e de fato inaceitáveis, nelas
envolvendo toda a sociedade. Ela tende igualmente a fazer da educação um dos temas
ideológicos unificadores da sociedade, por isso mesmo suscetível de utilizações e
desvios bem vastos. Trata-se, portanto, de uma manobra totalitária.
Concebemos então que também aqui haverá “resistências à mudança” e que será
necessário mostrar “habilidade”. Mais uma vez, tal resultado não pode ser obtido sem o
comprometimento das pessoas envolvidas, e a psicologia do engajamento é novamente
chamada a contribuir, mas desta vez na escala da coletividade local:
Sendo complexas e variadas as necessidades educacionais fundamentais,
fazem-se necessárias, a fim de satisfazê-las, estratégias e ações
multissetoriais que estejam integradas no esforço de desenvolvimento global.
Se quisermos que a educação fundamental seja novamente percebida como
responsabilidade da sociedade inteira, muitos parceiros devem associar seus
esforços aos que as autoridades do ensino, os professores e demais
profissionais do ensino fazem para desenvolvê-la. Isso supõe que parceiros
muito variados – família, professores, comunidades locais, empresas privadas
[particularmente aquelas do setor da informação e da comunicação],
organizações governamentais e não governamentais etc. – participem
ativamente da planificação, gestão e avaliação das múltiplas formas de que se
reveste a educação fundamental. (Declaração mundial)120
Eis alguns extratos do relatório final de um colóquio de alto nível organizado pela
Unesco em Portugal que tratam da descentralização:
O Colóquio trouxe à luz a necessidade de uma educação
“multidimensional” que leve em consideração todos os aspectos do indivíduo
em seu ambiente e não se limite somente ao inculcamento das competências
cognitivas. Assegurar o sucesso de todos significa antes transformar o
espírito dos sistemas de ensino que privilegiam a competição e seleção e
então mudar os objetivos e critérios da avaliação dos alunos para evitar que
um fracasso no exame conduza à exclusão social.
A conclusão essencial desse relatório está na afirmação da necessidade
de estratégias globais e interssetoriais que, sozinhas, permitam articular entre
si as diferentes ações dos poderes públicos e envolver a coletividade inteira. A
educação de todos não poderia ser senão um empreendimento de todos. Um
tratamento do fracasso escolar pela abordagem unicamente pedagógica é
insuficiente; convém coordenar ação educativa e ação social. (Unesco)121
Na administração local das municipalidades (Portugal conta 275
conselhos reunindo numerosas comunas), uma equipe de animação colocada
junto ao Presidente da municipalidade assegura, em ligação com todos os
agentes da coletividade, a execução concreta das ações. Essa equipe
pluridisciplinar, dirigida por um coordenador eleito, compreende, além de
numerosos educadores-animadores pedagógicos (todos professores eleitos por
seus colegas), especialistas em Psicologia, esportes e lazer [e haveria
igualmente muito a dizer sobre os excessos que ocorrem nesses dois últimos
domínios e seu papel na eliminação dos ensinamentos acadêmicos], saúde e
trabalho social, um responsável administrativo, o inspetor da circunscrição e o
representante das associações de pais de alunos. Encarregada de encontrar
para cada caso soluções adaptadas às realidades locais, a equipe municipal é
um poderoso aguilhão da dinamização das escolas. (Unesco)122
A formação interna teve igualmente um grande papel ao longo do
Programa. Os animadores pedagógicos do PIPSE são professores escolhidos
entre seus pares, que receberam formação complementar em domínios tais
como a Língua Portuguesa, a Matemática, a animação e a relação pedagógica,
a dinâmica de grupo, a gestão de projeto ou a Informática. A ação desses
animadores, e a dos psicólogos presentes nas equipes municipais, traduziu-se
num apoio permanente aos professores e no desenvolvimento de práticas de
autoformação contínua, individual ou em grupo, de preferência à prática
tradicional de estágios. Trata-se aqui de um modelo de formação contínua pela
interação entre profissionais, que se distingue dos modelos centralizados
ou inteiramente centrados na contribuição de especialistas. (Unesco)123
Ter-se-á notado o papel dos psicólogos e a confissão cínica relacionada à dinâmica
de grupo que permite exercer o controle social sobre os indivíduos, nesse caso os
professores, por intermédio de seu grupo de pares. Aqui ainda, os “projetos de escola”
franceses, que devem incluir os “parceiros locais da escola”, inspiram-se nessa filosofia.
Descentralização e ensino não cognitivo
Em nosso país, a descentralização é defendida em particular por Louis Legrand,
personalidade que teve influência considerável no sistema educacional francês. A citação
seguinte, extraída de um de seus escritos, revela as ligações profundas e bastante
importantes que existem entre descentralização e ensinos não cognitivos:
Basil Bernstein destaca duas características desse sistema. Em primeiro
lugar, a necessidade de um acordo ideológico entre os parceiros e o caráter
explícito desse acordo [donde a criação dos IUFMS, destinados a assegurar
esse “acordo ideológico” e aprofundá-lo]. No código seriado, a ideologia
também existe, mas permanece implícita. No código integrado, os diferentes
parceiros devem estar de acordo sobre as escolhas de valores explicitamente
definidos. [Seria exagero falar aqui em ditadura ideológica e psicológica?]
Por outro lado, se o código seriado, pelas normas impostas, pode convir
a professores recém-chegados, não ocorre o mesmo com o código integrado.
O funcionamento de um estabelecimento regido por esse código necessita de
um considerável investimento temporal e afetivo, ou seja, de professores mais
bem formados e mais entusiasmados por um ideal [inculcado nos IUFMS].
Em matéria de ensino, a dialética centralização-descentralização tem,
pois, uma importância considerável na medida em que se liga a concepções
muito diferentes da educação e dos valores que esta implementa. Esses
valores podem pertencer à personalidade de base de uma população e ser o
fruto da história. Mas, como destaquei no início deste capítulo, essa escolha
de valor pode se tornar política na medida em que está explicitada e inscrita
num projeto de sociedade. Desse ponto de vista, a centralização em matéria
de educação liga-se a um corpo de doutrinas agrupado em torno de valores
estreitamente ligados. Em primeiro lugar, a unidade nacional traduzindo-se pela
universalidade da lei e das normas que ela veicula. Em segundo lugar, a
justiça, na medida em que se presume que essa ordem aplicada a todos cria
as condições de uma igualdade de oportunidades. O código seriado, com seus
programas aplicáveis em qualquer lugar e seus exames impessoais válidos no
conjunto do território nacional, emerge como a garantia de tal justiça. Liga-se
enfim, e a contrário, ao valor do indivíduo, na medida em que essa justiça
impessoal leva à competição, classificação segundo o mérito e desse mesmo
modo à justificação da seleção. Essa ordem finalmente funda no nível do
direito o ‘elitismo republicano’, produto do mérito individual e da justiça.
Acrescentemos ainda a importância associada ao saber como instrumento de
libertação do homem e penhor do progresso coletivo.
Por oposição, a descentralização liga-se durante a maior parte do tempo
a outros valores, e privilegia o funcionamento em código integrado. Em
primeiro lugar, a vivência relacional e a convivência. O que importa aqui não é
um saber abstrato e universal e a competição pela excelência individual; mas
um saber na vida em comum e partindo do reconhecimento positivo da
diversidade. A tolerância intelectual do código seriado, que geralmente não é
senão uma fachada que esconde o caráter imperativo da “razão”, cede aqui o
primeiro lugar a uma tolerância afetiva que põe em primeiro plano as
qualidades “do coração”. É por isso que a descentralização em matéria de
educação liga-se a uma outra sensibilidade relativa à ‘justiça’. Esta, sempre
presente, não é mais impessoal. Leva em conta as condições sociais da
aprendizagem; é sensível às ‘deficiência sociais’, procura compensá-las com
técnicas de apoio que não são somente intelectuais, mas também afetivas e
nas quais a heterogeneidade dos grupos não é senão um aspecto.
É por isso que a escola nessas condições deve abrir-se ao meio e à
família, primeiro lugar de socialização. O professor não é mais o
representante de uma disciplina: é também o ‘tutor’, o auxílio afetivo à
disposição, laço vivente entre a família e a escola.
Compreende-se então por que a escolha de uma política educacional em
matéria de centralização ou de descentralização liga-se estreitamente à
ideologia conforme foi dito no capítulo II.124
Alguns terão julgado as considerações precedentes demasiado teóricas, e fadadas
ao fracasso as técnicas que elas preconizam. É preciso também insistir no fato de que os
procedimentos das instituições internacionais descritos anteriormente são fruto de muitos
decênios de trabalho e de que foram longamente testados e aperfeiçoados por equipes de
psicólogos, pedagogos e especialistas em ciências humanas. São o resultado de um
“progresso científico”, também aplicado com sucesso no campo da administração de
empresas. Seria então de todo ilusório esquivar-se do problema fechando os olhos,
querendo acreditar que não darão os resultados previstos. A título de exemplo,
assinalemos que as técnicas de descentralização foram experimentadas na China e em
Portugal, onde verdadeiramente revolucionaram o sistema educacional.
As técnicas anteriormente descritas, fruto da cooperação pedagógica mundial, são
difundidas por instituições internacionais. São veiculadas na França por dirigentes da
Educação nacional, pelos IUFM, INRP, CNDP, CRDP e pelos profissionais de Ciências da
Educação. Se o sistema francês viesse a ser descentralizado, conforme está em questão,
as técnicas seriam então naturalmente adotadas no conjunto do território sem que
ninguém se lhes pudesse opor. Importa convencer-se também de que o problema subsiste,
certamente de modo menos intenso, no sistema centralizado atual.
Se a análise acima pode parecer um tanto quanto surpreendente, com a maior
parte dos temas evocados não tendo sido ainda objeto de debate público, é contudo
confirmada explicitamente por Antoine Prost, autor do relatório ao ministro da Educação
sobre Os liceus e seus estudos125 e antigo conselheiro do sr. Rocard, que escreveu
recentemente:126 “É preciso descentralizar, certamente, mas de modo mais radical
ainda: no nível das escolas, e não no das regiões. É o único modo de permitir que a
instituição escolar resolva a questão pedagógica”. Vindo de um socialista expert em
matéria de Educação, que sabia, ao escrever essas linhas, que seu partido perderia o
poder, uma confissão de tais dimensões merece ser longamente meditada.
109 Tratado da União Europeia, assinado a 7 de Fevereiro de 1992 na cidade
holandesa de Maastricht. Considera-se ‘países terceiros’ aqueles que não são membros da
União Europeia – N do T.
110 IUFM – Instituto Universitário de Formação de Mestres.
111 INRP – Instituto Nacional de Pesquisa Pedagógica.
112 CNDP – Centro Nacional de Documentação Pedagógica.
113 CRDP – Centro Regional de Documentação Pedagógica.
114 G. Faucon, Guida de l’instituteur e du professeur d’école, Paris, Centre régional
de documentation pédagogique de Nantes, Hachette, 1991, p. 10.
115 Bulletin officiel du ministère de l’Éducation national de 4, 18 e 25 de junho de
1992 e 16 de julho de 1992.
116 Projet nº 8 du CDCC, L’innovation dans l’enseignement primaire, Rapport final,
Strasbourg, Conseil de l’Europe, 1988, p.54 [CDCC (88) 13 et DCES/EGT (87) 23]. Rapport
publié sans réserve sur les opinions exposées par ses auteurs et qui reflète – un accord
sur chaque point important et sur les options présentées de l’ensemble des membres du
groupe de projet (p. 2). Sublinhado no texto.
117 Chin et al., General strategies in affecting changes in human systems, in W.
Bennis et al. (editors), The planning of change, New York, Holt, 1969.
118 32e séminaire d’enseignants du Conseil de l’Europe, Donaueschingen, 23-28 juin
1986, Le rôle du chef d’établissement dans l’innovation à l’école primaire, Strasbourg,
Conseil de l’Europe, 1987, p. 13. Rapport publié sans réserve sur les opinions exposées par
ses auteurs [DECS/EGT (86) 72-F].
119 L’innovation dans l’enseignement primaire, Op. cit., p. 44 sq. Sublinhado no
texto.
120 WCEFA, Declaração mundial sobre a educação para todos, Op. cit., Quadro de
ação, Art. 11, p. 5. Destacamos.
121 Colóquio Réussir à l’école, Op. cit., Unesco, p. 3.
122 Ibid., p. 19. Destacamos.
123 Ibid., p. 23. Destacamos.
124 L. Legrand, Les politiques de l’éducation, Paris, PUF, 1988, p. 62.
125 A. Prost, Les lycées et leurs études. Au seuil du XXIe siècle, Paris, ministère
de l’Education nationale, Service information, 1983.
126La Revue des deux Mondes, Set. 92, p. 20. Negrito nosso.
CAPÍTULO X
A AVALIAÇÃO E A INFORMATIZAÇÃO
DO SISTEMA EDUCACIONAL MUNDIAL
Com o ensino se “aperfeiçoando”, a avaliação dos estudantes deve ser igualmente
modificada. Em detrimento do acadêmico e do cognitivo, o ensino torna-se desde já
“multidimensional” e incumbido, por isso mesmo, de todos os componentes da
personalidade: ético, afetivo, social, político, estético, psicológico... Estes são os domínios
que precisam ser prioritariamente contemplados pelas políticas de avaliação
internacionais planificadas em escala mundial. Assim, nos Estados Unidos, já se avalia o
civismo das crianças. Também a França está resolutamente engajada nesse sentido, e,
assim, dentre as disposições relativas aos alunos às quais os professores tiveram de dar
cumprimento, pela primeira vez, em 1992, encontram-se: “Assumir responsabilidades nos
níveis da classe e da escola”, “Conhecer diversos aspectos do patrimônio cultural, a
existência de outras civilizações e de outras culturas”,127 “Afirmar sua escolhas e seus
gostos estéticos: explicitá-los e partilhá-los”, “Identificar alguns dos grandes problemas do
mundo, mostrar-se sensível a essas questões”.128
Mas, além da legítima inquietação que semelhante iniciativa pode suscitar, não se
pode esquecer que a avaliação visa fundamentalmente a interiorizar os valores, as atitudes
e os comportamentos desejados pelos governantes:
Será interessante examinar o conteúdo e os termos dos indicadores de
performance à medida que eles se propagam de um sistema de ensino a
outro. Os professores ensinarão para responder às exigências do sistema de
avaliação e os alunos, conformemente, aprenderão. Assim, é de importância
primordial que os dispositivos de avaliação, de acompanhamento e de controle
público do funcionamento do sistema reflitam plenamente as reformas dos
programas e da pedagogia que se deseja implementar. (OCDE)129
Os Estados Unidos
Exporemos inicialmente a situação do sistema educacional norte-americano, que
está, no que concerne a essa reforma, alguns anos à nossa frente. Trata-se, convém
insistir, de fatos provados, bem estabelecidos, e não de projetos:
◆ Um número crescente, e já significativo, de alunos do primário são submetidos
a testes psicológicos destinados a determinar tanto seus perfis psicológicos como suas
disposições psicológicas.
◆ Esses testes permitem, da mesma forma, determinar a disposição dos pais,
refletidas por aquelas percebidas nas crianças. Permitem também, mediante a comparação
entre o início e o fim do ano escolar, avaliar a influência dos professores.
◆ Conforme os resultados que apresentem em tais testes, os alunos são assim
submetidos a “cursos” especiais, baseados em livros e filmes concebidos por psicólogos e
destinados a modificar seu comportamento de acordo com as técnicas elaboradas pelos
behavioristas. O behaviorismo é uma escola de Psicologia que concebe o homem como um
tipo de máquina, à qual basta introduzir os inputs corretos – em particular a educação –
para obter os “corretos” outputs. Tais cursos especiais não são senão manipulação
psicológica, de resto nociva, destinada a “desencorajar a transmissão de certas atitudes
aprendidas com os pais”.130 Trata-se, portanto, de utilizar “a educação como instrumento
para condicionar a vontade do povo”.131
◆ Mencionemos de passagem que, segundo as teorias behavioristas, o nível
escolar desejado deve ser o da “competência mínima”. Isso se traduz, de fato, numa baixa
catastrófica do nível escolar: após essas reformas, o número de iletrados norteamericanos
passou de 18 a 25 milhões em poucos anos. Desde então, o governo não mais
forneceu estatísticas...
◆ Os resultados dos testes psicológicos estão alocados numa única base de
dados informatizada que concentra todas as informações referentes aos Estados Unidos.
◆ Os organismos norte-americanos envolvidos tencionam ligar essa base de
dados a outras similares existentes no mundo. As organizações internacionais não opõem,
naturalmente, qualquer obstáculo a isso.
◆ Tudo isso foi feito sem que o povo norte-americano fosse informado e só foi
descoberto de modo fortuito.
As organizações internacionais
A política norte-americana de avaliação e de informatização faz parte de um
processo mundial. Assim, já em 1982, podia-se ler em uma publicação “preparada para o
Gabinete Internacional de Educação” da Unesco:
No domínio afetivo, não se dispõe ainda [1982] de uma taxonomia
satisfatória. Na maior parte das pesquisas, só se retém afinal o que diz
respeito às atitudes, enquanto a avaliação destas permanece via de regra
bastante rudimentar. Os importantes trabalhos de J. Raven sobre o assunto
não produziram ecos profundos.
Quanto ao domínio psicomotor, a situação é ainda menos satisfatória.
Surpreende ainda mais o fato de que existam trabalhos parciais de grande
precisão mas que, até onde sabemos, jamais foram coordenados ou
articulados a fim de formar o esperado instrumento tanto da avaliação quanto
da construção de currículos [...] [Veremos ainda que desde então essa lacuna
foi preenchida.]
Uma nova tendência [1982] de pesquisa em matéria de aquisições
mínimas é exemplificada pelos trabalhos de J. Raven, que, pela primeira vez,
parece-nos, levanta o problema das chaves do saber-ser ou, se preferir, da
aprendizagem essencial no domínio afetivo. [...]
Stufflebeam distingue sete domínios primários [nos quais se deve
proceder à avaliação]: intelectual, afetivo, psíquico, moral, estético,
profissional e social; ele se posiciona claramente, assim, no nível dos valores.
[...]
Por competências entendem-se os conhecimentos, os saberes, os saberser
ou, de modo mais geral, os comportamentos dos quais o estudante deve
adquirir o domínio. Essas competências são definidas a partir de uma
concepção explícita do papel a cumprir [behaviorismo]; elas são avaliadas em
termos que permitem a avaliação dos comportamentos do estudante em
relação a competências determinadas. [...]
Há também divergências quanto à dimensão dos módulos [nos quais o
ensino deve estar submetido à avaliação]. Ora, a dimensão dos módulos
representa um aspecto capital em um sistema que busca universalizar-se, no
interior de um sistema ou de um subsistema educativo particular, a princípio,
e, depois, entre sistemas regionais, nacionais, e mesmo, a seguir,
internacionais. [...]
Uma vez que toda pesquisa científica comporta uma avaliação,
quantitativa e/ou qualitativa, não deve causar surpresa que tal domínio [o da
avaliação] se beneficie de modo especial do crescente desenvolvimento da
pesquisa em Educação em geral, bem como das imensas possibilidades
abertas pela informática. [...]
Assinalemos, por fim, que o primeiro banco internacional de questões é
atualmente implementado pela Associação Internacional para a Avaliação do
Rendimento Escolar (IEA). [...]
Os testes sob medida: rumo à individualização dos testes
Esse novo passo adiante, de uma importância considerável, é tornado
possível graças à existência de bancos de questões e pelo acelerado
desenvolvimento da informática.
O princípio geral é o seguinte: um indivíduo entra em interação com um
banco de questões por meio de um terminal; seu nível aproximativo de
aptidões e de conhecimentos é avaliado por um teste de entrada. [...]
Segundo Carroll, o teste sob medida não traz progresso significativo
para a avaliação das aptidões intelectuais. Com acerto, ele nota “que o
procedimento é há tempos utilizado em testes individuais como a escala de
Binet”.132
Por outro lado, fica cada vez mais evidente que essa técnica pode ser de
muito proveito para a prática educacional, sobretudo para:
– a avaliação formativa (diagnóstica);
– a avaliação somativa;
– a construção praticamente instantânea, pelos mestres, de testes
adaptados às suas lições em um dado momento e para determinados
alunos;
– a autoavaliação. [...]
[Vimos que a avaliação formativa – da qual o autor nos dá uma definição
restrita, definição que a denominação mesma contradiz – e a autoavaliação
constituem poderosos meios de interiorização de valores e atitudes.]
De 1966 a 1973, uma vistoria realizada em seis disciplinas e atividades
(leitura, inglês ou francês como segunda língua, ciências, civismo, análise de
textos) envolveu 22 países e reuniu 150 milhões de informações. [...]
Além disso, a experiência operacional adquirida em matéria de vistorias
normativas e a constituição, em diversos países, de equipes especializadas na
matéria, abriram caminho à “pilotagem” (monitoring) sistemática dos
sistemas escolares. Trata-se de organizar vistorias permanentes, ou
recorrentes, permitindo estabelecer em que medida os objetivos colocados são
atingidos e, assim, obter uma avaliação permanente, ou quase permanente,
das necessidades.
Atualmente, a realização mais completa nesse âmbito é a da National
Assessment of Educational Progress (NAEP), nos Estados Unidos. A NAEP
empreendeu uma pesquisa nacional centrada nos conhecimentos, nas
habilidades e nas atitudes dos jovens norte-americanos nos principais
domínios da aprendizagem escolar. [...]
Concretamente falando, os objetivos buscados são: [...]
3. Realizar sondagens particulares acerca de certos aspectos das
performances escolares. Por exemplo, no que concerne à compreensão da
leitura ou às habilidades a serem adquiridas para fazer face às necessidades
vitais essenciais, para estudar os hábitos de consumo etc.
4. Reunir dados, analisá-los e redigir a seu propósito relatórios
destinados a vários públicos [...]
5. Encorajar e prestar assistência às pesquisas que se apoiam nos dados
reunidos pelo NAEP, esperando que as conclusões desses estudos venham a
ser úteis tanto àqueles que devem tomar decisões em matéria de educação
como aos executores [...]
Atualmente, a avaliação é feita [pelo NAEP] para quatro faixas etárias (9
anos, 13 anos, 17 anos e adultos entre 26 e 35 anos). Até o momento, dez
disciplinas e atividades foram objeto de avaliação: as ciências, a expressão
escrita, o civismo, a compreensão da leitura, a Literatura, a Música, a
História, a Geografia, as matemáticas, a formação profissional e a educação
artística [...]
Na psicometria propriamente dita, os progressos são também
expressivos. [...] Mais concretamente, e em comparação com as antigas
técnicas de correção de respostas adivinhadas, o sistema de autoavaliação dos
graus de certeza da resposta dada, levado ao estado operacional por Leclercq,
fornece não somente uma solução satisfatória a um problema há anos mal
resolvido, mas abre, ainda, perspectivas educativas consideráveis. (Unesco)133
Os extratos precedentes constam de uma publicação de 1982. De lá para cá, a
informatização do sistema educacional mundial foi planificada. O Plano de ação adotado
durante a Conferência mundial sobre a educação para todos – ainda que evitando
cuidadosamente a palavra informatização – estipula que:
Em todos os países, os serviços e procedimentos técnicos de coleta, de
processamento e de análise de dados sobre educação fundamental podem ser
melhorados a bem de sua utilidade. [...] Desde que se compreende a
importância dessas aquisições [de dados], faz-se necessário elaborar sistemas
que possibilitem a avaliação da performance de cada um dos estudantes e
dos mecanismos de formação, ou aperfeiçoar, visando a esse fim, os
sistemas já existentes. Os dados provenientes da avaliação dos processos e
resultados deveriam constituir a base de um sistema integrado de
informação sobre a gestão da educação fundamental. (Declaração mundial)134
Segundo o glossário fornecido pelo Documento de referência da Conferência
mundial sobre a educação para todos,135 “educação básica se refere à educação cujo
objetivo é suprir as necessidades educacionais básicas”. Por outro lado, de acordo com o
mesmo glossário, “Necessidades educacionais básicas referem-se aos conhecimentos,
competências, atitudes e valores necessários à sobrevivência das pessoas, à melhoria de
sua qualidade de vida e à continuidade de seu aprendizado”.
O leitor haverá notado que não se trata de simples estatísticas – que, referindo-se
à psicologia dos alunos, seriam já bastante inquietantes –, mas sim de dados individuais
relativos “a cada um dos estudantes”. Esses dados devem ser reunidos em escala
internacional:
São numerosas as atividades que os países podem exercer
conjuntamente, em apoio aos esforços que realizam em âmbito nacional para
implementar seus planos de ação em favor da educação básica. [...] Essa
forma de colaboração regional [quer dizer, continental, segundo a terminologia
das instituições internacionais] parece particularmente apropriada aos seis
domínios [...] (II) o aperfeiçoamento da coleta e da análise de informação.
(Declaração mundial)136
Para que esses projetos não terminem como letra morta, o Plano de ação prevê
uma colaboração internacional destinada a ajudar os países mais pobres:
O apoio internacional poderia prover a formação e o desenvolvimento
institucional nos domínios da coleta de dados, da análise e da pesquisa; da
inovação tecnológica e dos métodos pedagógicos. Tal apoio poderia ainda
facilitar a implementação de sistemas de gestão informatizados. (Declaração
mundial)137
As instituições multilaterais e bilaterais deveriam se empenhar em
apoiar [financeiramente], desde que instadas pelos governos, as iniciativas de
caráter prioritário empreendidas, principalmente em nível nacional [...], em
setores como os seguintes:
a) Elaboração de planos de ação multissetoriais, nacionais e
infranacionais, ou a atualização dos planos já existentes [...] desde os inícios
dos anos noventa. Muitos países em desenvolvimento têm necessidade tanto
de ajuda financeira quanto de auxílio técnico, particularmente para a coleta e a
análise de dados e para a organização de consultas internas. (Declaração
mundial)138
A coleta de dados tem, portanto, a mais alta prioridade (a) em um plano de oito
itens (a-h).
A Europa
A Europa seguiu docilmente essas recomendações, adotando uma “Resolução do
Conselho e dos Ministros de Educação reunidos no Conselho [de] 25 de novembro de 1991,
a respeito da pesquisa e das estatísticas em matéria de educação na Comunidade
Europeia”:
O Conselho das Comunidades Europeias e os ministros de Educação,
reunidos no Conselho:
constatam a necessidade de uma base sólida de informações, de
estatísticas adequadas e de pesquisas comparativas, com o fim de aprofundar
a cooperação em matéria de educação que foi por eles instituída mediante a
Resolução de 9 de fevereiro de 1976;
considerando que, para tal fim, seria indicado:
[...]
- intensificar os esforços para estabelecer estatísticas adequadas e
comparáveis sobre educação no âmbito da Comunidade Europeia;
[...]
considerando a pesquisa em matéria educação já realizada não somente
em nível nacional, mas também as que foram empreendidas pelas
organizações internacionais e europeias, tanto governamentais como não
governamentais:
estimulam uma difusão mais vasta, na Europa, dos resultados dos
projetos de pesquisa no nível de Estados-membros e no nível da Comunidade,
assim como entre as organizações internacionais e as europeias, sobre temas
de interesse para a política de educação dos Estados e destacando os
domínios prioritários para a cooperação;
[...]
estimulam a continuidade e o aperfeiçoamento da atuação dos serviços
da Comissão, especialmente da Eurostat, em estreita colaboração com os
serviços dos Estados-membros, da Organização de Cooperação e de
Desenvolvimento Econômicos (OCDE) e da Organização das Nações Unidas
para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Onde a existência de
estatísticas permitisse, essa ação poderia ser consagrada particularmente ao
estudo dos indicadores e à coleta de estatísticas que destaquem os domínios
prioritários para a cooperação em matéria de educação. (Grifo nosso)
As pesquisas aludidas pela resolução supracitada são decerto menos perigosas que
a posse dos dados individuais. Não obstante, é preciso considerar que elas constituem um
primeiro passo rumo ao estabelecimento de arquivos individualizados e que, além disso,
elas permitem determinar a média dos perfis psicológicos e diferenciar a pedagogia de
acordo com as regiões, os liceus e mesmo as classes. A pedagogia centrada no aluno não
é senão a última etapa.
A rede europeia de bancos de dados sobre a educação é igualmente mencionada:
A cooperação europeia entre operadores de bancos de dados sobre a
educação e a formação foi consolidada pela criação, em 1988, da Associação
Europeia para o Desenvolvimento dos Bancos de Dados sobre a Formação e a
Educação (EUDAT), relacionando entre si os operadores de bancos de dados
nacionais. Em 1989, um sistema experimental de acesso direto a diversos
bancos nacionais de dados consagrados à formação (cursos e qualificação) foi
criado mediante o aporte de um CD-ROM, intitulado “ROMEO”. Ele foi objeto
de uma demonstração durante a conferência sobre “A Europa e suas
competências”. (Comissão das Comunidades Europeias)139
A Comissão das Comunidades Europeias “apoia o desenvolvimento”140 desse
sistema.
A França
Isso tudo pode parecer meio irreal; a mesma situação, contudo, está em vias de
se estabelecer na França, com a introdução, não de estatísticas, mas de dados individuais.
Vejamos, como exemplo, o que indica uma publicação oficial do Ministério da Educação
Nacional, prefaciado por Lionel Jospin, ao final do ano de 1991:
- avaliações de iniciativa local ou regional efetuadas sobretudo a partir
de bancos de dados elaborados nos níveis acadêmico e departamental, se
existentes, ou daqueles bancos que atingem progressivamente o nível nacional
mediante grupos de trabalho que associam os responsáveis, os pesquisadores
e os executores.141
Assim, desde o fim do ano escolar de 1991-1992, os professores tiveram de
responder a 160 questões para cada aluno. Entre essas questões, a primeiras diziam
respeito às atitudes da criança, ou seja, à sua psicologia e à sua inserção social,
avaliadas de acordo com critérios socialistas e globalistas. Notemos, além disso, que o
acento das novas diretivas para o ensino primário recai fortemente sobre a socialização
das crianças. Eis algumas das informações que os professores devem atualmente fornecer
por cada aluno do terceiro ciclo do primário. Constatar-se-á a importância dada ao ensino
não cognitivo e multidimensional e à socialização:
Competências transversais [não cognitivas e multidimensionais]:
Aquisição da autonomia; aprendizado da vida social;
– conhecer e exercer as responsabilidades pessoais;
– enunciar regras;
– identificar alguns importantes problemas mundiais; manifestar
sensibilidade em vista de tais problemas;
– demonstrar criatividade, inventividade, curiosidade;
– afirmar suas escolhas e seus gostos estéticos: explicitá-los e
compartilhá-los;
[...]
Competências de ordem disciplinar:
[...]
Educação Cívica;
– conhecer os deveres e direitos das crianças, do homem e do cidadão;
– conhecer o funcionamento de uma associação, de uma cooperativa;
– conhecer as instituições políticas da França e uma instituição
internacional;
– conhecer um importante serviço público;
[...]
Educação artística;
– educação musical;
[...]
– analisar e codificar os elementos sonoros;
– realizar produções pessoais ou coletivas;
[...]
Artes plásticas
[...]
– encontrar regras de organização
[...]
– conhecer aspectos do conjunto de procedimentos do artista;
– expor seu próprio conjunto de procedimentos;
Educação física e esportiva [...]
Assumir diferentes papéis:
– de organizador;
– de jogador;
– de árbitro;
Conhecer a aplicar as regras:
– de prática esportiva;
– de atividades de expressão.142
Lembremos que tais ensinamentos não-cognitivos e sociais se fazem em
detrimento da formação intelectual, com vinte por cento das pessoas abaixo dos 25 anos
não alcançando o domínio da leitura e da escrita. Assim, as gerações futuras são privadas
dos instrumentos intelectuais que lhes teriam permitido dominar, sem dificuldades, e em
seu devido tempo, as questões abordadas no ensino não cognitivo. Além disso, elas
poderiam tê-lo realizado com toda independência de espírito, livres para formar elas
mesmas uma opinião sem sofrer uma doutrinação precoce. Pois nem todos têm,
necessariamente, a mesma opinião que o governo sobre os “importantes problemas do
mundo”, os “direitos da criança”, as “instituições internacionais” e o movimento
associativo, para não falar no domínio artístico, onde a passagem de Jack Lang está viva
na lembrança de todos. Estamos, com isso, autorizados a pensar que, ultrapassado certo
limite, já não se trata da socialização das crianças, mas sim da coletivização dos
espíritos?
Aplicando a política preconizada pela Declaração Mundial sobre a Educação para
Todos, o Ministério da Educação Nacional143 implementou igualmente a avaliação do
alunos no segundo ano do liceu:
Domínios avaliados:
– as disciplinas concernentes ao ingresso no segundo ano – geral ou
tecnológico – do liceu são: Francês, Matemática, História-geografia, 1ª língua
viva (limitada ao francês e ao alemão em 1992). [Ibid.]
– é importante que um trabalho de explicação seja conduzido junto [aos
alunos] e que eles encontrem aí uma forma de autoavaliação, contribuindo,
assim, a lhes fazer tomar consciência de suas forças e de suas fragilidades,
bem como a incitá-los a uma primeira reflexão sobre seu projeto de
formação; [Ibid.]
– o tratamento dos dados oriundos da avaliação será realizado pelos
próprios professores: para esse efeito, prevê-se o desenvolvimento de um
sistema informatizado colocado à disposição de cada liceu, o que permitirá a
construção de “perfis” dos alunos (no que tange às competências avaliadas),
“perfis” de classe, a constituição de grupos de alunos com afinidade de perfil,
e permitirá, enfim, para a escola, dispor do conjunto das divisões do segundo
ano. [Ibid.]
– os resultados permanecerão de conhecimento somente da classe e da
escola; tanto em nível nacional como acadêmico, não ocorrerá o fornecimento
dessas informações (exaustivamente ou por amostragem). [Ibid.]
Um ano mais tarde, em março de 1993,144 foram publicados dois textos relativos
à avaliação em CE2145 e 6e146, bem como sobre a “ampliação do banco de instrumentos
de avaliação para o primário e o ciclo de observação dos colégios”. Nota-se aí uma
evolução significativa:
Como se havia previsto inicialmente, decidiu-se, em concordância com a
direção das escolas, estender a elaboração desses instrumentos de avaliação a
outras disciplinas (História, Geografia, educação cívica, Biologia [à Bioética,
enfim], ciências físicas e Tecnologia. (Grifo nosso)
Enfim, uma vez que o êxito da operação depende de condições técnicas –
principalmente das disposições implementadas a fim de favorecer sua
utilização pelos professores –, a facilitação do cálculo continuará sendo
auxiliada mediante a disposição do programa CASIMIR 2, aperfeiçoado em
alguns detalhes, de acordo com as observações e propostas realizadas por vós
a esse respeito. Isso deve permitir a coleta, o processamento, a análise e o
aproveitamento dos resultados em Língua Francesa e Matemática, de modo
separado ou conjunto, a fim de efetuar cruzamentos entre as duas disciplinas.
(Ibid.)
Esses resultados serão estabelecidos à base de amostragens
representativas em nível nacional das escolas que possuem alunos nos
níveis considerados. A realização das amostragens será realizada ao final de
setembro; será conveniente, portanto, que o conjunto dos estabelecimentos
públicos e privados, ligados a vossa academia, sejam informados sobre a
necessidade de conservar os cadernos dos alunos após a restituição dos
resultados às famílias; em tempo conveniente, serão dadas instruções às
instituições de pesquisa para o envio dos cadernos ao DEP; tais cadernos
deverão ser restituídos aos estabelecimentos após a coleta informatizada de
dados. (Ibid. – grifo nosso)
Assim, pôde-se notar a introdução, em um espaço de um ano, da avaliação em
Educação Cívica e o “fornecimento sistemático de informações” em nível nacional.
Naturalmente, as etapas ulteriores da generalização do sistema são a sua extensão ao
ensino não cognitivo, já iniciada mediante a avaliação no domínio da educação cívica, e a
constituição de uma rede informatizada abrangendo todos os computadores dos
estabelecimentos escolares. Além disso, busca-se desenvolver a avaliação, até torná-la
permanente. Ora, sabe-se que ela constitui – sobretudo na forma da autoavaliação – uma
técnica poderosa de interiorização de valores e de atitudes.
[As ferramentas de avaliação] deveriam também permitir o
desenvolvimento, em nosso sistema educacional, além das operações pontuais
de avaliação das aquisições dos alunos ao início dos anos referentes ao CE2,
ao 6e e ao 2e,147 de uma verdadeira cultura de avaliação. A culminância desse
processo poderia decerto evitar a repetição sob sua forma atual de operações
pontuais. (Ibid.)
Para permitir a implementação de um modo de utilização mais flexível e
capaz de progressos, temos estudado a possibilidade de colocar esses
instrumentos à disposição dos professores, valendo-nos das novas tecnologias.
(Ibid.)
Nascidas da vontade comum da Direção de Avaliação e Prospectiva e da
direção das Escolas, esses instrumentos são destinados a auxiliar os
professores no acompanhamento do aprendizado de seus alunos, bem como a
esclarecer suas escolhas e suas estratégias pedagógicas. (Ibid.)
Um outro documento, publicado em 1992, trazia o seguinte em seu prefácio,
assinado pelo diretor de Avaliação e Prospectiva e pelo diretor das escolas:
A disponibilização, aos professores, dos instrumentos de avaliação é uma
das missões confiadas à Direção de Avaliação e Prospectiva.
Ela tem por objetivo o desenvolvimento em nosso sistema educacional,
além das operações pontuais sobre as aquisições dos alunos, de uma
verdadeira cultura de avaliação.
A criação de um banco de instrumentos de avaliação, destinado aos
profissionais das escolas maternais [!] e elementares, inscreve-se nessa
política.
Limitada por enquanto em seu campo, visto que tem visado somente à
Língua Francesa e à Matemática, e porque não pretende ser exaustiva em seu
modo de apresentação, uma vez que se acha impresso sobre o suporte
tradicional do papel, esse banco, não obstante, é visto desde já como uma útil
ferramenta, ainda que esteja, é claro, em aperfeiçoamento.148
Em termos de psicologia social, tal modo de proceder equivale a um “pé na porta”.
Por outro lado, concebe-se sem dificuldade que a avaliação do ensino de nível maternal não
dirá respeito aos ensinos acadêmicos, mas principalmente à Psicologia, à afetividade e à
inserção social das crianças.
A introdução de uma cultura de avaliação permanente – que permitirá que se evite
a repetição de operações pontuais –, de um modo de utilização flexível e evolutivo dos
instrumentos de avaliação, não pode se dar sem que os estabelecimentos tenham acesso
a “novas tecnologias”. Com essa estrutura já informatizada, obviamente se deverá dispor
as informações em redes a fim de permitir o seu acesso a partir de um único banco
informatizado de instrumentos de avaliação. Atualmente, a cada professor é atribuído, pelo
Ministério da Educação, um número de identificação, secreto, que deve servir de chave
informática para o acesso a essa rede.149 Pode-se temer, com razão, que os dados das
avaliações, estendidos ao ensino não cognitivo, como a educação cívica, sejam em breve
acessíveis mediante essa rede informática única. Bastará, então, apenas estocá-los em
um banco de dados único, tal como já acontece nos Estados Unidos. O absurdo de recolher
por duas vezes os dados, primeiro em nível dos estabelecimentos escolares e, depois, em
nível nacional, a partir de amostragens, não poderia subsistir por muito tempo. Os
especialistas em Ciências Humanas e Sociais terão em mãos um temível instrumento para
o estudo e a modificação dos comportamentos. Um artigo publicado por Le Figaro (7 de
outubro de 1992), intitulado Os estudantes registrados em fichas, só pode fazer crescer
esse receio:
Fichar os estudantes do colégio e os do liceu é uma das preocupações de
Jack Lang, que, para esse fim, lançou uma vasta operação experimental em
diversos estabelecimentos de ensino. Mas o extremado ministro da Educação,
no calor da ação, parece não haver respeitado a legislação em vigor. [...]
Oficialmente, o objetivo alegado pelo ministro, a fim de justificar a
instituição desses arquivos informatizados centralizados, seria a realização
de estatísticas demográficas e sociais que poderiam, em seguida, por
exemplo, ser cruzados com os resultados escolares [particularmente, não
cognitivos]. [...]
O Ministério da Educação Nacional, nesse episódio, dá mostras de uma
curiosa obstinação: “O processo ingressou em sua última etapa”, escreveu um
reitor a seus diretores e supervisores. “Trata-se de um ato essencial, e se faz
necessário que todos os estabelecimentos produzam, em tempo útil, os dados
referentes à escolaridade, de acordo com a forma requerida”. Outro há que
chega ao ponto de ameaçar seus subordinados: “Os senhores não procederam
ao trabalho de construção da base de dados dos alunos... Assim, ficam
obrigados a produzi-la no prazo mais breve: o desatendimento dessa demanda
causará um tal dano à academia inteira, que hei de me ver na obrigação de
entregar um relatório a respeito à administração central, apesar das
consequências que daí resultarão para os senhores mesmos”. [...]
O fichamento progride, as informações confidenciais circulam, enquanto
a CNIL (Commission informatique et libertés) ainda não recebeu o dossier
completo da demanda de homologação do Ministério da Educação Nacional. [...]
Em poucas palavras, a experiência atual não tem base legal alguma. [...] Quais
são as verdadeiras razões, imperiosas e secretas, desse fichamento de
alunos? (Grifo nosso)
Como acreditar, vendo o segredo que os envolve, que os testes precedentes –
inclusive Educação Cívica – não deverão aproximar-se dessas bases de dados? Como
acreditar que os testes psicológicos, desde já difundidos pelo Instituto Nacional da
Pesquisa Pedagógica, não serão logo informatizados e utilizados em grande escala? Um
desses testes, publicado em uma obra dedicada à avaliação formativa,150 é interpretado
segundo o diagrama de análise apresentado mais adiante.
Lembremos que, se permitem determinar o perfil psicológico do indivíduo, os
testes psicológicos permitem igualmente a sua modificação e a interiorização, pelo sujeito
avaliado, dos valores desejados:
Não é gratuitamente que muitos dirigentes gostam de evocar o caráter
“formador” da avaliação, e também não é sem motivo que o apelo aos
profissionais da psicologia personalista (uso de testes...) tem sido
imperioso.151
A página 521 e seguintes da obra de Peretti, já citada, que se referem a outro
teste psicológico, contêm alguns parágrafos que convém citar:
O método das configurações é uma extensão do método Q. Do ponto de
vista teórico, como o método Q. de Stephenson, ele centra-se na subjetividade
do indivíduo. Entretanto, ela se fundamenta sobre uma ampliação da noção de
eu (self), indo além da concepção mais fenomênica (Stephenson-Rogers). O
método das configurações visa, por um lado, as partes conscientes do eu, as
diferentes imagens do eu, mas atenta igualmente às partes mais ou menos
inconscientes que constituem as tensões do eu, suas ansiedades e os
mecanismos de defesa em face delas. [...]
O método das configurações tem por objetivo, nesse caso, desvendar
tanto o eu do indivíduo como o seu eu grupal. Isso fornece a possibilidade de
apreender, com um mesmo instrumento, numerosas variáveis ligadas ao eu de
um indivíduo bem como a entidade grupal manifestada pelas forças dinâmicas
do grupo. [...]
O instrumento M.I.P.G. pode ser utilizado:
1) para avaliar a mudança produzida por uma intervenção em um grupo.
[...]
O método das configurações é aqui aplicado à pesquisa do eu dos
professores. Tem por objetivo evidenciar e compreender o eu profissional dos
professores enquanto entidade multidimensional, incluídas aí as relações
conscientes e as inconscientes do indivíduo, consigo mesmo, e aquelas com
outras pessoas que intervêm em seu ambiente profissional. [...]
O instrumento M.I.S.P.E. pode ser utilizado:
[...]
4) Para avaliar as mudanças ocorridas ao longo de um período de
formação dos professores. Os testes são realizados no início e no final da
formação.
5) Para avaliar, em Psicopatologia, os efeitos de uma terapia a que
esteja submetido o professor.
127 Ministério da Educação Nacional, Direção das escolas, livreto escolar individual
concernente ao Cycle des apprentissages fondamentaux, cycle 2, 1992.
128 Ministério da Educação Nacional, Direção das escolas, livreto escolar individual
concernente ao Cycle des apprentissages fondamentaux, cycle 3, 1992.
129 OCDE/CERI, La réforme des programmes, Op. cit., p. 55.
130 Beverly K. Eakman, Educating for the New World Order, Portland, Oregon, USA,
Halcyon House, 1991, p. 31.
131 Ibid., p. 224.
132 J.C. Carroll, Measurement of intellectual abilities, In P. Suppes ed., Impact of
research in education, Washington D.C., National Academy of Education, 1978, p. 47.
133 De Landsheere, La recherché expérimentale en éducation, Paris, Unesco,
Delachaux & Niestlé, 1982, p. 53-73; destacamos. A Unesco renova no prefácio “seus
vívidos agradecimentos à Gilbert De Landsheere pela cortesia com a qual ele respondeu à
(seu) pedido, assegurando, de qualquer maneira, o lançamento desta nova coleção” e
assinala, como de hábito, que “as ideias e as opiniões expressas nesta obra são as do
autor e não refletem necessariamente os pontos de vista da Unesco” (p. 4) que financia,
no entanto, a difusão daquelas.
134 WCEFA, Déclaration mondiale sur l’éducation pour tous, Op. cit., Cadre
d’action, p. 11; destacamos.
135 Op. cit.
136 Ibid., p. 17.
137 Ibid., p. 19.
138 Ibid., p. 20.
139Activités de la Commission des communautés européennes dans les domains
de l’éducation, de la formation et de la politique de la jeunesse em 1989, rapportées pour
la Commission des communautés européennes, Task Force ressources humaines,
éducation, formation et jeneusse par l’Unité européenne d’EURYDICE, Bruxelles,
Commission des communautés européennes, Task Force ressources humaines, éducation,
formation et jeneusse, juin 1990. (TFRH/134/91-FR). p. 65.
140 Commission of the European communities, Report on the activities of the
Commission of the European communities in the field of education, training and youth
during 1990 (presented by the Commission), Bruxelles, Commission des communautés
européennes, 24 janvier 1992 [SEC(91) 2409 final], p. 88.
141 Ministère de l’Education nationale, de la jeunesse et des sports, Direction des
écoles, Les cycles à l’école primaire, Paris, Hachette, CNDP, 1991, p. 20.
142 Ministère de l’Education nationale, Direction des écoles, [livret scolaire
individual concernant le] Cycle des approfondissements, cycle 3, 1992.
143 Bulletin official du ministère de l’Education nationale (BO) du 23 janvier 1992,
p. 10 e 11.
144 BO du 11 mars 1993, p. 876 sq.
145 Corresponde à 3ª série do Ensino Fundamental.
146 6ª série do Ensino Fundamental.
147 1º ano do Ensino Médio (antigo secundário).
148 Ministère de l’ Education nationale, Direction de l’évaluation et de la
prospective, Direction des écoles, Aide à l’évaluation des élèves, Cycle des apprentissages
premiers, 1992. Destacamos. Ver, igualmente, o BO de 16 jun. 1994 que relatou a avaliação
no primário em matéria de “educação da pessoa e do cidadão”.
149 BO du 10 septembre 1992; BO du 13 mai 1993, p. 1.609.
150 Sob direção de André de Peretti, Recuil d’ instruments et de processus
d’évaluation formative, Paris, INPR, 1980, Tomo I, p. 194. Onde se encontrará muitos
outros testes psicológicos.
151 Beauvois et Joule, Soumission et ideologies, Op. cit., p. 176.
CAPÍTULO XI
A EUROPA
A OCDE,
o Conselho da Europa e a Unesco não dispõem, no momento, de nenhum
poder executivo. Veremos que, não obstante, sua influência é real e que ela se exerce
sobre as instâncias governamentais de nosso país. A Europa sofre também essa
influência:
Resolução do Conselho e dos Ministros da Educação reunidos no seio do
Conselho de 14 de Dezembro de 1989
Relativa à luta contra o insucesso escolar
O Conselho e os Ministros da Educação aqui reunidos,
[...]
conscientes de que o desenvolvimento da dimensão multicultural nos
sistemas educacionais permitiria lutar mais eficazmente contra o insucesso
escolar;
[...]
Adotam a seguinte resolução:
1. Os Estados-membros, no âmbito das respectivas políticas
educacionais e das suas estruturas institucionais, esforçar-se-ão por combater
o insucesso escolar de forma intensiva e por orientar as suas ações numa das
direções a seguir especificadas:
[...]
1.3. Reforçar a escolaridade pré-primária, que contribui, especialmente
entre as crianças dos meios desfavorecidos, para uma melhor escolaridade
posterior [socialização precoce];
1.4. Adaptar o funcionamento do sistema escolar, nomeadamente
através:
– da renovação dos conteúdos, materiais de apoio e métodos de ensino e
de avaliação,
– da aplicação de pedagogias diferenciadas,
[...]
– da redução das rupturas estruturais ou funcionais, mediante:
• a descompartimentação e a interdisciplinaridade [ensino
não-cognitivo];
• a continuidade educativa de um ano para o outro, de um
ciclo para o seguinte [pedagogia centrada no aluno];
– da aplicação de modalidades de ajuda individualizadas (apoio,
assistência tutorial) [idem];
– da diversificação das formas de distinção, de nível equivalente, no final
da escolaridade obrigatória ou de um curso secundário e dos percursos que
levam à obtenção das certidões correspondentes,
– do trabalho em equipe dos profissionais do ensino,
– de uma melhor formação inicial e contínua desses profissionais do
ensino, bem como de apoio de caráter geral para o desempenho da sua
missão,
[...]
– do desenvolvimento do ensino das línguas e culturas das crianças de
origem comunitária ou estrangeira;
1.5. Reforçar:
– a tomada em consideração, por parte da escola, do contexto cultural,
social e econômico,
– a abertura da escola à comunidade externa,
– a articulação com os meios socioprofissionais;
1.6. Organizar a complementaridade entre ação escolar e ação circumescolar,
tendo especialmente em conta os fatores que condicionam os
resultados escolares (saúde, família, desportos, lazer);
[...]
1.10. Implementar ou reforçar uma formação específica das pessoas
envolvidas, quer pertençam ou não ao sistema educacional.152
As citações que se seguirão provêm de um texto153 originado da própria Comissão
das Comunidades Europeias. Ele é destinado “ao Conselho e [aos] ministros de Educação
[que] solicitaram à Comissão, o quanto antes possível, a apresentação de proposições para
uma nova etapa de cooperação concreta em nível comunitário” (p. 1). Esse texto, portanto,
reflete com fidelidade o parecer da Comissão e nos esclarece acerca de sua política
educacional.
A Comissão se posiciona desde a perspectiva de uma integração europeia dos
sistemas educativos, prelúdio de uma integração mundial:
Em certo número de Estados-membros, novas orientações ou reformas
do ensino secundário, algumas em grande escala, estão em preparação ou já
em vigor para fazer face aos desafios dos anos noventa. Dentro de uma
perspectiva de construção da Europa, é crucial que essas reformas ocorram
mediante uma articulação com a evolução de outras partes da Comunidade.
Uma intensificação da troca de experiências e da interação entre os Estadosmembros
faz-se indispensável para uma mútua tomada de consciência acerca
dos impactos que suas novas políticas podem ter sobre a Comunidade e sobre
o futuro dos jovens e para contribuir na elaboração de um quadro comum
europeu, no qual devem evoluir as políticas nacionais. (p.3)
O objetivo perseguido é, naturalmente, a “mudança”:
A adaptação da educação à evolução do contexto econômico e social e
das necessidades individuais vê-se travada pela falta de capacidade dos
sistemas para gerar e estimular a inovação e a mudança. A gestão, o
financiamento e o estímulo à inovação no sistema escolar devem tornar-se
prioridade política de primeira ordem. As condições para a mudança devem ser
criadas, e mesmo acompanhadas de um reconhecimento concreto, para
encorajar – no terreno dos estabelecimentos escolares e entre os professores
– o comprometimento com a inovação e o aprendizado de como geri-la. Um
modo importante de alcançar tal objetivo consiste em garantir maior
autonomia [descentralização] e flexibilidade, a fim de se capacitar os
estabelecimentos a responder à evolução das necessidades. É indispensável
sensibilizar e formar os diretores e professores a fim de os motivar e
preparar para a tomada de tal iniciativa e para a responsabilidade por um
trabalho assim inovador. Importa ainda reforçar o papel que os inspetores,
conselheiros pedagógicos e outros serviços podem desempenhar para o
estímulo e apoio desse processo nas escolas. As ações de tipo plano-piloto ou
zona de inovação educacional deveriam ser utilizadas de modo mais
sistemático, como instrumentos de desenvolvimento e de aplicação da
inovação. (p. 3 sq.)
A formação continuada dos professores tem um lugar importante nesse projeto:
A mudança nos estabelecimentos escolares passa pelos professores, e a
formação continuada tem um papel-chave na preparação deles. Em geral, a
formação continuada propõe aos professores que aprofundem a sua disciplina
ou a sua didática, mas raramente lhes oferece a possibilidade de desenvolver,
sobre o plano individual ou no nível do seu estabelecimento, as capacidades
necessárias para gerir a inovação e consolidar novas responsabilidades. Na
maior parte dos sistemas educacionais, a participação em atividades de
formação continuada é facultativa [!] para os professores e oferecida por
organismos externos ao estabelecimento escolar. A ação comunitária nesse
domínio deveria, por conseguinte, estimular e reforçar medidas que
permitissem:
– partir das necessidades e dos objetivos de desenvolvimento do
estabelecimento escolar para a ação de formação, apoiando-se sobre o próprio
estabelecimento e envolvendo, quanto possível, o conjunto dos profissionais de
ensino;
– incentivar os estabelecimentos escolares a uma autoanálise, visando
ao conhecimento de suas necessidades de formação, e atribuir-lhes a
responsabilidade de implementar os seus próprios programas de formação,
valorizando, nesse âmbito, o papel da ação inovadora como experiência
formadora [dinâmica de grupo em escala institucional]; […]
– invocar sistematicamente o potencial de formação oferecido pela
cooperação entre os estabelecimentos escolares e o seu ambiente
socioeconômico, por exemplo, no âmbito de estágios, de visitas ou de
destacamentos junto a empresas [engajamento da coletividade e ensinos não
cognitivos];
– estimular novas formas de concertação entre os professores de um
mesmo estabelecimento para introduzir uma maior flexibilidade na aplicação
dos programas e para explorar todo o potencial de ação inovadora (p. 6 sq.).
Aqui, a “inovação” pedagógica visa ainda a aumentar o campo dos
ensinos não cognitivos:
A futura ação comunitária neste domínio deveria, portanto, incentivar um
recurso maior e mais diversificado a novas ações, do tipo da experimentada
no Programa Transição, para permitir uma melhor resposta, no ensino
secundário, às necessidades dos jovens em situação de fracasso escolar ou
com dificuldades. Nesta perspectiva, conviria:
– reexaminar as disposições que orientam os programas escolares e os
métodos pedagógicos, e adaptá-las de maneira diferenciada, de acordo com o
nível dos alunos;
– utilizar mais sistematicamente as situações pedagógicas
extraescolares para reforçar a motivação e desenvolver as capacidades
pessoais dos jovens;
– aperfeiçoar os métodos de avaliação e de certificação a fim de validar
um leque mais diversificado de aquisições, de experiências e de capacidades
independentemente do nível dos alunos (p. 9).
Nesta perspectiva, a Comissão propõe que o Programa a estabelecer,
com base no sucesso do segundo Programa Transição, constitua também um
plano [...] de apoio às intervenções destinadas a desenvolver a cooperação
intercultural nas zonas de população pluriétnicas (p. 1 sq.).
Por último, queremos mencionar estas palavras que tomam todo o seu sentido na
perspectiva destes ensinos multidimensionais, um verdadeiro controle psicológico dos
indivíduos:
Observa-se igualmente uma expectativa crescente perante as escolas,
no sentido de que preservem o contato com os alunos e assegurem uma
continuidade aos que abandonam a escola ao final da escolaridade obrigatória e
arriscam não avançar em sua formação.
A ação comunitária deveria, por conseguinte, ajudar os Estados-membros
a apoiar os estabelecimentos escolares a fim de lhes permitir […]
implementar um dispositivo de acompanhamento dos jovens que arriscam não
prosseguir sua formação para além da escolaridade obrigatória (p. 10).
O Parlamento Europeu não tem nenhum poder legislativo real. Os documentos que
publica, porém, são reveladores da influência das concepções psicopedagógicas sobre as
instituições europeias. A resolução154 que vamos agora citar – de 15 de maio de 1992 –
tem sido adotada recentemente:
Resolução […]
O Parlamento europeu,
[…]
considerando que cada cidadão deve, ao longo de sua vida, ter a
possibilidade de obter uma educação e de adquirir uma formação profissional
necessária para desenvolver-se tanto na sua vida profissional como na sua
vida privada,
[…]
considerando que o interesse dos pais é capital para o desenvolvimento
escolar da criança, a política em matéria de educação e os sistemas de ensino
devem essencialmente visar a implicar os pais na educação das suas crianças
[para reduzir a sua “resistência à mudança”].
[…]
solicita à Comissão e os Estados-membros, tendo em conta o
desenvolvimento do fenômeno multicultural na Europa comunitária, o
prosseguimento e a intensificação de sua ação em prol da integração dos
migrantes (crianças e adolescentes) no âmbito do ensino e na sociedade em
geral, respeitando igualmente a sua língua de origem e a sua diversidade
cultural [esta contradição aparente deve ser aumentada];
[…]
recomenda que se promova a ideia da escola europeia que fornece um
ensino bilíngue ou multilíngue dado por professores que ensinam na sua língua
materna;
solicita que os professores e formadores em todos os níveis sejam
devidamente preparados e instruídos sobre o plano didático e participem
regularmente de reciclagens […]; que é urgente reconsiderar cuidadosamente
a responsabilidade dos professores e/ou formadores relativamente às gerações
mais jovens;
[…]
solicita que a Comissão, quando da preparação deste programa
[destinado “a incorporar a dimensão comunitária no ensino”], considere melhor
o parecer das diferentes categorias de pessoas envolvidas (pais, alunos,
professores), criando, assim, no domínio da educação, uma estrutura
consultiva europeia que deverá compor-se de representantes dos grupos
interessados [engajamento];
[…]
Países terceiros, organizações internacionais particularmente Conselho da
Europa
[…]
entende conveniente reforçar as suas relações com o Conselho da Europa
em matéria de educação.
A exposição dos motivos155 desta resolução é igualmente reveladora da influência
exercida pelas concepções psicopedagógicas sobre o Parlamento europeu:
Exposição de motivos
[…]
Na nossa sociedade, consideram-se as diversas funções do ensino
(transmissão da cultura, formação profissional, adaptação, formação da
personalidade, integração das jovens gerações nas estruturas sociais e/ou
interpretação crítica e criativa do fenômeno social).
[…]
O ensino é, contudo, muito mais! Se o considerarmos numa perspectiva
mais vasta, devemos reconhecer-lhe outras funções ainda, notadamente o
desenvolvimento máximo da personalidade (conhecimentos, comportamentos,
aptidões) das crianças e dos jovens e a reunião dos elementos necessários
para apreender e avaliar, de maneira crítica, o meio de vida sociocultural.
[…]
Os manuais e materiais escolares constituem elementos importantes do
ensino e da formação. Não obstante, o papel dos professores é mais
importante ainda: eles utilizam e interpretam os dados; estruturam os
desenvolvimentos e tendências da sociedade. Também é necessário
reconhecer, na formação dos professores, uma prioridade ao âmbito europeu.
Internacionalização do ensino
[…] [o autor menciona inicialmente a cooperação com os Estados
Unidos, cujo sistema educacional está em péssimo estado, e com os países do
Leste].
Desde 1990, existe – em matéria de ensino, formação profissional e
formação dos jovens – acordos de cooperação com diferentes organizações
internacionais, notadamente o Conselho da Europa, a UNESCO, a OCDE e a
OIT. A necessidade de assinar tais acordos tornou-se evidente quando se
compreendeu que o ensino e a formação assumiriam uma importância capital
no contexto dos recentes desenvolvimentos na Europa Central e Oriental. Essa
cooperação se resume, essencialmente, a trocas de informações, bem como à
participação em reuniões e conferências.
152 Conseil des Communautés européennes, Secrétariat general, Textes relatifs à
la politique européenne de l’éducation, Supplément à la troisième édition (décembre 1989),
Luxembourg, 1990, p. 117 sq. (JO C 27 – 6.1.1990).
153 Commission des Communautées européennes, Programme de travail de la
Commission visant à promouvoir l’innovation dans l’enseignement secondaire dans la
Communauté européenne, (Communication de la Commission), Bruxelles, 14 octobre 1988
[COM(88) 545 final].
154 Journal official des Communautés européennes du 15.6.92, n. C 150/366, 13,
Résolution A-3-0139/92.
155 Parlement européen, Document de séance, Rapport de la commission de la
culture, de la jeunesse, de l’éducation et des médias sur La politique de l’éducation et de la
formation dans la perspective de 1993 de Mme Anna M.A. Hermans, Strasbourg, Parlement
européen, 27 mars 1993, p. 13 sq. (A3-0139/92).
CAPÍTULO XII
A REVOLUÇÃO PEDAGÓGICA NA FRANÇA
Destaca-se com toda a clareza, a partir dos relatórios desses países
[realizados em resposta a um questionário da OCDE/CERI], que no ensino
primário, tanto ou mais que no ensino secundário, assiste-se a uma
reavaliação e a uma reestruturação profunda dos programas. Uma revolução
silenciosa. Estaria em vias de ocorrer uma revolução silenciosa e discreta no
ensino primário? A uma questão como essa, deve-se responder de modo
prudente. A maior parte das informações e das discussões acerca dos
conteúdos dos estudos que se encontram nos relatórios nacionais –
compreendendo-se aí o debate geral a respeito do tronco comum das matérias
fundamentais – se refere implicitamente ao estudo secundário. Entretanto,
tudo parece indicar – sobretudo na França, onde o Ministério da Educação
preparou um plano prospectivo, e na Itália, onde essa tarefa foi confiada a
uma equipe de especialistas – que espíritos inventivos ocupam-se ativamente
do programa da escola primária. (OCDE, 1990)156
E certamente o senhor Lang é um espírito inventivo. Mas o amor da justiça obriga
a dizer que o terreno havia sido preparado desde longa data. Mostramos já a influência
exercida pelas organizações internacionais sobre a concepção francesa acerca da formação
de mestres (IUFM), da descentralização, da avaliação etc. Particularmente na França, há
quem trabalhe com profundidade nesse sentido, como Louis Legrand, o qual, lembremonos,
teve enorme influência sobre o sistema educacional francês. A aceitação das práticas
psicopedagógicas em nosso país deve-lhe muito:
Doravante, o problema deve colocar-se, assim, em três níveis:
1) O primeiro é ético: que homens desejamos formar e para que tipo de
sociedade? É possível um acordo em nível nacional sobre esse ponto?
2) O segundo é psicológico: quais são as necessidades e as capacidades
dos alunos ante os objetivos assim definidos?
3) O terceiro é técnico: quais são as situações e os processos de
aprendizagem diferenciados mais aptos para conduzir as diversas
individualidades à consecução dos objetivos gerais esperados?157
É nessa perspectiva [do surgimento de novas ou de renovadas
concepções] que se faz indispensável o esboço do que poderia ser uma nova
doutrina pedagógica, com a esperança de que ela possa, o quanto antes
possível, tornar-se um princípio, admitido consensualmente, de unificação
mental. Essa atitude bem poderia parecer “doutrinária”, com todas as
significações que essa palavra comporta na mentalidade atual. Entretanto, ela
se faz indispensável, se, como eu acima já havia afirmado, não há ensino
possível nem instrução escolar sem um conteúdo de valores e de
afetividade.158
Lembremo-nos de certos princípios de base que nos devem iluminar:
1) Não há educação possível sem valor e sem afetividade.
2) Todo valor e toda afetividade que ela contém estão ligadas a uma
visão de mundo e às finalidades pedagógicas que dela decorrem.
A possibilidade de uma laicidade positiva, motor de uma educação
nacional, está, portanto, ligada à possibilidade de uma aceitação comum de
valores e à aceitação comum das finalidades. [...] O pensamento marxista
clássico não está longe, ainda hoje, dessa visão profética [na qual a escola
atualiza “o que deveria necessariamente advir do desenvolvimento espontâneo
da humanidade”], a julgar-se pelos últimos livros de Georges Snyders. Mas os
marxistas não estão no poder, e a maior parte do corpo social recusa, por ora,
essa eventualidade. E então?159
As reformas propostas pelo senhor Legrand estão muito próximas daquelas
defendidas em publicações internacionais:
É aqui que reencontramos a convergência entre os métodos ativos e os
objetivos que acima descrevi. Nunca a “nova educação” foi apenas um conjunto
de técnicas. Fora, antes, uma filosofia. A filosofia que hoje proponho à escola
democrática é de inspiração idêntica, talvez de idêntico conteúdo.
Em primeiro lugar, seu objetivo é a socialização positiva dos educandos.
Nesse sentido, a educação deve consistir primordialmente em ação, e somente
de modo secundário deve ser conhecimento.160
Convém habituar [o aluno] a viver em comunidade, numa situação de
respeito recíproco e de cooperação. Convém habituá-lo a respeitar o ambiente
que condiciona nossa sobrevivência.
Assim, o mestre de amanhã deverá ele mesmo estar convencido desses
valores fundamentais. A formação intelectual que ele receba será então
tomada em perspectiva ética, em conformidade com esses valores. O que
significa que o essencial da sua formação será a criação de novas atitudes
mediante a ação, e não somente pela recepção de novos discursos.161
É dentro desse quadro mental que se deve situar a introdução da renovação
pedagógica nos liceus e nos ciclos de educação primária.
A renovação pedagógica, os módulos e os ciclos
A renovação pedagógica dos liceus, empreendida a partir de 1992,162 articula-se
principalmente em torno aos temas seguintes:
- ensino não cognitivo e multidimensional;163
- diferentes concepções do saber;164
- socialização dos alunos;165
- avaliação formativa;166
- autoavaliação;167
- pedagogia centrada no educando;168
- pedagogia por objetivos169 [behaviorismo e engajamento];
- pedagogia ativa;170
- formação contínua de professores.171
Os módulos, capital inovação pedagógica da reforma, constituem um quadro
extremamente flexível, perfeitamente adaptado à pedagogia centrada no aluno, à sua
socialização e ao ensino não cognitivo em geral:
O ensino profissionalizante:
- Os professores aí envolvidos [nos módulos] poderão propor aos alunos
outros modos de aprendizagem172 dos conteúdos do ensino, e trabalhar com
eles de forma mais individualizada, diferenciando sua pedagogia segundo o
caso. [...]
As horas de ensino por módulos devem-se tornar um tempo privilegiado,
mas não exclusivo, de exploração e de tratamento dos resultados das
avaliações sucessivas desde a perspectiva de uma integração destas ao
processo de aprendizagem [o que nos permite prever que elas devem
efetivamente fazer-se permanentes, e não somente como condição de
ingresso no Ensino Médio]. [...]
A constituição de grupos restritos de alunos com necessidades afins
facilita o reconhecimento de cada um, o que possibilita convidar o aluno, bem
como possibilita ajudá-los, se necessário, a construir progressivamente seu
projeto pessoal, oferecendo-lhe a possibilidade de se expressar, favorecendo,
assim, a socialização mediante trabalhos em grupo. [...]
Poder-se-á oferecer aos alunos sessões diversificadas [...]: atividades
que facilitem a percepção do espaço e do tempo.173
Classe de segundo ano do liceu técnico e geral: [...]
[Os módulos devem] desenvolver capacidades de autoavaliação. [...]
A implementação do ensino modular é responsabilidade de todos: sua
organização quanto a emprego do tempo, gestão de grupos etc. deve ser
objeto de uma reflexão nascida do mútuo entendimento e que deve encontrar
seu meio natural na elaboração do projeto de estabelecimento escolar.
O ensino modular deve ser uma resposta às necessidades observadas
pelos professores. Tal tipo de ensino poderá servir às mais variadas
iniciativas: projeto elaborado em comum por diversos professores de uma
mesma disciplina ou por professores de disciplinas diversas pertencentes a
uma mesma classe, funcionamento paralelo de várias classes do
estabelecimento de ensino.174
É fácil reconhecer nessas últimas linhas a utilização das técnicas de engajamento
e de dinâmica de grupo, com o objetivo de vencer as “resistências à mudança” por parte
dos professores, conforme tratamos já em detalhes no capítulo sobre a descentralização.
De acordo com o Le Figaro,175 “Desde já [...] a reforma vem gerando um recuo
dramático no ensino da cultura geral no primeiro ano do ensino médio”. Visando a
introduzir o ensino não cognitivo e os métodos pedagógicos ativos nas salas de aula, ela
limita muito severamente as opções e o tempo dedicado à cultura clássica. Enfim,
mencionemos que os universitários, ainda que, por ora, em menor medida, são do mesmo
modo atingidos pela revolução pedagógica.
A introdução dos ciclos nas escolas primárias visa aos mesmos objetivos. De fato,
os ciclos permitem ao professor acompanhar seus alunos durante muitos anos; favorecem
a continuidade exigida pela pedagogia centrada no educando. Ademais, não sendo separadas
as classes ao fim de cada ano escolar, fica reforçada a socialização dos alunos. O
opúsculo intitulado Les cycles à l’école primaire,176 publicado em 1991 pela Direção das
escolas do Ministério da Educação Nacional, e editado pelo CNDP, é precedido por um
prefácio de Lionel Jospin, então ministro da Educação. Particularmente, ele afirma que:
“Colocar a criança no centro do sistema educacional é sobretudo tomá-la tal como ela é,
com suas capacidades e deficiências”.177
É também, e principalmente, praticar a pedagogia centrada no aluno. A citada obra
desenvolve o pensamento do ministro:
Para atingir esse objetivo [80% de sucesso no bac178], a nova política
se propõe, conforme estipula a Lei de orientação em seu artigo primeiro, a
“organizar o serviço público de educação (...) em função dos alunos” e a
promover, conforme dispõe o artigo 4º, um “ensino adaptado a sua
diversidade, mediante uma continuidade no processo educativo no decurso de
cada ciclo e ao longo de toda a formação escolar”. Trata-se de colocar, de
modo mais resoluto, a criança no coração do sistema educacional e de
permitir uma adaptação mais fina de acordo com cada caso. Assim, a
consideração da heterogeneidade dos alunos redefine a ação do professor,
tanto em relação àquele que aprende quanto ao que ele deve aprender.
Essa análise conduz naturalmente aos princípios que fundamentam a
nova política para a escola:
- introduzir uma maior flexibilidade no exercício de aprendizagem dos
alunos e na organização do trabalho dos professores, a fim de garantir uma
melhor continuidade dessa aprendizagem; [...]
Enfim, essa análise evidencia a necessidade de mobilizar e de
responsabilizar os atores locais, os únicos capazes de promover essa nova
política e de fazê-la concretizar-se no quadro do projeto da escola.
Garantir a continuidade da aprendizagem
A continuidade da construção e da aquisição de saberes pela criança é
uma das garantias do êxito escolar. A organização em ciclos plurianuais,
definida pela Lei de orientação em seu artigo 4º e pelo decreto relativo à
organização e ao funcionamento das escolas maternais e elementares,
sobretudo em seu artigo 3º, deve permitir a garantia dessa continuidade.179
Conforme o leitor deve ter adivinhado, o ensino não cognitivo não está à margem
dessas diretrizes: “Neste texto, três tipos de competências foram distinguidas: –
competências transversais, relativas às atitudes da criança [...]”:180
As atitudes, os interesses partilhados, as ações em comum e as
discussões, as emoções experimentadas coletivamente possuem um
inigualável valor de socialização e de formação; elas fundamentam o
sentimento de pertença a uma comunidade.181
Muitos pais queixam-se da crescente influência que os grupos de pares exercem
sobre seus filhos. Esse fenômeno não é espontâneo. É o resultado de uma política de
socialização deliberada, que visa a fazer do grupo de pares o grupo de referência. Não é de
espantar que, cada vez mais, torna-se difícil transmitir valores às crianças, bem como
uma cultura e uma educação que se diferencie daquela medíocre veiculada pelo grupo. O
controle social efetua-se então pelo grupo de pares, mais receptivo às influências
dominantes do que o seria um indivíduo isolado.182
‘La décennie des mal-appris’ de François Bayrou 183
François Bayrou, ministro da Educação Nacional, expôs suas concepções sobre
educação em uma obra intitulada La décennie des mal-appris,184 publicada em 1990. Antes
de apresentar suas teses, convém situar rapidamente o seu autor, a fim de buscar evitar
equívocos e ideias preconcebidas. O François Bayrou é, antes de tudo, um cristão, e não
hesita em fazer a profissão do seu credo (p. 19). Não causará espanto saber que sua
carreira política se tenha desenrolado no âmbito do CDS,185 partido do qual não se poderia
suspeitar de criptocomunismo ou de ultra-liberalismo. Além disso, o autor é professor de
letras e, como tal, defensor da “cultura de referências” (p. 92 sq.). Apesar disso, porém,
Bayrou retoma teses próximas o bastante daquelas das instituições internacionais para
que possamos nos conformar a elas. Para que não nos compreendam mal: não o
suspeitamos de criptocomunismo ou de qualquer outra tendência inconfessável. Não
suspeitamos que trabalhe em segredo para a destruição ou para a subversão da fé,
objetivo maior do globalismo. Entretanto, nos é forçoso reconhecer que a influência
ideológica das instituições internacionais e das teses revolucionárias estendem-se para
além de suas fronteiras naturais. Não obstante, se nos faz necessário precisar – e o leitor
talvez tenha tomado consciência disso a partir das citações – que as teses pedagógicas
revolucionárias raramente se mostram à luz do dia. Apresentem-se como “melhoramento
do ensino”, “progresso pedagógico”, “autonomia dos professores” e outras fórmulas
sedutoras. Não iremos atribuir a François Bayrou intenções tenebrosas. O pior de que se
pode acusá-lo é de deixar-se influenciar, em certa medida, por teses oriundas de
organizações como a Unesco, que ele cita explicitamente (p. 29), cujas opiniões
revolucionárias têm caráter público.
François Bayrou resume sua visão acerca da reforma do sistema educacional na
seguinte frase:
Tal é, a meus olhos, o triângulo de ouro dessa revolução magistral que
se chama responsabilidade, e, particularmente, responsabilidade pedagógica:
em cada uma das pontas do triângulo estão: a inovação [pedagógica] desejada
e não apenas tolerada, a avaliação sistemática e anual de cada uma das
classes de cada professor, e uma formação contínua que se sustenta sobre os
sucessos constatados.186
Pode-se reconhecer aí três dos principais temas da revolução pedagógica conduzida
pelas instituições internacionais bem como o engajamento dos profissionais, aqui chamado
responsabilização. A reforma proposta por Bayrou deixa entrever igualmente uma
realidade, que diz respeito ao engajamento dos profissionais e que não aparece na citação
acima: a descentralização. Apresentaremos passo a passo suas teses acerca desses
quatro pontos.
A avaliação
François Bayrou é um partidário convicto da avaliação e “ficou muito contente com
a iniciativa de avaliação au cours élémentaire et en classe de sixième” (p. 171).187
Segundo ele, a avaliação deve possibilitar que cada professor consiga avaliar melhor seus
resultados pedagógicos e, assim, aperfeiçoar o seu trabalho (p. 170 sq.). Ele não pretende
com isso exercer qualquer pressão sobre os professores, mas deseja apenas torná-los
responsáveis e neles fazer nascer “um estímulo pessoal, interior” (p. 176). O autor
preocupa-se ainda com os aspectos afetivo, psicológico, relacional, cívico e moral do
ensino e da educação (p. 173), não hesitando em empregar o termo “espiritual”.
Evidentemente, esses aspectos não poderiam ser quantificados. Mas a relação espiritual
entre mestre e aluno estará “desde logo mensurada”, uma vez que “não pode haver relação
espiritual de qualidade sem que a qualidade do trabalho escolar na sala de aula testemunhe
essa relação” (p. 175). Enfim, Bayrou menciona o IEA e o NAEP, de que já tratamos no
capítulo anterior, bem como as campanhas internacionais de avaliação, e parece favorável
a uma participação da França em tais campanhas.
Lembremos que o NAEP avalia, além das matemáticas, tão caras a Bayrou,
também o civismo e as atitudes dos norte-americanos, e que o IEA criou a primeira banca
internacional de questões. Desejamos que François Bayrou compreenda o quanto suas
posições – muito respeitáveis em si mesmas – podem ser deturpadas de modo a integrar
um projeto mundial revolucionário. É pouco provável, por exemplo, que a avaliação possa
furtar-se por muito tempo ao ensino não cognitivo e que ela não sirva para avaliar os
professores. Assim, estes não terão outra alternativa senão inculcar em seus alunos os
valores desejados.
A formação continuada
François Bayrou faz-se também defensor da formação continuada, que ele inscreve
no círculo da qualidade – comparação infeliz, já que o círculo da qualidade consiste numa
técnica manipulatória fundada na dinâmica de grupo e no envolvimento dos profissionais.
Bayrou pretende ainda dispensar o professor de suas atribuições durante duas horas por
semana, a fim de consagrá-las à formação continuada e à avaliação anual.
Naturalmente, uma reforma desse tipo faria todo sentido se as instituições
responsáveis pela formação dos professores não fossem o que de fato são. Mas Bayrou
estaria disposto a se opor firmemente às instituições internacionais, suprimir os IUFMS e
impedir os especialistas em Ciências da Educação de exercer sua função, ainda que tais
ciências eventualmente desaparecessem? Claro está que não se concebe tal reforma
senão movida por uma vontade política profunda e inflexível. Além disso, após a
eliminação das psicopedagogias, será ainda assim imperiosa a necessidade da formação
continuada?
A inovação pedagógica
François Bayrou se opõe “à panaceia pedagógica” (p. 123). Apresentando o exemplo
dos Estados Unidos e do descalabro de seu sistema educacional, ele denuncia os equívocos
de uma formação de professores insuficiente do ponto de vista acadêmico. Somos
obrigados a concordar com ele nesse ponto, se bem que fazendo notar que a
desqualificação do ensino não possa ser atribuída exclusivamente a isso, ao menos no
tocante à escola primária. Mas a impressionante queda do nível escolar nos Estados
Unidos tem ainda uma outra causa: a introdução das psicopedagogias, da “inovação
pedagógica”, em que se verificam os objetivos não cognitivos. Ora, François Bayrou é um
ardente defensor da inovação pedagógica, “desejada, em vez de tolerada” (p. 185). Somente
uma “revolução suave” (p. 111) nas práticas pedagógicas teria permitido evitar a
deterioração do sistema educativo francês. Um “grande avanço didático” (p. 186) é então
desejável, tendo por base a formação continuada. Ora, temos demonstrado, e prova-o a
experiência em todos os países em que as psicopedagogias foram introduzidas, que um
“grande avanço pedagógico” é, tanto no entendimento dos psicopedagogos quanto no dos
fatos, um grande avanço revolucionário, e um grande recuo intelectual. Certamente, há
melhoramentos pedagógicos – secundários – que poderiam ser difundidos. Mas endossar
um movimento de reforma pedagógica equivale a desconsiderar os homens e as
instituições, nacionais e internacionais, que controlam o domínio pedagógico; é fazer
abstração da influência política das instituições internacionais, de sua influência
pedagógica, exercida pelos IUFMS, pelo CNDP etc., e da influência ideológica que exerce a
parafernália intelectual que está na base das psicopedagogias. É lançar-se às goelas do
lobo.
A descentralização
Antes de tudo, lembremos que, no âmbito de nossa análise, descentralização e
desconcentração podem ser equiparadas.
A conveniência da descentralização, para François Bayrou, é evidente (p.138).
Diante do gigantismo do sistema educacional francês, ela constitui o único modo
apropriado de gestão. Entretanto, não haveria como, sem criar graves desequilíbrios entre
as regiões, descentralizar igualmente a contratação de pessoal e a elaboração dos
programas. Assim, somente a gestão de pessoal e de material é prevista. Particularmente,
o papel do diretor da escola deve ser reforçado (p. 136). O projeto de descentralização
provavelmente se inscreve, ainda que Bayrou não o mencione, na perspectiva de uma
“mudança em profundidade” da escola, o que “requer a participação ativa [dos]
professores” (p. 156). Da mesma forma, uma “ampla descentralização” permitiria a toda
sociedade francesa a participação no ensino (p. 191).
Convém repetir que tais projetos não podem ser extraídos do mesmo ambiente no
qual eles se devem inserir. Se eles podem dar excelentes resultados em outras
circunstâncias, não há qualquer razão para pensar que, na situação atual, o ensino não
cognitivo, a doutrinação precoce e a manipulação psicológica deixariam de ser os primeiros
a adentrar o espaço assim aberto.
As ideias de François Bayrou dariam os resultados esperados desde que inexistisse
o elemento antagônico constituído pelo domínio psicopedagógico. Mas os revolucionários se
lançam, há muitas décadas, a trabalhos aprofundados, dos quais seus adversários
geralmente fazem pouco caso. Basta lembrarmo-nos da pouca consideração em que se
têm a psicologia e a sociologia. Na mesma ordem de ideias, é preciso mencionar também
o desprezo que até bem pouco se tinha com relação às instituições internacionais. Esse
desconhecimento, essa ignorância mesma, da estratégia e das técnicas do adversário bem
pode conduzir a erros de análise que acarretam pesadas consequências. Em matéria de
educação, importa considerar que adversários e partidários da revolução não definem da
mesma maneira o papel da escola. Seria então desejável implementar o sistema
educacional que estes últimos conceberam, para mudar os valores, as atitudes e os
comportamentos, a fim de destruir o ensino acadêmico? Não negligenciemos o trabalho
ideológico e pedagógico realizado pela Revolução, com todos os agentes e organizações
dos quais ela se sabe valer.
As primeiras medidas governamentais
Previsivelmente, “François Bayrou” não somente não rejeita a ação empreendida
por seus predecessores, mas, ainda, com relação a vários pontos, aprova os objetivos e os
princípios”,188 e “mesmo Jack Lang declarou-se ‘de acordo sobre o essencial’ com o seu
sucessor”.189 As inovações pedagógicas introduzidas por Jack Lang foram mantidas por
François Bayrou. Ele “aprova o princípio”190 da educação por ciclos que introduz a
pedagogia centrada no aluno. Os módulos, “que funcionam bem”,191 foram mantidos,
contrariamente ao parecer da comissão encarregada dessa questão. Eles proporcionam a
introdução do ensino não cognitivo e da pedagogia centrada no aluno nas escolas de Ensino
Médio, em detrimento dos cursos clássicos. As carreiras tecnológicas e profissionais, que
pouco interessam aos defensores do ensino, foram, assim, as mais prejudicadas pela
“renovação pedagógica”.192 E nem podem esperar qualquer melhoria, uma vez que,
segundo o ministro, “a reforma foi boa”.193 Não se manifestou nenhuma urgência em
fechar os IUFMS, que seria preciso desmantelar – valendo-se da desordem de oposição e
do consenso geral – já nos primeiros dias do mandato de Édouard Balladur. A
informatização persiste; os professores da escola primária são agora gerenciados, cada
um por seu nome, mediante um sistema informatizado que “tem por objetivo [...] o
guiamento nacional e acadêmico”,194 e, acrescentamos, individual. A desconcentração da
gestão de pessoal nas universidades – iniciada por François Fillon, ministro do Ensino
Superior e da Pesquisa – está em curso.195 Esperamos que François Bayrou tome
consciência o quanto antes das razões do apoio, suspeito, de Jack Lang.
156 CERI/OCDE, La réforme des programmes scolaires, Op. cit., p. 57.
157 Louis Legrand, L’école unique: à quelles conditions?, Paris, Scarabée, 1981, p.
73.
158 Ibid., p. 67 sq.
159 Ibid., p. 61.
160 Ibid., p. 97.
161 Ibid., p. 190.
162 Bulletin Officiel du 4 juin 1992. Ver, igualmente, BO de 3 junho 1993.
163 Ibid., p. 1572-1 e 1573-1.
164 Ibid., p. 1576-2.
165 Ibid., p. 1574-1.
166 Ibid., p. 1580-2.
167 Ibid., p. 1576-2.
168 Ibid., p. 1572-1 e 1576-1.
169 Ibid., p. 1573-2 e 1577-1.
170 Ibid., p. 1580-1 e 1587-2.
171 Ibid., p. 1577-2. Ver, igualmente, BO’S de 5 nov. 1992, 28 jan. 1993, 18 mar.
1993 e 15 abr. 1993.
172 Ver a esse respeito Legrand, L’école unique, Op. cit., cap. XI.
173 Nós renunciamos a decifrar essas proposições sibilinas no quadro desta obra.
174 BO 4 jun. 1992, p. 1570 sq.
175 Le Figaro, 9 abr. 1993, p. 11.
176 Ministère de l’Education nationale, de la jeunesse et des sports, Direction des
écoles, Les cycles à l’école primaire, Paris, CNDP, Hachette Ecoles, 1991.
177 Ibid., p. 4.
178 De acordo com o site do Ministère de l’Éducation Nationale francês,
corresponde ao diploma que marca o fim dos estudos secundários e abre acesso ao ensino
superior. Constitui o primeiro estágio no ensino universitário – N. do T.
179 Ibid., p. 11 sq.
180 Ibid., p. 23.
181 Ibid., p. 86.
182 Reconhece-se aqui a proximidade com as idéias de Skinner.
183 A década dos mal-instruídos – N. do T.
184 F. Bayrou, 1990-2000. La decennie des mal-appris, Flammarion, 1990. Poder-se-
á consultar igualmente com proveito o BO de 23 de junho de 1994, que contém, sob a
forma de 155 proposições do Ministro, o Nouveau contrat pour l’ école.
185 Centres des Démocrates Sociaux – N do T.
186 Ibid., p. 185.
187 1º e 6º anos do ensino fundamental, respectivamente – N. do T.
188 Le Monde, 2 maio 1993, p. 13.
189 Le Figaro, 30 abr. 1993, p. 9.
190 Le Monde, 3 maio 1993, p. 13.
191 Le Figaro, 30 abr. 1993, p. 9.
192 BO 4 jun. 1992, p. 1570 sq.
193 Libération, 30 abr. 1993, p. 22.
194 BO 27 maio 1993, p. 1713-1.
195 Le Monde, 16 maio 1993, p. 16.
CAPÍTULO XIII
A SOCIEDADE DUAL
O baixo nível
Os capítulos precedentes mostraram de modo satisfatório que não é de causar
espanto a queda impressionante do nível escolar. Há mais ainda: os próprios sectários da
revolução pedagógica reconhecem que ela persegue objetivos políticos e sociais e que não
busca, de modo algum, aprimorar a formação intelectual dos alunos. Inicialmente,
apresentamos uma citação que, tirada de uma obra de Louis Legrand, concerne
diretamente à França. Após isso, seguir-se-ão alguns elogios e apologias da ignorância.
Finalmente, porém, não é que haja uma oposição fundamental entre as
técnicas dos métodos ativos, recomendados oficialmente, e os objetivos
latentes da escola tais como os exigem o sistema de seleção e tais como os
professores, prisioneiros do sistema, os perseguem. Pois, se se preconizam os
métodos ativos como técnicas capazes de melhor atingir os objetivos
intelectuais clássicos, a partir dos quais se procede à seleção, está-se
tomando a via errada. A pedagogia formal impositiva é a única que convém
primeiramente a esse tipo de seleção. A ineficácia das medidas estruturais de
democratização causa espanto. Contudo, pretende-se mensurar essa
democratização à base de testes de conhecimentos ou de nível geral (QI) que
reproduzem e sistematizam os resultados esperados da pedagogia clássica. O
problema não é, portanto, técnico, é um problema político e filosófico.196
Escrito que faz eco àqueles de um dos “grandes” pedagogos norte-americanos do
início do século, como se vê pelo trecho que se segue:
Muitos homens viveram, morreram e se fizeram célebres, marcaram
época até, sem haver possuído jamais qualquer familiaridade com os escritos.
O saber que os iletrados adquirem é, enfim, provavelmente mais pessoal,
mais direto, mais próximo do seu meio e, provavelmente, para uma grande
parte, mais prático. Além disso, eles evitam fatigar a vista tanto quanto se
resguardam da excitação mental e, ainda, são eles provavelmente mais ativos
e menos sedentários. Ademais, é possível – a despeito dos estigmas com que
nossa época instruída marcou essa incapacidade – que aqueles que dela
padecem, não somente levem uma vida útil, feliz e virtuosa, mas, que, além
disso, sejam verdadeiramente cultos. Os iletrados estão livres de certas
tentações, como a das leituras ineptas e viciosas. Talvez sejamos inclinados a
atribuir demasiada importância às capacidades e às disciplinas necessárias ao
domínio dessa arte.197
O autor dessas linhas surpreendentes, escritas em 1911, é o professor G.S. Hall,
que criou o primeiro laboratório de Psicologia dos Estados Unidos. Ele exerceu uma
influência considerável sobre a Psicologia e a Pedagogia norte-americana e, fato digno de
nota, foi o professor de John Dewey, o pedagogo norte-americano que esteve à frente da
“revolução pedagógica” em seus inícios. Notemos, contudo, que essa confissão brutal nada
acrescenta, em verdade, à série de apologias dos métodos de ensino não cognitivo.
John Dewey pode ser legitimamente considerado o pai da Pedagogia moderna, e
não há como subestimar a influência que ele exerceu sobre ela. Para que se faça uma
ideia dessa influência, lembremos que um de seus alunos, Elwood P. Cubberly, tornou-se
chefe do departamento de educação de Stanford, que acolheu William C. Carr, um dos
fundadores da Unesco. (Pode-se estimar melhor a importância dessas filiações intelectuais
quando se sabe com que cuidado os estudantes são selecionados em certas disciplinas,
nas quais eles são submetidos, aliás, a uma doutrinação da qual a formação dada nos
IUFMS não é senão uma pálida cópia). Os discípulos de Dewey criaram cátedras de
“Ciências” da Educação por todo o território dos Estados Unidos. Desde aí, associando-se
aos ramos soviéticos, partiram para a conquista do mundo e das instituições
internacionais. A influência de Dewey sobre a Pedagogia moderna e sua orientação
ideológica foi, portanto, determinante, e é preciso lembrar-se disso ao se ler as
espantosas citações adiante. Socialista furiosamente contrário a todo individualismo,
Dewey assanha-se contra a inteligência:
A última resistência do isolamento antissocial e oligárquico é a
perpetuação da noção puramente individual da inteligência.198
Assim, para Dewey, a socialização deve-se fazer acompanhar pela destruição da
cultura, da instrução e da inteligência, noção “puramente individual”. Portanto, não poderia
haver socialização sem a depreciação do pensamento individual e da instrução.
Uma vez que o saber seja considerado como proveniente do interior dos
indivíduos [!] e que nesse âmbito se desenvolva, os laços que unem a vida
mental de cada um à dos seus semelhantes são ignorados e negados. Uma
vez que o componente social das operações mentais é negado, faz-se difícil
encontrar os laços que devem unir um indivíduo a seus semelhantes. O
individualismo moral provém da separação consciente de diferentes entidades
vivas; ele finca suas raízes na concepção de consciência segundo a qual cada
pessoa é um continente isolado, absolutamente privado, intrinsecamente
independente das ideias, desejos e objetivos de outrem.199
A trágica deficiência das escolas de hoje em dia [1899] reside no fato de
elas buscarem formar os futuros membros de uma sociedade na qual o
espírito social é eminentemente defeituoso.
[...]
A simples acumulação de fatos e de saberes é uma atividade de tal
modo individual que ela tende muito naturalmente a se transformar em
egoísmo. Não há qualquer justificação social para a simples aquisição de
ciência, ela não fornece qualquer ganho social nítido.
Algumas páginas após, Dewey acrescenta:
A introdução das ocupações ativas, do estudo da natureza, da ciência
elementar, da Arte, da História; a relegação das disciplinas puramente
simbólicas e formais a uma posição secundária; a modificação da atmosfera
moral das escolas... não são simples acidentes, mas são fatos necessários à
evolução social em seu conjunto. Falta somente religar todos esses fatores,
dar-lhes sua inteira significação e entregar a posse completa de nossas
escolas, sem concessões, às ideias e aos ideais daí decorrentes.200
A antiga Psicologia considerava o espírito como entidade individual, em
contado direto e imediato com o mundo exterior. [...] A tendência atual
considera o espírito como uma função da vida social – incapaz de operar e de
se desenvolver a partir de si mesmo, mas requerendo os stimuli contínuos
oriundos dos organismos sociais e encontrando sua substância no social. A
teoria da hereditariedade familiarizou-nos com a concepção de capacidades
individuais, tanto mentais quanto físicas, herdadas da raça: elas formam um
capital que o indivíduo herda do passado e do qual ele é depositário para o
futuro. A Teoria da Evolução nos familiarizou com a concepção segundo a qual
o espírito não pode ser considerado como uma possessão individual, exclusiva,
mas como o termo dos esforços e reflexões da humanidade.201
As considerações precedentes, que privilegiam sistematicamente o coletivo, ou
mesmo o coletivismo, em detrimento do individual, não teriam como, absolutamente,
justificar a incultura. Entretanto, não nos espantemos diante da queda do nível escolar a
que elas inelutavelmente conduzem. Deliberadamente provocada, essa desvalorização
busca destruir a inteligência, “noção puramente individual”, antissocial e reacionária.
O déficit democrático
Entretanto, a introdução dos ensinamentos não cognitivos (que buscaria,
lembremo-nos, não a democratização dos estabelecimentos, mas sim a socialização dos
alunos) teria beneficiado as classes menos favorecidas? De modo algum, e os resultados
da “democratização” do ensino, na qual se inscreve a instauração da escola única,202 são
irrefutáveis. Eis a sentença definitiva pronunciada contra ela por Antoine Prost, alto
dirigente do SGEN-CFDT, antigo membro do gabinete de Michel Rocard: “Os resultados
surpreendem: a democratização do ensino está completamente estagnada há duas
décadas”.203
Tentei conhecer com precisão, tomando o exemplo da região de Orléans,
o que realmente se havia passado com o ensino na França no último terço de
século. Penso haver mostrado que a democratização progrediu até o início dos
anos sessenta, dentro de uma estrutura escolar pensada por conservadores
dotados de uma intenção convenientemente reacionária de defesa e de
ilustração das Humanidades, enquanto que, ao contrário, as reformas de 1959,
de 1963 e de 1965, que pretendiam assegurar a igualdade de oportunidade nas
escolas e a democratização do ensino, não fizeram de fato senão organizar o
recrutamento da elite escolar no seio da elite social. Esse resultado não me
alegrou em nada, mas me parece incontornável. Também eu, no início dos
anos sessenta, fui partidário convicto dessas reformas cujos resultados
contradizem as intenções. Meu primeiro livro foi uma defesa em seu favor,
quando tais reformas não estavam concluídas. A verdade é que não critico
ninguém: constatações não são condenações.204
Quaisquer que tenham sido suas limitações, o ensino das décadas anteriores
oferecia a cada um possibilidades de emancipação, tanto intelectuais como culturais e
individuais, profissionais ou sociais, bem superiores às do sistema que vigora atualmente.
Outra coisa não se deve ver aí senão a consequência inelutável de uma reforma que
pretende antes veicular valores e um tipo de ensino não cognitivo, desprezando totalmente
o estrago provocado às crianças que recebem uma tal formação. Assim, espantar-se-á
alguém quando a política atual – a respeito da qual criptocomunistas e globalistas estão
em perfeito acordo – suscita oposições instintivas tanto à direita quanto à esquerda, entre
os adversários do tratado globalista de Maastricht? Mas tais efeitos perversos deveriam
causar surpresa, quando o objetivo do sistema educacional, após ter sido radicalmente
modificado, consiste agora em socializar os alunos em vez de democratizar o ensino?
Em dezembro de 1989, à época da extinta URSS, o doutor Povalyaev, chefe do
setor de sociologia do Ministério da Bielorrússia, em sua intervenção em um seminário de
alto nível da Unesco, declarou:
Um dos paradoxos da sociedade moderna é o de que ela não tem
necessidade de um grande número de pessoas instruídas. A seleção se opera
por meio do que se chama “elite social”, que realiza o trabalho intelectual
necessário. Aos demais compete ou a execução das decisões ou o exercício de
cargos subalternos. É evidente que há uma parte da população que não executa
nenhum desses trabalhos. Essa tendência difere entre os países e seus graus
de desenvolvimento. Em síntese, a sociedade apenas raramente consegue
equilibrar suas demandas com as de seus cidadãos e suas capacidades.
(Unesco)205
As linhas acima permitem compreender que o autor se coloca desde a perspectiva
de uma sociedade dual, quando ele enuncia na página seguinte que:
Existem profundas diferenças em matéria de educação, diferentes
tendências e diferentes programas. Deveria haver mais possibilidades para as
classes e para as unidades de ensino especial dedicadas a crianças dotadas e
talentosas. É somente sobre uma base assim que o potencial intelectual da
sociedade pode ser revigorado.206
Por essa razão, a ideia de liceus internacionais para crianças dotadas
parece muito apropriada. O conceito de intelecto é um conceito internacional e
humano. Os mais dotados e os mais talentosos devem receber o melhor.207
Assim deveria ser, portanto, a educação futura: para a massa, o ensino não
cognitivo, pura doutrinação esvaziada de toda substância intelectual; para a elite, uma
verdadeira formação intelectual (estando ela mesma sujeita a alguma caução) necessária
ao trabalho intelectual. Seria ingenuidade, contudo, supor que essa elite estaria a salvo da
doutrinação comuno-globalista e que esta seria reservada somente ao povo. Concebe-se
facilmente que a “formação ideológica” – rebatizada com o nome de “educação cívica”–
que por ela seria recebida, haveria de ser muito mais severa. Não obstante, essa elite
possuirá certos instrumentos intelectuais que lhe permitiriam a emancipação.
Para que sejamos bem compreendidos: não se trata de advogar em favor de uma
escola única, que, como vimos, termina por negligenciar os mais humildes, mas sim de
dar a cada um conforme suas capacidades, em vez de submeter a uma escravidão
psicológica e intelectual aqueles que não tiveram ocasião de pertencer, por mérito ou por
nascimento, à elite. Nada temos a opor ao projeto de dar o melhor somente àqueles que o
podem receber. Mas ninguém poderia admitir que “a sociedade moderna [...] não tem
necessidade de um grande número de pessoas instruídas”, a não ser quando se considera a
situação a partir de uma perspectiva mercantil e ultraliberal, ou totalitária e
criptocomunista. Que se ofereça aos demais o que eles podem assimilar, que não se lhes
feche sistematicamente o acesso à instrução, à verdadeira cultura e à liberdade intelectual
e espiritual. Que não se lhes prive dos verdadeiros instrumentos de libertação.
Ademais, a não ser que se acredite na total incompetência de nossos governantes
– desculpa sob a qual, é verdade, eles se abrigam com frequência –, é difícil negar que a
derrocada do pensamento e o massacre dos inocentes foram planificados desde longa
data, que o delírio escolar e o desalento do ensino208 são a culminância de um processo
revolucionário empreendido, com muita lucidez, desde quase um século. A questão das
elites se coloca de modo inelutável. Como um sistema assim garante a seleção e a
formação de suas indispensáveis elites? Pois, claro está, ninguém – seja à direita, seja à
esquerda – pôde jamais acreditar seriamente em sua desaparição, e apostar na sociedade
sem classes, ou no dogma do partido, vontade emanada desde as massas populares, essas
fábulas destinadas a mistificar o povo. Sem colocar em dúvida a sinceridade de um
Antoine Prost, realmente preocupado com a queda do nível escolar, não se fica autorizado
a pensar que a questão das elites talvez tenha escapado aos defensores da incultura? Pois
os Stanley Hall, os John Dewey – professores universitários – e outros incensadores do
ensino não cognitivo têm, por sua vez, recebido uma excelente educação, a qual lhes
permite não serem enganados por tal discurso. Próximos ao poder, pertencentes às elites
política e intelectual, e suficientemente instruídos para saber que a Revolução necessita de
sábios, eles não ignoram que as sociedades não teriam como ser governadas, ou mesmo
conservadas enquanto tais, por indivíduos que não houvessem recebido outra coisa que um
ensino não cognitivo e multidimensional. Não se pode supor, com realismo, que esses
homens de poder – os quais dão provas, por meio de seus escritos, de possuir grandes
conhecimentos e profundas intuições psicológicas e sociológicas – cheguem a conceber,
mesmo que por um instante, que nossas sociedades podem ser governadas por iletrados.
Pois, sendo assim, como se daria a seleção e a formação das elites?
Aqui, dois modelos se defrontam, e logo se aproximam. Em primeiro lugar, um
modelo comunista de seleção e de formação das elites sobre bases intelectuais rigorosas
– mas arbitrárias –, sob o controle do Estado; em seguida, um modelo ultraliberal em que
a reprodução social se efetua mecânica e inexoravelmente. O tour de force do globalismo
consiste em haver conseguido aproximar duas concepções aparentemente irreconciliáveis:
a seleção das elites sobre bases intelectuais não exclui a reprodução social; por razões
sociológicas, ela a requer frequentemente. E, por outro lado, que importa?, não é a
extração social da elite que tem importância, mas sim a ideologia – globalista – que lhe é
inculcada. Essas duas filosofias totalitárias, igualmente hegelianas, chegaram
definitivamente a uma síntese, concretizada pela Declaração Mundial sobre a Educação
para Todos, adotada unanimemente por 155 países e por cerca de vinte organizações
internacionais – o que não deve em nada surpreender. Bastante próximas uma da outra,
seu único desacordo está em qual modelo econômico deve ser aplicado. Estando resolvido
o problema – provisoriamente, pois não se renunciou a fazer “evoluir as mentalidades” –, a
convergência entre capitalismo e comunismo, anunciada por Sakharov, pode então efetuarse
sem dar contra obstáculos maiores.209 Ambos concordam acerca da necessidade de
manter uma casta dirigente, instruída, separada de um povo ignorante. A elite possuiria
então um modo de controle social absoluto, e a reprodução social, assegurada por meio do
ensino privado independente,210 desviado de sua missão, deve garantir a perenidade de seu
poder. Apenas os elementos mais brilhantes da classe popular, selecionados a partir de
critérios igualmente indeterminados, lograriam escapar, graças às suas qualidades, ao
“recrutamento da elite escolar no seio da elite social” tal como já ocorre. Porém,
inversamente, a elite seria submetida a uma doutrinação hegeliana, globalista e totalitária,
que a todo momento ameaçaria com o retorno ao comunismo, de acordo com a
advertência de Gorbatchev, a qual, com exceção dos leninistas, a quem ela decerto não
passou despercebida, não foi suficientemente notada:
Para colocar um termo a esses rumores e a essas especulações, que se
multiplicam a Oeste, eu gostaria de uma vez mais fazer notar que temos
conduzido todas as nossas reformas em conformidade com a via socialista. É
dentro do quadro do socialismo, e não no exterior, que havemos de buscar as
respostas a todas as questões que se impõem. É em função desses critérios
que nós avaliamos tanto os nossos sucessos como os nossos erros. Aqueles
que esperam que venhamos a nos afastar da via socialista hão de
decepcionar-se profundamente. Cada elemento do programa da perestroika – e
o programa no seu conjunto – fundamenta-se inteiramente sobre a ideia de
que, quanto mais socialismo, mais democracia.211
Pois não existe qualquer contradição entre democracia aparente e socialismo,
como o presente trabalho busca demonstrar. Definitivamente, importa compreender que o
socialismo não é um sistema econômico, mas um sistema social, que pode muito bem
acomodar-se ao capitalismo, para dele logo desembaraçar-se, se necessário, uma vez que
a revolução psicológica tenha sido concluída. O controle psicológico, por intermédio da
educação, da mídia, da gestão de empresas e do controle social, realizado graças à
descentralização de todas as atividades, e não da educação apenas, conduz a uma
sociedade igualmente totalitária, na qual os modos primitivos de controle foram
substituídos por técnicas de controle não aversivas, das quais o povo não tem consciência.
Manipulado, ele não se apercebe de que seu comportamento é controlado, de modo diverso,
com mais eficácia do que qualquer outro tipo de controle a que ele estaria submetido num
sistema totalitário, no qual sua revolta latente haveria de lhe garantir sua última proteção
psicológica. O leitor nos há de perdoar por não podermos desenvolver esses pontos no
âmbito deste opúsculo.
A sociedade dual
A Nova Ordem Mundial instala seus representantes sobre cada continente –
chamado “região” pelos iniciados – e em cada país. Assim se cria uma casta de
tecnocratas, separada do povo, coisa que os europeus já conhecem. Decerto, a sociedade
deve ser, segundo os ideólogos globalistas, uma sociedade dual. Trata-se aqui de um
conceito de base, sem o qual não é possível compreender as reformas em curso, tanto no
setor do ensino quanto nos demais. Sociedade dual: os dirigentes e os dirigidos, a elite e o
povo. Há quem diga: os senhores e os escravos.
A situação presente não inspira qualquer otimismo. Em certos países
desenvolvidos, a delinquência juvenil aumenta. As drogas, o roubo, o homicídio
e a promiscuidade espalham-se entre a juventude. Se, uma vez chegados à
idade adulta, esses jovens venham a ter em suas mãos o nosso futuro, nosso
destino será a catástrofe. A perspectiva deve ser ainda mais angustiante
desde que a mesma situação venha a ocorrer nos países em desenvolvimento.
O sistema atual de educação não pode furtar-se à sua responsabilidade na
tarefa de evitar essa catástrofe iminente.212
No que concerne aos países desenvolvidos, percebe-se, no domínio da
cultura, diversas tendências fundamentais e de longo prazo, definidas por,
entre outros, Willis Harman:213 [...] d) desenvolvimento de uma “elite do
saber”, ou seja, uma elite dirigente meritocrática, cuja ascensão seja
fundamentada no saber [tecnocratas não eleitos e, portanto, dispensados de
responder sobre seus atos diante dos eleitores].214
Talvez a característica mais impressionante do debate relativo ao
universalismo seja, em se tratando de direitos humanos, o abismo que separa
as “pessoas de dentro” (as que participam do debate a título profissional,
como diplomatas, representantes de organizações não governamentais [ONGS]
e alguns universitários) das “pessoas de fora” (cujo interesse geralmente é
temporário e que consideram o projeto desde uma posição remota).215
O trabalho intelectual, bem como o poder, será então reservado a uma elite
tecnocrática que terá recebido, somente ela, a formação intelectual (concebida por quem e
segundo quais critérios?) necessária à realização desse trabalho. Uma vez que “a
sociedade moderna [...] não tem necessidade de um grande número de pessoas instruídas”,
a sociedade dual deve ter um sistema educacional igualmente dual:
Ao mesmo tempo, a função social da educação, que se exprime por sua
democratização, gerou um igualitarismo vulgar que se manifesta pela
separação da educação em dois tipos: a educação para as massas e uma
educação de qualidade, reservada a uma elite. Pode-se constatar que os
resultados quantitativos da educação são inversamente proporcionais à sua
qualidade e que a seleção social vem-se tornando cada vez mais refinada e
informal.216
Ora, conforme já vimos, não se pode afirmar que “os resultados quantitativos da
educação são inversamente proporcionais à sua qualidade”; o sistema educacional francês,
que se democratizava “até ao início dos anos sessenta”, seria a prova do contrário se não
tivesse sido feito em pedaços pela revolução psicopedagógica. Ao contrário, foi a pretensa
democratização do ensino – que visa, na realidade, à socialização dos alunos – que
“organizou o recrutamento da elite escolar no seio da elite social”. Portanto, por que
perseverar no caminho do ensino não cognitivo e da socialização dos alunos, que conduziu
à situação catastrófica que conhecemos? Apenas a vontade de manter o povo na
ignorância e de impor o globalismo explicaria tudo isso?
Qual é, portanto, a razão desse ódio à cultura autêntica e à inteligência, dessas
agressões ininterruptas contra as faculdades da abstração? Querer-se-ia banir os
transcedentais e os universais do ensino francês e do espírito dos homens? Não cessará
esse processo antes que Aristóteles, Platão, São Tomás de Aquino e Santo Agostinho
tenham sido tornados inacessíveis às gerações futuras? Desejar-se-ia interditar a elas o
acesso aos universos intelectuais?
Ai de vós, legistas, porque tomastes a chave da ciência! Vós mesmos
não entrastes e impedistes os que queriam entrar!217
A massa, a quem toda a formação intelectual será recusada, receberá, não
obstante, uma “educação” destinada a evitar a pretensa “catástrofe iminente”. Conforme já
havíamos afirmado, é um erro pensar que a elite escapará totalmente a essa “educação”,
a essa doutrinação, ainda que diferenças importantes possam existir entre a ideologia
destinada às massas e aquela ensinada à elite. A ideologia globalista será, desse modo,
imposta tanto às massas quanto à elite, por meio de métodos psicopedagógicos e segundo
a reforma estrutural do sistema educacional que analisamos.
A elite, que será essencialmente cooptada – termo elegante a mascarar uma
ditadura –, apesar de uma aparência de democracia que se poderá manter durante algum
tempo, deve ser recrutada exclusivamente entre os globalistas. Aderir à ideologia
globalista será, portanto, e já o é frequentemente, a condição sine qua non, o passaporte
que permite abandonar a manada:
A educação deverá levar em conta as prováveis divisões do mundo
durante um período que será de turbulência. Enquanto algumas sociedades
aprenderão a se integrar no conjunto, outras viverão mais ou menos para e no
interior de certos grupos – mesmo que se trate dos tradicionais “Estadosnações”
–, corporações ou “gangues”. Ainda no interior das sociedades poderá
haver um dualismo: de um lado, grupos frequentemente de base geográfica,
relativamente conscientes e seguros de si mesmos, porém igualmente
sensíveis ao contexto global, no qual eles evoluem, e também à sua dimensão
futura. Ao mesmo tempo, haverá outros grupos, relativamente inconscientes
de si mesmos ou da situação do planeta, vivendo ao azar. Estes últimos serão
os que devem concluir que a questão da sobrevivência só diz respeito a uma
tribo, a uma casta, a um determinado âmbito geográfico ou mesmo a um
Estado-nação.218
Escrevemos acima a palavra “manada” propositalmente, uma vez que ela sugere
muito bem a concepção que os globalistas têm dos povos, rebanho que se conduz ao
abatedouro. Todos aqueles que já encontraram funcionários internacionais – ou seus
clones, que gostam de assinalar sua presença nas inumeráveis ramificações das
organizações supranacionais – não podem deixar de ficar espantados com o desprezo, e
mesmo a raiva, que a maior parte dentre eles dedica aos povos e, particularmente, às
suas mentalidades: “diferentemente do impaludismo e de outras causas de mortalidade
entre adultos nos países em desenvolvimento, a AIDS não poupa as elites”.219
FIGURA 3.5A – TAXA DE INFECÇÃO POR HIV E NÍVEL SOCIO-ECONÔMICO
EM DIVERSAS AMOSTRAS URBANAS; ÁFRICA-SUBSAARIANA
Ocorre que, de fato, é no domínio das mentalidades, dos psiquismos, que se situa
o hiato entre os globalistas e o povo. Os primeiros comungam de um ideal messiânico e
mundial, e já adotaram um novo sistema de valores, uma nova mentalidade e um novo
psiquismo, relegando à “lixeira da história” o legado das civilizações anteriores, fruto de
evoluções sociais milenares, de inumeráveis fracassos e ajustamentos sucessivos, com a
incorporação, de maneira orgânica, do gênio das gerações anteriores:
Os diferentes fatores que condicionam o estabelecimento de uma
sociedade de paz têm sido frequentemente evocados, a começar pelo da
dimensão política. A revisão radical da percepção de conjunto dos problemas
da cooperação internacional, que implica a abordagem evocada acima, requer
uma mentalidade política nova.220
Os povos, mais prudentes e menos propensos a se deixar seduzir pela última
utopia da moda,221 ligados à realidade do trabalho, curvados sobre a terra ou sujeitados à
máquina, talvez reconheçam instintivamente, sem poder justificá-lo, mas com justeza,
todo o valor de quanto herdaram e os perigos imensos de uma revolução tanto social
quanto psicológica. Assim, os globalistas chocam-se contra dois obstáculos maiores: a
estrutura social que se reproduz a partir de uma evolução muito limitada quanto a seus
eixos principais; e a mentalidade popular, transmitida de geração em geração:
Ainda que o mundo declare sua intenção de cooperar para a instauração
de um desenvolvimento sustentável, fundado sobre a unicidade do mundo,
reconhecendo que a época atual representa um período de transição, os
paradigmas e os métodos de pensamento não estão adaptados.222
A Nova Ordem Mundial trabalha sobre a reprodução social, no que reside o domínio
das ciências sociais que estudam, particularmente, os “fatores que favorecem a mudança
social”, o que, traduzido da língua de pau globalista, significa: as técnicas de influência e
de controle social que conduzem à revolução silenciosa e doce (menchevique). Mas não é
assim tão fácil transformar a mentalidade de um povo e, ainda que os comunistas tenham
obtido significativos resultados nesse domínio, a revolta latente dos povos que lhes
estavam submetidos denuncia os limites com os quais as técnicas elementares colidem. É
desse modo que o desprezo dos globalistas pelos povos, diante da resistência passiva
destes, se transforma rapidamente em ódio, dado o obstáculo enorme que essa resistência
representa à consecução de seus planos, por transmitir, de geração a geração, uma
herança e uma mentalidade sobre as quais se puderam construir todas as obras de arte e
os milagres do espírito que a humanidade admira – e que a Nova Ordem Mundial deseja
esvaziar de sua substância ou apagar da memória dos homens. Não nos deixemos enganar.
Após décadas de trabalho, é chegada a hora de empregar determinadas técnicas para
modificar a mentalidade dos indivíduos e dos povos. A reforma da educação mundial em
curso visa precisamente a introduzi-las em nossas sociedades.
196 Louis Legrand, L’école unique, à quelles conditions?, Op. cit., p. 96.
197 G. Stanley Hall, Educational problems, Nova Iorque, 1911, II, p. 443-444. Citado
por S.L. Blumenfeld, N.E.A., Trojan horse in american education, Boise, Idaho, USA,
Paradigm Company, 1990, p. 107.
198 J. Dewey, Liberalism and social action, Nova Iorque, G.P. Putnan’s Sons, 1935,
p. 52. Citado por Blumenfeld, Ibid, p. 106.
199 J. Dewey, Democracy and educaction, Nova Iorque, Macmillan, 1916, Free Press
Peperback Edition, 1966, p. 297. Citado por Blumenfeld, Ibid, p. 106.
200 J. Dewey, The school and society, Chicago, 1889; reimpresso em: J. Dewey,
The middle works, 1899-1924, vol. 1: 1899-1901, Joann Boydston, Southern Illinois
University Press, 1976, p. 19. Citado por Blumenfeld, Ibid., p. 106.
201 J. Dewey, Ibid., p. 69. Citado por Blumenfeld, Ibid., p. 106.
202 Escola única: no âmbito educacional francês, concepção, de pretensões
democráticas, de um sistema escolar baseado na seleção para o ensino superior mediante
o critério do mérito, e não segundo condições socioeconômicas – N. do T.
203 A. Prost, L’enseignemant s’est-il democratisé?, PUF, coll. “Sociologies”, 1986.
Citado por Ph. Nemo, Pourquoi ont-ils tué Jules Ferry?, Paris, Grasset, 1991, p. 32.
204 Ibid., p. 201 ss., citado por Ph. Nemo, Ibid., p. 33.
205 Simpósio internacional e mesa redonda, Qualities required of education today...,
Op. Cit., Unesco, p.38. Grifo nosso.
206 Ibid., p. 37.
207 Ibid.
208 M. Jumilhac, Le massacre des innocents, Paris, Plon, 1984. A. Finkielkraut, La
défaite de la pensée, Paris, Gallimard, 1987. J. Capelovici, Em plein délire scolaire, Paris,
Carrère, 1984. J. de Romilly, L’enseignement en détresse, Paris, Juliard, 1984.
209 Seria abusivo relacionar direita e esquerda a capitalismo e comunismo. Por
outro lado, as elites políticas acham-se longe de estar totalmente convertidas ao
globalismo e, em todos os partidos, encontram-se opositores a essa política. O próprio
partido comunista a combate, atacando o seu contingente ultraliberal. Não obstante, direita
e esquerda sofrem a influência intelectual de ideologia globalista, sendo a direita mais
sensível ao seu componente ultraliberal, e a esquerda ao seu componente social
(criptocomunista). Claro está que tal política constitui uma traição tanto da direita como
da esquerda, e um dos objetivos do presente trabalho é o de chamar a atenção dos
eleitores e das elites políticas para esse fenômeno e para o que aí está realmente em
jogo.
210 “Enseignement libre hors contrat”, no original; corresponde a uma iniciativa de
escolas católicas que promovem uma educação orientada por valores cristãos tradicionais,
à margem das diretrizes do Ministério da Educação Nacional francês – N. do T.
211 M. Gorbatchev, Perestroïka, J’ai lu, p. 44.
212 Simpósio internacional e mesa redonda, Qualities required of education today...,
Op. Cit., Unesco, p. 104.
213 Ver seu artigo: “La societé americaine em changement”, em: Perspectives
diferentes d’avenir de l’enseignement aux Etats-Unies d’Amérique et em Europe, Paris,
OCDE, 1972.
214 S. Rassekh, G. Vaideanu, Op. Cit., p. 89.
215 Colóquio organizado pela ONU, em Genebra, dias 16 e 17 de dezembro de 1985,
L’universalité est-elle menacée?, Nova Iorque, Nações Unidas, Departamento da
Informação, 1987, p. 56. Esse colóquio contou com a presença de vários ministros.
216 Simpósio internacional e mesa redonda, Qualities required of education today...,
Op. Cit., Unesco, p. 93.
217 Lc 11, 52 (da Bíblia de Jerusalém) – N. do T.
218 Simpósio internacional e mesa redonda, Qualities required of education today...,
Op. Cit., Unesco, p. 35. Grifo nosso.
219 Banco Mundial: Rapport sur le développement dans le monde 1991,
Washington, Banco Mundial, 1991, p. 73. Esse importante relatório é precedido de um
prefácio assinado pelo presidente do Banco Mundial.
220 Congresso Internacional sobre a Paz no Espírito dos Homens, Rapport final,
Op. Cit., Unesco, p. 23.
221 “O peixe morre pela cabeça”. Provérbio russo.
222 Ibid., p. 15.
CAPÍTULO XIV
O TOTALITARISMO PSICOPEDAGÓGICO
A revolução psicopedagógica é, portanto, essencialmente totalitária. Nascida nos
meios revolucionários que, com a perestroika e a reforma estrutural, mudaram, não de
objetivo, mas de estratégia, ela pretende levar a cabo uma revolução psicológica que será
seguida, inelutavelmente, de uma revolução social. Globalista e criptocomunista, hegeliana,
ela busca submeter o indivíduo ao Estado, tanto em seu comportamento quanto em seu
psiquismo e em seu próprio ser:
Na verdade, toda a taxonomia dos objetivos pedagógicos subentende um
modelo de adulto ideal. É preciso alguma coragem, nos dias de hoje, para
admitir que se escolheu este ou aquele dentre os inumeráveis modelos que
nos são propostos. (Unesco)223
Precisamos ter uma concepção do tipo de pessoa que desejamos formar,
para que só então possamos ter uma opinião precisa sobre a educação que
consideramos ser a melhor. (Unesco)224
A revolução psicológica é veiculada, inicialmente, pelo sistema educacional. Muitos
outros domínios são igualmente envolvidos nessa tarefa, tais como a mídia, a
administração de empresas e a gestão de recursos humanos, os setores organizados da
sociedade civil e mesmo as instituições religiosas, que se busca incluir no processo. Todos
são, portanto, envolvidos, tanto crianças como adultos. Por outro lado, a subversão do
sistema educacional não envolve unicamente os primeiros, mas sim o conjunto da
população – adultos inclusive. A reforma psicológica e a lavagem cerebral em escala
mundial não poderiam deixar ninguém ileso. Eis as palavras proferidas por um conselheiro
de Estado chinês em seu discurso de abertura de um seminário de alto nível, ocorrido na
Unesco:
Adentramos o século XXI. O desafio que a educação deve enfrentar é
global e severo. Por essa razão, a missão da educação será, ao mesmo tempo,
árdua e gloriosa. Nesse vigésimo primeiro século, aquele que controlar a
educação terá a iniciativa. O conceito de educação deve ser ainda renovado. A
educação será permanente; a sociedade em seu conjunto a terá sob os olhos;
a estrutura da educação será mais flexível e mais diversificada, formando
uma rede que se estende por todo o conjunto da sociedade. (Unesco)225
Tais reflexões não aparecem isoladas:
A educação é um modo de vida que se estende ao longo da duração de
toda a vida. Todo ano, todo mês, todo dia, do berço ao túmulo, todo mundo
aprenderá, estará pronto a aprender e terá possibilidade de aprender, em seu
domicílio, na escola, na universidade, na usina, na fazenda, no hospital, no
escritório, na cooperativa, no templo, no cinema, no seu sindicato, no seu
partido político, no seu clube. (Unesco)226
O projeto do seu [da Unesco] Terceiro Plano de Médio Prazo (1990-1995)
prevê a implementação de um Plano integrado de educação para a paz e os
direitos humanos [extensivos, convém lembrar, ao direitos sociais] que,
respeitando totalmente a especificidade de cada um desses domínios,
desenvolverá uma estratégia global que envolve os diferentes elementos do
processo educacional – elaboração de material didático, desenvolvimento de
programas de estudo, formação de professores – e que se dirige a todos os
níveis e a todas as formas de educação: educação escolar, educação não
formal, educação e informação do grande público, ensino universitário e
formação destinada a determinadas categorias profissionais diretamente
implicadas (magistrados, médicos, oficiais de polícia etc.). (Unesco)227
Do mesmo modo, o Quadro de ação aprovado junto com a Declaração mundial
sobre a educação para todos, na presença de delegados de 155 países, assevera também
(p. 13) que os
organismos familiares e comunitários, organizações não governamentais,
e outras associações voluntárias, sindicatos de professores, outros grupos
profissionais, empregadores, a mídia, partidos políticos, cooperativas,
universidades, instituições de pesquisa, organismos religiosos, etc. – além de
autoridades responsáveis pela educação e por outros departamentos
ministeriais e administrativos (trabalho, agricultura, saúde, informação,
comércio, defesa etc.)
deveriam ser “mobilizados de modo eficaz a fim de desempenharem seu papel
durante a implementação do plano de ação”.
223 S. Rassekh, G. Vaideanu, Op. cit., p. 138, citando o prefácio de Dr. F. Robaye,
tomo II, Taxonomie des objectifs pédagogiques, B. S. Bloom (Montréal, 1978).
224 Ibid., p. 228. As propostas citadas são de Bertrand Russell.
225 Simpósio internacional e mesa redonda, Qualities required of education today...,
Final Report, Op. Cit., Unesco, p. III 21.
226 Simpósio internacional e mesa redonda, Qualities required of education today...,
Op. Cit., Unesco, p. 53.
227 Congresso internacional sobre a paz no espírito dos homens. Citação final, Op.
cit., Unesco, p. 81.
CONCLUSÃO
O papel da escola está em vias de ser radicalmente redefinido por meio de um
processo antidemocrático no qual as reformas são introduzidas sub-repticiamente, sem
expor nada do que está nelas implícito e sem jamais mostrar nem sua lógica nem sua
finalidade real: a “mudança” social.
A esse respeito, podem ser opostas diferentes concepções dessa
formação [dos professores]: “acadêmica” (que enfatiza a sólida aquisição de
conhecimento da disciplina); “prática” (que dá mais importância à experiência
como base da competência pedagógica); “tecnológica” (na qual a eficácia do
ensino é avaliada cientificamente); e “crítica” ou “social” (na qual os
professores são considerados como os agentes da mudança na escola e na
sociedade).228
Os elementos essenciais da revolução psicopedagógica são a revolução ética e a
revolução cultural na visão de mundo dos professores, a “inovação” pedagógica que
introduz nas escolas as técnicas de lavagem cerebral, a formação inicial e permanente dos
professores, a descentralização do sistema educacional e a informatização do processo de
avaliação dos alunos. Todos esses elementos estão presentes nas reformas introduzidas
nesses últimos anos na França, e ameaçam mudar radicalmente a finalidade de nosso
sistema educacional.
O fechamento dos IUFMS, do CNDP, dos CRDPS, da INRP, a supressão da formação
continuada de professores e demais profissionais do ensino, o banimento das
psicopedagogias, o retorno aos programas anteriores etc, são também medidas a se tomar
com urgência. Da mesma forma, o desmantelamento (coisa bem mais delicada) das redes
pedagógicas internacionais deveria ser realizado, começando-se por informar nossos
vizinhos acerca dos perigos a que estão expostos.
Teríamos afastado, com isso, todo o perigo? O problema é, na verdade, mais
vasto. Trata-se da aplicação das Ciências Humanas e Sociais à revolução, aplicação esta
que não se limita apenas ao domínio do ensino. Em particular, as técnicas de
descentralização e de engajamento de pessoal são bem conhecidas dos administradores e
alcançam, por seu intermédio, um número considerável de indivíduos. Tais técnicas
permitem a interiorização simultânea de valores coletivistas (trabalho em equipe) e de
valores liberais, materialistas e mercantis (produtividade, performances). Mais ainda do
que sobre as nossas, é possível estimar o impacto prodigioso que técnicas assim podem
ter sobre as sociedades do Terceiro Mundo. Notemos, de passagem, que essas
observações colocam em evidência os movimentos que agitam atualmente os meios
comunistas e o sindicalismo francês, divididos entre defensores e adversários do
engajamento, mediante compensação, de pessoal. Compreenda-se bem: o que de fato está
em jogo é algo muito mais profundo. Trata-se da aceitação ou da recusa do modelo
consensual globalista, assim como dos valores – dos conteúdos latentes – que ele veicula
e obriga a interiorizar. Trata-se da aceitação ou da recusa de uma ditadura psicológica
insidiosa.
Da mesma forma, se pôde compreender o seguinte: a outra ameaça provém das
instituições internacionais, cujo papel determinante em matéria de educação deixamos
claro. Mostramos também toda a importância que essas instituições dão à pesquisa e à
aplicação das Ciências Humanas e Sociais, cujo campo de atuação estende-se para além
do âmbito do ensino. Vimos também que essas organizações conduzem uma política
revolucionária criptocomunista e globalista. Além disso, o seu papel cresce a cada dia.
Será preciso lembrar da conferência do Rio ou das negociações do Gatt,229 para ficarmos
apenas com as mais espetaculares? Insensivelmente, conforme aos princípios
mencheviques, o centro de decisão da política francesa se desloca em direção a outros
lugares. Insensivelmente, esses novos centros de decisão estabelecem uma ditadura
psicológica mundial que nada deixa a desejar ao Admirável mundo novo; tampouco a 1984.
A opressão psicológica, da qual vimos os primeiros sintomas, baseia-se nas ideias
de Skinner sobre os modos de controle “não aversivos”, que não suscitam oposição. Sendo
por isso mesmo difícil de combater, ela deve ser inicialmente desmascarada e denunciada,
mostrando-se o que ela é: uma ditadura psicológica. Somente depois disso, quando os
povos tenham tomado consciência da malignidade dos processos empregados contra eles,
para modificar seus valores e sua psicologia, para atentar, enfim, contra o seu ser, só
então a oposição será possível.
Trata-se, evidentemente, de uma manobra política que deve, para trazer todas as
vantagens a seu lado, apoiar-se sobre todos os partidos políticos ligados ao respeito pela
democracia, pela liberdade e pela dignidade humana. Enquanto membro da sociedade – que
não confundimos com o Estado –, apelamos a todos os partidos políticos para que
publicamente tomem posição sobre essa questão que, não duvidemos disso, constitui um
dos desafios mais importantes dos próximos anos. Apelamos ainda para que, assim que o
possam, atendam à urgência das medidas que se impõem para dar cabo a esse processo
totalitário.
Enfim, gostaríamos de nos dirigir a todos aqueles que, seguros de possuir a
verdade e cegos o bastante para não duvidar da nobreza de sua causa, colocam tanto
ardor revolucionário em lavar o cérebro de seus semelhantes, em pôr fogo na mente dos
homens, em neles incutir a revolta e em ultimar a revolução psicológica: estão seguros de
que não fazem o jogo do adversário? Estão seguros de que ele não os conduzirá aonde não
querem ir?
228OCDE/CERI, La formation des enseignants, Adendo ao CERI/CD(89)11, Paris,
OCDE, 1990, p. 10. Nota do Secretariado da OCDE/CERI.
229Acordo Geral de Tarifas e Comércio. Em inglês: General Agreement on Tariffs
and Trade – N. do T.
BIBLIOGRAFIA SELETIVA
Nós não ignoramos o tempo dispensado para a maior parte de nossos leitores.
Assim, reduziremos nossa bibliografia a uma única obra, capital, que nos abriu os olhos
sobre a revolução do sistema educacional americano e ao qual nós devemos muito. Nós
recomendamos enfaticamente a leitura dessa obra.
Beverly K. Eakman, Education for the New World Order, Portland, Oregon, USA,
Halcyon House, 1991. ISBN: 0-89420-278-2.
Essa obra pode ser encomendada por intermédio de uma livraria francesa.
Maquiavel Pedagogo – ou o ministério da reforma psicológica
Copyright © Pascal Bernadin
Edição brasileira autorizada ao Instituto Olavo de Carvalho pelo autor.
1ª edição – janeiro de 2013 - CEDET
Imagem da capa: Goya, ‘Asta su Abuelo’ (série Caprichos, n. 39 – 1799).
Os direitos desta edição pertencem ao
CEDET – Centro de Desenvolvimento Profissional e Tecnológico
Rua Angelo Vicentin, 70
CEP: 13084-060 - Campinas - SP
Telefone: 19-3249-0580
e-mail: livros@cedet.com.br
Gestão Editorial:
Silvio Grimaldo de Camargo
Tradução:
Alexandre Müller Ribeiro
Revisão:
Fernando de Morais
Revisão de provas:
Tom Perroni
Capa & Diagramação:
Diogo Chiuso
Desenvolvimento de eBook
Loope – design e publicações digitais
www.loope.com.br
Reservados todos os direitos desta obra.
Proibida toda e qualquer reprodução desta edição por qualquer meio ou forma, seja ela
eletrônica ou mecânica, fotocópia, gravação ou qualquer outro meio de reprodução, sem
permissão expressa do editor.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Bernardin, Pascal
Maquiavel Pedagogo: ou o Ministério da Reforma Pedagógica / Pascal Bernardin; Tradução
de Alexandre Müller Ribeiro
Campinas, SP: Ecclesiae e Vide Editorial, 2012.
Título Original: Machiavel pédagogue ou Le Ministère de la réforme psychologique.
e-ISBN 978-85-67394-10-7
1. Controle Social 2. Psicologia 3. Educação I. Pascal Bernardin II. Título
CDD 303.3
Índices para catálogo sistemático:
1. Controle Social – 303.3
2. Psicologia Educacional – 370.15
3. Educação para Objetivos Específicos – 370.11
Fonte:http://www.univas.edu.br/menu/BIBLIOTECA/servicosOferecidos/livrosDigitalizados/pedagogia/MaquiavelPedagogoPascalBernardin.pdf
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